podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
30 de Agosto de 2010

Dia 1.

A chegada. Assim que um avião desliza as suas rodas numa pista de aterragem, sentimos desde logo a sensação estrangeira de penetrarmos no ventre cultural de outra nação, de outro povo, outra tribo. Dar os primeiros passos nesses terrenos, traz-nos a mistura absorvente dos cheiros com as cores, esses ocres desérticos mas envolventes, os sabores que a brisa nos traz e que se enrolam na língua, e a transformam num rolo de gostos e paladares. A noite cai como uma manto que nos cobre o corpo. Ouvem-se sons estridentes, latas que batem umas nas outras, vozes que gritam pela clientela mais afoita e que rapidamente se aventura numa mesa corrida de pratos repletos de especiarias e outros condimentos, cozinhados por mãos que haviam ainda há pouco movido ferros sujos para cobrirem as bancas, fugindo de umas gotas de chuva traiçoeira. Mas este jogo de meia sujidade parece ser quase um cartão de visita, e os nossos pensamentos alegram-se em divertidos olhares para a panóplia de discussões e de confrontos pela luta de mais um cliente. A espetada. O cuscuz. A Fanta Orange. Este espectáculo é completo com danças de cobras, vendedores de água, miúdos que pedem, bancadas de sumo de laranja e outros afins. Esta é a praça principal de Marraquexe. Marrocos. Uma cidade onde o transito caótico para os ocidentais é a normalidade para estas gentes que atravessam o Ramadão, período sagrado de sacrifício pessoal dos crentes no Islão. Ouvem-se as rezas, os corpos que deslizam como ondas, os tapetes, as mulheres de um lado e os homens de outro, as mesquitas. Mas nesta ribalta muçulmana uma pergunta começa a assolar-nos: o que nos espera? Com este calor, esta humidade que se agarra à pele, abraçando-a e preenchendo-a, o que nos espera no próximo dia, na manhã seguinte?

 

 

 

 

 

Dia 2.

A carrinha saiu cedo. Kilometros palmilhados numa toada suave, fora do controle da policia, sentindo o sono a querer regressar-nos ao peso dos olhos. A temperatura fresca dava-nos o alento para acreditar que havia uma força maior a proteger-nos. Mas enquanto subíamos a cordilheira do Atlas, a simples frescura era acompanhada por uma chuva ainda miúda, ainda acabada de nascer. Paramos numa aldeia, em que o guia nos deu a indicação para nos prepararmos. Mas agora chovia imenso. Como podíamos começar a caminhada debaixo de um quase dilúvio instantâneo? Estávamos meio baralhados, perdidos nas ideias, arrebatados numa certa pergunta: o que me deu para me meter nisto? E fomos chamados para dentro de um café, ou um local de encontro, ou um sitio com uma pequena sala, uma espécie de refugio, onde sentamos os corpos em cadeiras de plástico e começamos a nossa aventura com o chá de hortelã. Mas logo sentimos que algo estava a acontecer. Do alto das montanhas, a natureza acabava de vomitar uma torrente de pedras e água. Saturou a estrada, os caminhos, as vielas, os passeios, ou mesmo os frágeis alpendres de madeira e palha. Estávamos absortos com tal surpresa. Os nossos olhos absorviam cada movimento de água, cada som estridente de pedaços do planeta a rolarem como berlindes pela cascata improvisada da aldeia. E a caminhada? Estávamos cada vez mais pensantes, cada vez mais questionados sobre se estas seriam as nossas férias desejadas. Mas fomos surpreendidos por outra força ainda maior que a do dilúvio. A força das pessoas, do povo, da cultura que logo se juntou, sempre com um sorriso nos lábios, para se ajudarem. Uns pegavam em paus grossos e tentavam delinear o percurso daquele novo rio. Outros davam as mãos para mulheres e crianças puderem atravessar a torrente. Não deitaram as mãos à cabeça, nem pensaram quanto poderiam pedir de subsídios ao estado, fizeram sim a junção de esforços, de um acreditar quase milagroso e de uma vontade assaz surpreendente. E todos eles em jejum, sim, porque durante a travessia do sol pelo dia, nem água nem comida pode trespassar a porta dos seus corpos. Fica tudo do lado de fora, esperando pelo deitar do sol, no leito da noite.

E de repente fomos sequestrados de novo pela nossa carrinha, uma Ford Transit de um ano que nem dá para ter lembranças, e somos levados para outra aldeia, ali perto, mas que se tornou mais longe, devido aos entraves na estrada que o dilúvio acabara de provocar. Chegou-se a ver um precipício logo ali, diante dos nosso olhos, enquanto o condutor persistente, teimava em dizer aos entulhos espalhados na estrada, que era mais forte, mais poderoso, aliás, nada como vir atrás e tentar de novo. E assim chegamos a Imlil. 1750 m de altitude. Pequena vila encrostada no meio das montanhas. Vislumbrava-se o topo, o Toubkal, os vales repletos de árvores e zimbros, os miúdos que jogavam à bola, as mulas que haviam de carregar o peso das nossas mochilas, e os homens, esses simples homens que nos trouxeram sempre um sorriso, uma bondade, uma atenção, no meio de umas roupas quase eternas, molhadas, mas onde a força da sua simpatia arremessava para o infinito essa imagem de pobreza, e os engrandecia, esses homens de jejum. Enquanto nós comíamos, nós, os Ocidentais. Mas havia ainda o riso das crianças que trocavam a segurança das casas pelas aventuras de um ribeiro, que se tornara mais agreste. Havia o cheiro da terra molhada, suada. O cheiro das verduras. O cheiro das casas... os cheiros que rapidamente se tornaram vizinhos de nós.

Amanhã será outro dia. Mas começamos a pensar que algo quis mudar a rota dos acontecimentos. Algo queria falar connosco. Mas agora repouso, descanso das emoções. Amanhã caminhamos.

 

 

Continua.

publicado por opoderdapalavra às 22:10

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