podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
25 de Outubro de 2009

 

 

Foto: Marcos Sobral

 

 

No principio olhei-a com o vazio nos olhos. Era longe, estreita nas beiras, parecia apertar-se no seu mais ínfimo horizonte, onde penetrava a montanha como uma flecha que corta o peito, fazendo-o sangrar as mais profundas entranhas. Mas aquela estrada não me levava a nenhum leito mais intimo de uma monte que está simples e enraizado na longínqua fronteira que a minha visão alcança. Estou apenas parado, na berma deste caminho, esperando pela passividade e o adormecimento da vida, para que ela possa esquecer-se da minha existência. Penso que assim posso estar apenas vagueando pelos cantos de um mundo compurscado com valores inaudíveis e inexistentes. Posso passar a ser apenas um ermitã dentro do casulo que é esta terra onde até o simples chilrear de um pássaro é quase inacabado, fruto da prepotência desumana que arrasa aos dias o quadro que nos cerca e nos abraça. É como termos um afecto e o rejeitarmos no constante das nossas horas, preferindo odiarmos esse carinho que teima em manter-nos ligados à natura mãe da nossa vida. Estou sozinho e não consigo fazer perder-me no tal esquecimento que desejo. Parece que tenho de a percorrer, indo ao encontro de quem possa pensar como eu. Irritado com o pensamento de que tenho de atravessar o deserto de mim mesmo, estou à deriva nesta estrada, caminhante vagaroso que sou, pensador admiravelmente corrompido pela desgraça. Afinal será que aquilo que queremos que não aconteça, acaba sempre por acontecer, arruinando-nos os projectos? Dane-se o que criou esta teia que dá pelo nome de sociedade, que não nos deixa, que parece um iman no nosso corpo e mente e quer-nos apreender no seu leito e assim fazer de nós apenas mais uma vitima incomum mas comum no mais puro moralismo humano. Somos quem somos, não é? Mas será mesmo que alguém pensa que apenas somos o que somos, ou pensaram que somos aquilo que os outros querem e desejam que sejamos? Como esta estrada, que penso ser uma seta apontada a um destino, mas se calhar é apenas uma estrada, conjunto de alcatrão e tinta pintada, nada mais, e que atravessa simplesmente locais, onde a vida apenas mora com o fulgor dos dias.

Tenho de caminhar, tenho de me afirmar na passada do meu olhar. Assim, partir é andar em direção ao futuro que só saberei o que é quando ele chegar, até lá apenas irei, aqui nesta estrada, onde o passado, o presente e o pensamento do futuro se encontram.

 

 

 

publicado por opoderdapalavra às 22:43

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