podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
23 de Fevereiro de 2012

 

(Sibéria)

Todos os anos, quando Dilacha julga que o Inverno já durou o suficiente, abre o grande saco da Primavera sobre a tenda que envolve o mundo e larga o calorzinho todo sobre a terra.

A Mãe Tom, que espreita impacientemente por aquele sinal, esfrega as mãos de contente, ao ver chegar o bom tempo. Agora é a sua vez…

— Bem, o céu desta Primavera novinha em folha está muito azul mas não é habitado! Tenho de tratar disto.

Mãe Tom sobe a um rochedo e põe-se a sacudir as mangas com força…

Quanto mais ela agita as mangas, mais penas se vão escapando a voltejar pelo ar. Oh, maravilha das maravilhas! Todos os anos, as plumas incham cada vez mais e transformam-se em aves que voam a toda a pressa em direcção aos quatro cantos do céu.

A Avó Aranha regressou tranquilamente a casa, trazendo o pote, que já começava a aquecer…

A Primavera compreendeu que, desta vez, não escaparia: quanto mais calor ela fazia, mais o barro endurecia e mais forte a sua prisão se tornava.

Decidiu, então, descobrir a terra para onde a levavam.

Quando a Avó Aranha a libertou, a Primavera gostou logo da sua nova terra e fez brotar uma bonita luz e um suave calor.

Franck Jouve
Le Printemps
Paris, Hachette Jeunesse, 1992
Tradução e adaptação

publicado por opoderdapalavra às 21:28

 

Um dia, a miséria instalou-se em casa de um pobre homem. Apareceu-lhe sob o aspecto de uma rapariguinha de pés descalços. Depois de entrar, não mais quis deixar a sua nova morada. A vida do homem já não lhe corria bem e passou a correr pior. Suplicou à rapariga que fosse embora, para casa de pessoas mais ricas. Ao que a rapariga respondeu que, se ele lhe desse um par de sapatos, talvez ela pensasse em ir embora.

O homem poupou o mais que pôde e conseguiu comprar-lhe um par de sapatos. Mas, quando chegou o momento de os oferecer à rapariga, deu-se conta de que o tamanho era demasiado pequeno. Voltou a trabalhar afincadamente, a fim de lhe comprar um novo par. Mas os novos sapatos eram ainda mais pequenos. O homem privou-se de tudo quanto necessitava, mas acabou, finalmente, por comprar o par de sapatos maior do mercado. Contudo, nem estes serviam à rapariga…

Então, o homem deu-se conta de quanto mais empobrecia para calçar a sua miséria, mais ela crescia. Os seus pés seriam sempre demasiado grandes. Decidiu, pois, cessar os seus esforços. Desembaraçou-se de tudo e aprendeu a viver de nada… E, desarmada por este homem que tinha encontrado coragem de a albergar, a miséria acabou por fugir, tão contrariada e privada de tudo se encontrava.

Por muito fazer e muito ambicionar,
Alimentamos a nossa miséria.
Mais vale nada querer
E feliz viver.

Jean-Jacques Fdida
La naissance de la nuit et autres contes du monde entier
Paris, Didier Jeunesse, 2006
tradução e adaptação

publicado por opoderdapalavra às 21:27

 

Um leopardo, que era implacavelmente perseguido por um bando de caçadores, apareceu, um dia, na cabana de um camponês. Extremamente aflito, pediu-lhe:

— Salva-me! Peço-te, suplico-te! Juro que nunca mais tocarei nos teus bois!

O camponês, aterrorizado com a presença do animal, prometeu aos deuses que não diria palavra. Depois, levantou a tampa de uma arca e o leopardo enfiou-se dentro dela. Quando os caçadores chegaram, começaram a fazer perguntas ao camponês. Este não queria voltar atrás com a palavra dada, mas apontava para a arca e dizia, sem cessar:

— Não vi nada! Digo e repito que não vi nada!

Entretanto, dentro da arca, o leopardo observava a cena, através de duas tábuas de madeira. Com o coração negro de pesar, observava o estratagema ignóbil do camponês que, interrogado asperamente pelos caçadores, intrigados pelas suas gesticulações, se esfalfava a protestar que nada sabia, ao mesmo tempo que apontava como um doido para a arca e lhes queria dar a entender, através de mil caretas, que o leopardo estava lá dentro. Tanto fez que os caçadores acabaram por o considerar louco e foram-se embora, decepcionados.

Quando, por fim, o camponês abriu a arca, disse ao leopardo, numa voz doce:

— Prestei-te um excelente serviço. Sem a minha ajuda, estavas feito! Espero que mantenhas a tua promessa de deixar os meus bois em paz, tal como eu mantive a minha de não te denunciar.

O leopardo retorquiu:

— Manterei a minha promessa, tal como mantiveste a tua. Pude observar que tinhas bonitas palavras, mas dedos malvados.

E, como tinha prometido não comer nenhum boi, o leopardo devorou o homem.

Jean-Jacques Fdida
La naissance de la nuit et autres contes du monde entier
Paris, Didier Jeunesse, 2006
tradução e adaptação

publicado por opoderdapalavra às 21:17

 

O pai de Hanoch contou-lhe que, todos os anos, quando era novo, na véspera do Yom Kippur * , ia visitar os seus amigos e conhecidos e fazia-lhes a seguinte pergunta:

— Digam-me, por favor, se vos fiz algum mal, se vos ofendi de alguma forma, ou fui causa de infelicidade. Se o fui, lamento profundamente e peço-vos perdão.

Esta história deu que pensar a Hanoch. O rapaz disse para consigo “E porque não faço eu a mesma coisa?”

Correu para a cozinha, onde a mãe preparava o jantar, atarefada. Reinava ali um grande reboliço, com panelas e frigideiras a fumegar, e um cheirinho agradável no ar.

Ficou junto da porta e esperou pelo momento certo para falar com a mãe. Quando esta o viu, deixou as sertãs e perguntou-lhe:

— O que se passa, filho? Já tens fome?

Hanoch não respondeu. Sentia-se desconfortável.

— Porque estás tão calado, querido? — insistiu a mãe. — Não te sentes bem? Diz-me o que se passa.

— Não estou doente, mamã.

— Nesse caso, o que traz à cozinha no meio da minha azáfama? É melhor ires brincar.

Hanoch foi até junto da mãe e segredou-lhe:

— Hoje é véspera do Yom Kippur e venho pedir-te que me perdoes.

— Perdoar-te, filho? Porquê? Que pecado cometeste?

— Talvez te tenhas esquecido, mamã. Foi quando tiveste aquela dor de cabeça, e estavas deitada. Pediste-me que guardasse as galinhas na capoeira. Prometi-te que o faria, mas fui brincar com as outras crianças. Fui andar com elas de bicicleta e esqueci-me das galinhas. E cinco galinhas foram encontradas mortas na manhã seguinte. Não te disse nada naquela altura porque me sentia muito infeliz.

Enquanto falava, Hanoch tinha lágrimas nos olhos.

— Mas hoje tive de te contar e pedir-te que me perdoes.

A mãe olhou para ele com amor e beijou-o.

— Claro que te perdoo!

O menino abraçou-a e, com o coração já bem mais leve, foi brincar.

 

*O Yom Kipur ou Kippur é um dos dias mais importantes do judaísmo. No calendário hebreu começa no crepúsculo que inicia o décimo dia do mês hebreu de Tishrei (que coincide com Setembro ou Outubro), continuando até ao pôr-do-sol seguinte. Os judeus observam tradicionalmente esse feriado com um período de jejum e orações.

Levin Kipnis
Let us play in Israel
Tel-Aviv, N. Tversky Publishing House, 1966
tradução e adaptação

publicado por opoderdapalavra às 21:16

 

No Templo Sagrado de Jerusalém, havia uma lâmpada de azeite perfeita, feita do ouro mais puro. Noite e dia, a lâmpada ardia, e nunca a sua chama se apagava.

Depois, infelizmente, os Gregos invadiram Jerusalém. Expulsaram os Judeus e colocaram um ídolo no Templo Sagrado. Mal a lâmpada viu a estátua, extinguiu-se, pensando: “Nunca darei a minha luz pura a este ídolo horrível.”

O Rei dos Gregos zangou-se e gritou:

— Acendam a lâmpada! É uma ordem!

Acenderam-na, mas o óleo não ardia. Trouxeram mais azeite, que o rei deitou na lâmpada. Em vão.

Então, o Rei pensou para consigo: “Talvez este azeite não preste.”

Deu então ordens para que trouxessem o melhor e mais puro dos azeites.

Os Gregos foram procurá-lo e regressaram com o melhor e mais precioso que encontraram. O Rei deitou-o na lâmpada e acendeu-a. Mas não se via chama alguma. O Rei ficou pasmado.

— Deve haver, de certeza, um tipo de azeite especial para esta lâmpada.

Realmente, havia azeite de qualidade excelente no Templo. Os Gregos encontraram imensos potes de barro cheios de azeite de oliveira, utilizado para acender a lâmpada. Quando ouviram as palavras do rei, os potes ficaram extremamente assustados. Mas os Gregos levaram-nos até ao Rei. Este ficou tão contente que exclamou:

— É agora que a lâmpada vai acender-se, para glória dos nossos deuses.

Abriu um dos potes e ficou admirado por encontrar dentro dele o azeite mais puro e mais transparente que alguma vez vira. E mais admirado ficou quando o cheirou, porque o azeite cheirava melhor do que o melhor dos perfumes. Verteu o azeite na lâmpada e acendeu-a, mas não havia vestígios de chama. Tentou um segundo pote e um terceiro, sempre sem sucesso. O rei ficou furioso e atirou a lâmpada ao chão. Deu pontapés nos potes e saiu do Templo a correr, batendo a porta atrás de si com estrondo.

Os potes caíram todos, partiram-se e o azeite foi derramado. Apenas restou um pequenino, que estava encostado a um canto, e passava despercebido.

No Templo reinava agora um grande silêncio. O ídolo estava mudo e quedo. Apenas a lâmpada chorava baixinho, e o azeite derramado espumava furioso:

— Aqueles Gregos malvados, porque me derramaram no chão?

O pote pequenino tremia no seu canto e dizia:

— Talvez os Gregos voltem…

Passaram-se os dias e passaram-se as noites.

Um dia, ouviram-se cânticos fora do Templo e o som de passos que se aproximavam. A lâmpada tremeu de receio:

— Lá vêm eles de novo…

E o pequeno pote murmurou, aterrorizado:

— Vêm aí os Gregos. De certeza que me vão esmagar.

Mas não havia razões para temer. Não eram os Gregos que se aproximavam do Templo, mas os Judeus que Judas Macabeu tinha reunido para atacar e expulsar os Gregos.

Marchavam juntos, cantando canções de vitória e empunhando os seus estandartes.

Mal entraram no Templo, esmagaram o ídolo horrível e deitaram-no fora. Em seguida, colocaram a lâmpada no lugar que lhe era devido. Limparam-na e poliram-na até brilhar. Depois, Judas Macabeu quis acender a lâmpada, mas não encontrou azeite, porque todos os potes de barro tinham sido derrubados e todo o azeite derramado.
Ficou deveras preocupado e clamou:

— Mas onde poderemos encontrar azeite para acender a lâmpada?

Nesse mesmo momento, o pequeno pote começou a mexer-se e rolou até junto de Judas. Este levantou-o e viu que continha azeite puro e perfumado em quantidade suficiente. Deitou algum na lâmpada e acendeu-a.

E no Templo voltou a haver luz.

Mas Judas ainda estava apoquentado.

— O pote é tão pequenino que só temos azeite para um dia e uma noite. Levaremos oito dias a arranjar mais azeite. O que faremos depois de amanhã?

Foi então que se produziu um grande milagre. O azeite do pote não diminuía, porque era azeite consagrado. Sempre que tiravam azeite do pote, este voltava a encher-se. Durante oito dias e oito noites, o pote forneceu a quantidade de azeite suficiente para manter a lâmpada acesa.

E, enquanto duraram esses oito dias, os Judeus celebraram, cheios de alegria, o Hannukah, ou seja, o festival da lâmpada que nunca se apagou.

Levin Kipnis
Let us play in Israel
Tel-Aviv, N. Tversky Publishing House, 1966
tradução e adaptação

publicado por opoderdapalavra às 21:16

 

Era uma vez, nas margens do rio Nilo, no Egipto, uma casinha. Dentro dessa casinha estava um berço. E, nesse berço, um bebé, que ainda não falava e tinha uns olhos enormes e sorridentes. A mãe chamava-lhe Yocheved e amava-o muito. Alimentava-o, cuidava dele e levava-o a dar longos passeios quando fazia sol.

Naquele tempo, um rei malvado governava o Egipto. Era um Faraó. Tratava os Judeus com crueldade e fazia deles escravos. Um dia decretou:

— Cada primogénito judeu que nascer deve ser deitado ao rio.

O Faraó deu esta ordem porque era muito maldoso.

Quando Yocheved teve conhecimento deste decreto, olhou para o filho e disse para consigo: “Nunca o atirarei ao rio. Escondê-lo-ei onde não possam encontrá-lo.” E foi exactamente isso que fez, em segredo.

Depois de o ter feito, os soldados egípcios bateram à sua porta.

— Existem alguns bebés rapazes nesta casa? — perguntaram.

— Claro que não — respondeu Yocheved, toda a tremer.

Mesmo assim, os soldados revistaram a casa toda. Mas, como não encontraram nada, foram-se embora.

Os dias passaram e Yocheved manteve o filho escondido. Mas o menino não gostava de estar naquele canto escuro. Chorava continuamente, e ansiava pelo sol e pela luz. Então, Yocheved percebeu que não podia continuar a esconder o filho daquela maneira. Pegou num pequeno cesto, acolchoou-o para o tornar confortável, e pintou-o com alcatrão por fora. Pôs o bebé no cestinho e levou-o até junto do rio Nilo.

Esgueirou-se por entre os canaviais e colocou o bercinho na água, dizendo:

— Vai, meu barquinho,
Leva o meu filhinho,
Deixa esta arca vogar.
Que as tuas águas
Possam sobre ele
Olhar.

Beijou o bebé e deixou-o sozinho. Tinha os olhos rasos de lágrimas.
De repente, apareceu uma rã junto dela e começou a coaxar:

— O que se passa?

— Oh, rãzinha, estou muito preocupada. Não consigo esconder mais o meu filho do Faraó; por isso, tive de o pôr num bercinho e abandoná-lo à sua sorte. Flutuará rio abaixo e a sua vida será poupada… Mas tenho o coração pesado. Como posso voltar para casa sem o meu filho?

— Não te preocupes. Nós tomaremos conta do teu filho. Venham daí, meninas…

Subitamente, centenas de rãs surgiram aos saltos de todos os lados. Ficaram a olhar para o bebé, muito surpreendidas. Nunca tinham visto nada igual. Durante toda a noite, vigiaram o bercinho e embalaram a criança. Contudo, ao romper do dia, a criança começou a chorar. Tinha fome. As rãs deram-lhe lama para comer, mas a criança não comia lama. Deram-lhe pequenas moscas, mas ela recusou. Cada vez chorava mais.

De repente, ouviu-se um barulho de tambores e címbalos à distância. A filha do Faraó e as suas aias passeavam ao longo da margem do rio. Quando a princesa viu o cestinho a flutuar, rodeado de rãzinhas, perguntou-lhes:

— Porque fazeis tanto barulho?

As rãs contaram-lhe tudo. A filha do Faraó olhou para dentro do cesto e viu o bebé a chorar de fome. Pegou nele, levou-o para o palácio e chamou-lhe Moisés. “Moisés” significa “aquele que é salvo”, e ela tinha-o salvo das águas.

Moisés cresceu e tornou-se um belo rapaz. Vivia no palácio e a filha do Faraó era como uma mãe para ele.

Um dia, Moisés foi até aos campos. Viu como os Israelitas trabalhavam duramente e os Egípcios os castigavam. Ficou muito triste. Deixou o palácio e foi até junto do rio. Quando chegou junto da margem, ouviu uma voz a perguntar:

— Porque estás tão triste, Moisés?

Moisés falou às rãs dos fardos que os Israelitas tinham de suportar. Os bichinhos ouviram-no e coaxaram:

— Não te preocupes, havemos de te ajudar.

Nessa mesma noite, as rãs foram até terra firme aos milhares. Entraram no palácio real e foram até ao quarto do Faraó. Saltaram para a cama deste e meteram-se debaixo da cama. Puseram-se em cima da mesa e debaixo da mesa. O Faraó queria deitar-se, porque estava cansado. De repente, deu-se conta de que as rãs tinham invadido o seu leito. Deu um salto e começou a vestir-se à pressa. As suas mangas estavam cheias de rãs! Tentou beber um copo de água, mas dentro do próprio copo estava uma rã bem verde e gordinha. Estavam por todo lado, em todos os cantos e esquinas do palácio. O Faraó pôs-se a gritar:

— Quem se atreveu a trazer estas pestes para dentro do palácio?

Moisés entrou no quarto e respondeu:

— Se deixares o meu povo partir, livrar-te-ei destas rãs…

— Deixo-os ir, vão, vão! — gritou o rei.

Então Moisés ergueu o bordão e ordenou:

— Rãs, regressai ao rio!

As rãs saltaram de novo para a água.

Mas o Faraó não cumpriu a sua promessa e não deixou os Israelitas partir. Então, Moisés mandou mais pragas sobre o Egipto. Só depois da décima praga, puderam os Israelitas partir.

 

Levin Kipnis
Let us play in Israel
Tel-Aviv, N. Tversky Publishing House, 1966
tradução e adaptação

publicado por opoderdapalavra às 21:15

 

Indigam Toruai – O grande peixe

uma história da Papua-Nova Guiné

Há muitos dias que não chovia. A água estava límpida, o rio baixo. Não podia haver melhor altura para a pesca.

Os rapazes de Kamberap preparavam as azagaias.

— É trabalho em vão — diziam os homens. — Não ides apanhar nada. Até as garças sabem que no rio Xilil já não há peixe.

— Mas nós queremos subir o rio até à foz do Troali — disseram os rapazes.

— Trabalho ainda mais inútil — disseram os homens. — Mas ide lá e tentai a sorte.

Os rapazes foram sentar-se à sombra dos hibiscos que rodeavam a praça da aldeia. Estavam em silêncio. Cada qual pensava para si se valeria ou não a pena levar a cabo a planeada pescaria.

Foi então que surgiu Bonifo com um grande peixe.

Yamandau foi o primeiro a vê-lo.

— Indigam! — gritou. — Indigam toruai! (Um peixe grande!)

Os rapazes levantaram-se de repente e correram para Bonifo, cercaram-no, admiraram e apalparam o peixe, queriam saber quando, onde e como é que Bonifo o tinha apanhado e assediavam-no com perguntas.

Bonifo não respondia. Só se ria e segurava o peixe no ar para o manter fora do alcance dos rapazes. Eles deram um passo para trás. O círculo à volta de Bonifo alargou-se e a confusão das vozes calou-se. Só Yaman-dau perguntava insistentemente:

— Diz-nos lá, Bonifo, onde é que o arranjaste?

— No sítio onde há muitos como este — respondeu Bonifo sorrindo de contente e pondo-se novamente a andar.

Agora já nada detinha os rapazes. Dispararam para casa, trouxeram as setas, correram para junto de Koere a pedir-lhe cestos para apanhar peixe, e em seguida abalaram todos para o rio.

O resto do dia foi passado no Yilil. Koere, que viera com eles, também ficou e ajudou os rapazes no que pôde. Preparou as setas, substituiu as pontas partidas por outras de tapioca, novas e duras, ensinou-os a atirar as setas e mergulhou nas partes mais fundas do rio para verificar pessoalmente se aí havia peixe ou não.

Havia peixes … aqui e ali, mas eram tão minúsculos que não valia a pena apontar-lhes uma seta nem perder tempo a pôr os cestos. O entrançado era demasiado imperfeito, de modo que os cestos não reteriam peixe algum. Para Koere isto era evidente.
Mas para os rapazes é que não. Estavam confiantes e não iriam desistir. Mesmo que todos os meios falhassem, restava sempre uma outra possibilidade: a magia!

Mesmo que os rapazes nunca tivessem visto, todos sabiam que os velhos da tribo conheciam uma forma de enfeitiçar os peixes através de fórmulas e canções mágicas. O líquido atordoante das lianas venenosas deixava os peixes cansados e sem forças, e tornava-se até possível apanhá-los à mão.

— Porque não tentamos? — perguntou Yamandau. — Já experimentámos tudo o resto, porque não a magia com as lianas?

Koere meneou a cabeça:

— Aqui não há as lianas certas para isso. Só nas montanhas, lá em cima.

— Não faz mal — disse Yamandau. — Usamos lianas daqui e fazemos nós a nossa magia.

Koere voltou a menear a cabeça.

— Não sabemos as palavras mágicas — disse.

— Não faz mal — insistiu Yamandau. — Inventamos nós as palavras mágicas.

Koere foi buscar lianas. Cortou-as em pedaços, atou-as e deu a cada rapaz um feixe de caules duros mas maleáveis. Os rapazes estenderam os feixes nas pedras da margem, procuraram seixos duros do tamanho de um punho e bateram com eles nos caules até as lianas se desfazerem e o sumo começar a escorrer.

Procediam exactamente como faziam os velhos com a magia autêntica das lianas, só que não eram nem as lianas certas nem as palavras mágicas certas.

Ainda assim, enquanto Yamandau batia no feixe de lianas, lembrou-se de uma canção que de certeza seria tão boa como qualquer outra fórmula mágica:

Indigan tangane      O peixe está aqui
Kolop, kolop      venham, venham
Kawaikare           muitos!

Yamandau cantava com todas as suas forças, enquanto batia na água, tão cheio de raiva e de desapontamento pelo fracasso daquele dia passado no rio, que até fazia espuma e salpicava tudo à sua volta. A sua canção ecoava no barranco, misturando a voz de Yamandau com a de Koere e a dos outros rapazes, e com o eco que vinha de todos os lados. O bater das lianas na água marcava o compasso da música, como fazem os tambores nas festas da aldeia.

Antes do sol se pôr, os rapazes fizeram-se a casa. Estavam cansados e esfomeados. O máximo que tinham conseguido apanhar nesse dia foram sete caranguejos.

Assaram-nos num pequeno fogo à beira do rio e comeram-nos antes de subirem o monte a caminho da aldeia, já de noite.

Mas não foram logo para casa. Primeiro, passaram pela casa de Bonifo para ver se este já tinha comido o peixe. Ainda não! Ali estava ele, numa folha de bananeira, ao lado do fogão, assado, aloirado e tostado. Os rapazes ficaram de olhos perdidos no peixe.

Do fundo da varanda, Bonifácio exclamou:

— Até que enfim! Deixaram-me à tanto tempo à vossa espera! Subam.

Subiram à varanda. Bonifo foi ter com eles. Debruçou-se sobre o peixe, partiu-o e deu a cada um deles um pedaço de carne branca e bem cheirosa, e ainda uma porção de puré de tapioca.

— Que bem que isto sabe! — disse Yamandau. E passado algum tempo:

— Diz-nos lá, Bonifo, como é que apanhaste o peixe! Foi com magia?

— Não — respondeu Bonifo.

— Então? — exclamaram os rapazes.

— Com cocos — disse Bonifo, rindo-se divertido.

Os rapazes não perceberam. Bonifo soltou uma gargalhada e explicou-lhes. Tinha trocado o peixe por dois cocos… no mercado de Green River…

Brigitte Peter

Lene Mayer-Skumanz (org.)
Hoffentlich bald
Wien, Herder Verlag, 1986
tradução e adaptação

publicado por opoderdapalavra às 21:14

 

Voa, Gaivota, Voa!

Danute irrompeu no pátio a correr. Olhou à sua volta e gritou:
— Romas!
— O que tens? — perguntou Romas, que estava no jardim, por detrás do poço, trincando uma maçã.
— O Vilius anda à tua procura!
— Que quer ele?
— Tem uma gaivota.
— Uma gaivota? — Romas fez uma careta: a maçã estava verde.
— Pequena. Tem uma asa ferida. Dá cá uma maçã!
— Toma! — Romas arrancou uma e estendeu-a à menina. — Só que estão verdes.
Com a maçã na mão e depois de ter normalizado a respiração, Danute explicou:
— Sabes, quer vender-te a gaivota. Vamos!
A verdade é que Mykolas, o irmão mais velho, tinha dado a Romas uma nova moeda de rublo — um rublo! — para comprar gelados. Claro que Romas logo se gabara disso à rapaziada. Quando Vilius soube, os olhos cintilaram-lhe de inveja. Chamara mentiroso ao Romas. Então, este meteu-lhe a moeda debaixo do nariz: é ou não verdade?
Vilius sentiu até náuseas ao ver o dinheiro, sem compreender que necessidade dele teria aquele fedelho?! Claro que ia gastá-lo numa bugiganga qualquer! Ele, Vilius, sim, sabia como o empregar: comprava, por exemplo, uma bobina de linha de pesca! Cortava a linha em pedaços e trocava-os com a rapaziada por outras coisas… De qualquer maneira, havia de surripiar a moeda ao Romas. Mas como?
Vilius passou dois dias dando cabo da cabeça, mas não encontrou estratagema de jeito.
Naquele dia, entretanto, apanhara na costa uma gaivota ferida e decidira tentar a sorte. Mandara Danute chamar Romas e ficou à espera empoleirado em cima de um barco virado. Os seus cálculos bateram certo: Romas e Danute chegaram à costa pouco tempo depois.
Quando Romas se aproximou, Vilius, sempre sentado em cima do barco, mostrou- lhe a gaivota e perguntou:
— Queres comprá-la?
Os olhos da gaivota suplicavam, cheios de medo.
— Não a apertes tanto — pediu Romas. — Estás a magoá-la!
— Coitada! Quem lhe teria ferido a asa? — Danute quis fazer-lhe festas, mas Vilius bateu-lhe nos dedos:
— Não lhe mexas! — E para Romas: — Dá cá o dinheiro, e fica com ela. Se a curares, terás uma gaivota em casa.
Romas tinha pena do pássaro.
— É possível curá-la? — perguntou.
— Não custa nada! Mas como é? É pegar ou largar, não tenho tempo para conversas.
— Aceita! — sussurrou-lhe a menina, quase a choramingar. Também estava com pena da gaivota. — Aceita. Tratamos dela. Eu ajudo-te.
Romas hesitava, pois poderia precisar do rublo para outra coisa.
— Então, estás com pena do dinheiro? — provocava-o Vilius. — O que dizes?
— Compro!
— Então, passa para cá a moeda!
Romas correu a toda a pressa para casa. Aqui encontrou o avô, a quem contou atabalhoadamente o que se tinha passado. Disse-lhe que tinha muita pena da gaivota.
— Claro — disse o avô em tom compreensivo e dando-lhe pancadinhas no ombro.
Vilius pegou na moeda e deu a ave a Romas. Ambos ficaram contentes. Com a gaivota ferida contra o peito e acompanhado de Danute, Romas caminhou para casa.
Depois de examinar a asa ferida, o avô disse:
— Fizeste bem! Vamos curá-la. Teremos mais uma gaivota viva neste mundo.
Só então Romas se sentiu realmente satisfeito. Embora ainda tivesse pena da moeda de rublo…
— Ora bem… Primeiro, vamos ligar a asa… — O avô trouxe a gaze e começou a fazer umas talas.
Quando a mãe voltou do trabalho, viu aquilo e perguntou severamente:
— O que se passa aqui?
— Estamos a tratar de uma gaivota — respondeu Romas.
— Muito bem, mas é melhor montarem o hospital na arrecadação — aconselhou a mãe.
A arrecadação, onde se instalaram momentos depois, era realmente um óptimo lugar para tratar da gaivota.
O avô estava tão feliz como Romas por prestar socorro à gaivota.
— Vamos arranjar qualquer coisa para pôr no fundo da caixa, onde ficará muito bem — sugeriu.
— E quando ficar boa? — quis saber Romas.
— Veremos então o que fazer. Para já, vai com Giedrius à pesca. A gaivota é uma ave que tem sempre fome.
A doente foi presenteada com um jantar de doze percas. Mas estava sem apetite. Talvez lhe doesse a asa. Comeu só quatro peixes, e dos mais pequenos.
No dia seguinte, já estava melhor. Um dia depois, não podendo ficar mais na caixa, começou a dar pulos, arrastando a asa ferida pelo chão. Romas, Giedrius, Danute e Ruta tiveram de ficar sucessivamente de guarda à entrada para manter a ave ao abrigo dos gatos, que andavam à espreita.
Toda a gente tinha pena da gaivota, e pensava com alegria que o avô ia curá-la e ela tornaria a voar. Até o Ignas passou pela arrecadação.
— Mostra-me lá a tua gaivota — pediu.
O pássaro estava sentado em cima de uma pilha de lenha.
— O Vilius é um espertalhão — disse abanando a cabeça. — Trocou esta porcaria por um rublo. Caíste como um patinho!
Romas respondeu-lhe com as palavras do avô:
— Teremos mais uma gaivota neste mundo.
— Ora, meu filho — sorriu Ignas. — Só que daqui a pouco terás de soltá-la. Não vai ficar aqui a vida toda. E ficarás sem a gaivota e sem o dinheiro.
Romas ainda não pensara nisso. Talvez o Ignas tivesse razão: quer quisesse quer não, um dia teria de soltá-la. Agora, já queria que não melhorasse tão depressa!
A gaivota, porém, era nova e o avô tratava-a bem. Restabelecia-se rapidamente. Já voava pela arrecadação, chocando contra as paredes. Oxalá não se magoe mais, pois na arrecadação há tanta coisa: lenha, ferramenta do avô, aparelhos de pesca do pai — pensava Romas.
— Acho que é tempo de soltá-la — disse o avô certo dia. — Que pensas?
O coração apertou-se-lhe. Estava a ponto de chorar. Mas não era um bebé! Reprimiu as lágrimas, embora a ideia da separação continuasse a causar-lhe imensa tristeza.
— Não existem gaivotas domésticas. Não são a mesma coisa que galinhas — disse o avô, meneando a cabeça para convencer Romas. — Precisam de liberdade.
Como viu que Romas só com grande esforço continha as lágrimas, sugeriu com um sorriso:
— Está bem. Deixa-a ficar mais uns dias.
Estavam na arrecadação. A gaivota, como que compreendendo que os homens não queriam pô-la em liberdade, voou, bateu no tecto e caiu em cima das canas de pesca do pai.
A ave lançou a Romas um olhar muito, muito triste.
— Não! — gritou Romas. — É melhor deixá-la voar!
Quis apanhar a ave para levá-la para a costa, mas esta não se deixava caçar.
Só o avô conseguiu, embora com grande dificuldade, agarrá-la. O rapaz apertou a gaivota contra o peito e sentiu um coração bater mais depressa. O dele ou o da ave? Não sabia.
— Vamos, avô.
Chegaram à costa. Quase imediatamente, juntaram-se-lhes Giedrius, Danute e Ruta.
O mar estava calmo, o céu sem nuvens, o ar transparente. À superfície viam-se gaivotas. Daí a pouco, teriam mais uma companheira.
— Voa — disse o rapaz, atirando a gaivota ao ar.
A gaivota levantou voo.
Romas nem sentia que lágrimas lhe turvavam os olhos.
E não era do dinheiro que tinha pena!

Viktoras Miliūnas
Voa, gaivota, voa
Edições Ráduga Moscovo, 1987

publicado por opoderdapalavra às 21:13

 

A fotografia é simples: duas mãos dadas, uma mão segurando a outra. Uma delas é grande, a outra é pequena, rechonchuda. Isso é tudo. Mas a imaginação não se contenta com o fragmento – completa o quadro: é um pai que passeia com o seu filhinho. O pai, adulto, segura com firmeza e ternura a mãozinha da criança: a mãozinha do filho é muito pequena, termina no meio da palma da mão do pai. O pai vai conduzindo o filho, indicando o caminho, vai apontando para as coisas, mostrando como elas são interessantes, bonitas, engraçadas. O menino vai sendo apresentado ao mundo.

É assim que as coisas acontecem: os grandes ensinam, os pequenos aprendem. As crianças nada sabem sobre o mundo. Também, pudera! Nunca estiveram aqui. Tudo é novidade. Alberto Caeiro tem um poema sobre o Olhar (dele), que ele diz ser igual ao de uma criança:

O meu olhar é nítido como um girassol. (. . .)

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do mundo.

 

O olhar das crianças é de espanto! Vêem o que nunca tinham visto! Não sabem o nome das coisas. O pai vai dando os nomes. Aprendendo os nomes, as coisas estranhas vão ficando conhecidas e amigas. Transformam-se num rebanho manso de ovelhas que respondem quando são chamadas. Quem sabe as coisas são os adultos. Conhecem o mundo. Não nasceram a saber. Tiveram de aprender. Houve um tempo em que a mãozinha rechonchuda era deles. Um outro, de mão grande, osconduziu. O mais difícil foi aprender quando não havia ninguém que ensinasse. Tiveram de tactear através do desconhecido. Erraram muitas vezes. Foi assim que as rotas e os caminhos foram descobertos. Já imaginaram os milhares de anos que tiveram de se passar até que os homens aprendessem que certas ervas têm poderes de cura? Quantas pessoas tiveram de morrer de frio até que os esquimós descobrissem que era possível fabricar casas quentes com o gelo! E as comidas que comemos, os pratos que nos dão prazer! Por detrás deles há milénios de experiências, acidentes felizes, fracassos! Vejam o fósforo, essa coisa insignificante e mágica: esfrega-se e eis o milagre: o fogo na ponta de um pauzinho. Eu gostaria, um dia, de dar um curso sobre a história do fósforo. Na sua história há uma enormidade de experiências e de pensamentos.

Ensinar é um acto de amor. Se as gerações mais velhas não transmitissem o seu conhecimento às gerações mais novas, nós ainda estaríamos na condição dos homens pré-‑históricos. Ensinar é o processo pelo qual as gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas, como herança, a caixa onde guardam os seus mapas e ferramentas! Assim, as crianças não precisam de começar da estaca zero. Ensinam-se os saberes para poupar àqueles que não sabem o tempo e o cansaço do pensamento: saber para não pensar. Não preciso de pensar para riscar um fósforo. Os grandes sabem. As crianças não sabem. Os grandes ensinam. As crianças aprendem.

Está resumido na fotografia: o da mão grande conduz o da mãozinha pequena. Esse é o sentido etimológico da palavra pedagogo: aquele que conduz as crianças. Educar é transmitir conhecimentos. O seu objectivo é fazer com que as crianças deixem de ser crianças. Ser criança é ignorar, nada saber, estar perdido. Toda a criança está perdida no mundo. A educação existe para que chegue um momento em que ela não esteja mais perdida: a mãozinha de criança tem de se transformar na mãozona de um adulto que não precisa de ser conduzido: ele conduz-se, ele sabe os caminhos, ele sabe como fazer. A educação é um progressivo despedir-se da infância.

A pedagogia do meu querido amigo Paulo Freire amaldiçoava aquilo que se denominaensino bancário – os adultos vão depositando saberes na cabeça das crianças da mesma forma como depositamos dinheiro num banco. Mas parece-me que é assim mesmo que acontece com os saberes fundamentais: os adultos simplesmente dizemcomo as coisas são, como as coisas são feitas. Sem razões e explicações. É assim que os adultos ensinam as crianças a andar, a falar, a dar um laço no cordão do sapato, a tomar banho, a descascar laranja, a nadar, a assobiar, a andar de bicicleta, a acender o fósforo. Tentar criar consciência crítica para essas coisas é tolice. O adulto mostra como se faz. A criança faz do mesmo jeito. Imita. Repete. Mesmo as pedagogias mais generosas, mais cheias de amor e ternura pelas crianças, trabalham sobre esses pressupostos. Se as crianças precisam de ser conduzidas é porque elas não sabem o caminho. Quando tiverem aprendido os caminhos andarão por conta própria. Serão adultos. Toda a gente sabe que as coisas são assim: as crianças nada sabem, quem sabe são os adultos. Depreende-se, então, logicamente, que as crianças são os alunos e os adultos são os professores. A diferença entre quem sabe e quem não sabe. Dizer o contrário é puro nonsense. Porque o contrário seria dizer que as crianças devem ensinar os adultos. Mas, nesse caso, as crianças teriam um saber que os adultos não têm. Se já tiveram, perderam-no… Mas quem levaria a sério tal hipótese?

Pois o Natal é essa absurda inversão pedagógica: os grandes aprendendo com os pequenos. Um profeta do Antigo Testamento, certamente sem entender o que escrevia – os profetas nunca sabem o que estão a dizer –, resumiu essa pedagogia invertida numa frase curta e maravilhosa:… E uma criança guiá-los-á (Isaías 11.6). Se colocarmos este mote ao pé da fotografia tudo fica ao contrário: é a criança que vai mostrando o caminho. O adulto vai sendo conduzido: olhos arregalados, bem abertos, vendo coisas que nunca viu. São as crianças que vêem as coisas – porque elas vêem-nas sempre pela primeira vez com espanto, com assombro, surpreendidas de que elas sejam como são. Os adultos, de tanto as verem, já não as vêem mais. As coisas – as mais maravilhosas – permanecem banais. Ser adulto é ser cego.

Os filósofos, cientistas e educadores acreditam que as coisas vão ficando cada vez mais claras à medida que o conhecimento cresce. O conhecimento é a luz que nos faz ver. Os sábios sabem o oposto: existe uma progressiva cegueira das coisas à medida que o seu conhecimento cresce. Vale mais a pena ver uma coisa sempre pela primeira vez que conhecê-la. Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez. As crianças fazem-nos ver a eterna novidade do mundo. (Fernando Pessoa). .

Japucz Korczak, um dos grandes educadores do século XX – que foi (porque não as queria deixar) com as crianças da sua escola para a câmara de gás de um campo de concentração nazi –, deu a um dos seus livros o título: Quando eu voltar a ser criança. Ele sabia das coisas. Era sábio. Lição de psicanálise: os cientistas e os filósofos vêem o lado direito. Os sábios vêem o avesso. O avesso é este: os adultos são os alunos; as crianças são os mestres. Por isso os magos, sábios, deram por encerrada a sua jornada ao encontrarem um menino numa estrebaria…

 

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas.

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

publicado por opoderdapalavra às 21:11

Os pensamentos chegam-me de um modo inesperado, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que, frequentemente, também Lichtenberg, William Blake e Nietzsche eram atacados por eles. Digo atacados porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Os aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, este aforismo atacou-me: Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas.

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controlo. Engaiolados, o seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados têm sempre um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri, conversando com professores em escolas. O que eles contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças… E eles, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações… Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra – e os domadores com os seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.

Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que os fecha com os tigres. Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes? Ou serão as escolas que são violentas?

As escolas serão gaiolas? Vão falar-me da necessidade das escolas dizendo que os adolescentes precisam de ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: as nossas escolas estão a dar uma boa educação? O que é uma boa educação? O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ficam com uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.

Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Sabe o que é um “dígrafo”? E conhece os usos da partícula “se”? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante”? Qual é a utilidade da palavra “mesóclise”? Pobres professores, também engaiolados… São obrigados a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é um hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata a sua experiência com as escolas: Fui forçado (!) a estudar o que os professores decidiam que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira.

 O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que a inteligência era aferramenta e o brinquedo do corpo, Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender ferramentas, aprender brinquedos. As ferramentas são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. Osbrinquedos são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.

Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação.Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. As ferramentas permitem-me voar pelos caminhos do mundo. Os brinquedos permitem-me voar pelos caminhos da alma. Quem está a aprender ferramentas e brinquedos está a aprender liberdade, não fica violento. Fica alegre, ao ver as asas crescer… Assim todo o professor, ao ensinar, deveria perguntar-se: Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo? Se não for, é melhor pôr de parte. As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se as escolas são gaiolas ou asas.

Mas eu sei que há professores que amam o voo dos seus alunos.

Há esperança…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

publicado por opoderdapalavra às 21:10

 

Comecei a gostar dos livros mesmo antes de saber ler. Descobri que os livros eram um tapete mágico que me levava instantaneamente a viajar pelo mundo… Lendo, eu deixava de ser o menino pobre que era e tornava-me um outro. Vejo-me sentado no chão, num dos quartos do sótão do meu avô. Via figuras. Era um livro, folhas de tecido vermelho. Nas suas páginas alguém colara gravuras, recortadas de revistas. Não sei quem o fez. Só sei que quem o fez amava as crianças. Eu passava horas a ver as figuras e nunca me cansava de as ver. Um outro livro que me encantava era oJeca Tatu, do Monteiro Lobato. Começava assim: “Jeca Tatu era um pobre caboclo…”. De tanto ouvir a estória lida para mim, acabei por sabê-lo de cor. “De cor”: no coração. Aquilo que o coração ama não é jamais esquecido. E eu “lia-o” para a minha tia Mema, que estava doente, presa numa cadeira de baloiço. Ela ria com o seu sorriso suave, ouvindo a minha leitura.

Um outro livro que eu amava pertencera à minha mãe quando era criança. Era um livro muito velho. Façam as contas: a minha mãe nasceu em 1896… Na capa havia um menino e uma menina que brincavam com o globo terrestre. Era um livro que me fazia viajar por países e povos distantes e estranhos. Gravuras apenas. Esquimós, com as suas roupas de couro, dando tiros para o ar, saudando o fim do seu longo inverno. Em baixo, a explicação: “Onde os esquimós vivem, a noite é muito longa; dura seis meses”. Um crocodilo, boca enorme aberta, com os seus dentes pontiagudos, e um negro a arrastar-se na sua direcção, tendo na mão direita um pau com duas pontas afiadas. O que ele queria era introduzir o pau na boca do crocodilo, sem que ele se desse conta. Quando o crocodilo fechasse a boca estaria fisgado e haveria festa e comedoria!

Na gravura dedicada aos Estados Unidos havia um edifício, com a explicação assombrosa: “Nos Estados Unidos há casas com dez andares…”. Mas a gravura que mais mexia comigo representava um menino e uma menina a brincar, querendo fazer um jardim. Na verdade, era mais que um jardim. Era um minicenário. Haviam feito montanhas de terra e pedra. Entre as montanhas, um lago cuja água, transbordando, transformava-se num riachinho. E, nas suas margens, o menino e a menina haviam plantado uma floresta de pequenas plantas e musgos. A menina enchia o lago com um regador. Eu não me contentava em ver o jardim: largava o livro e ia para a horta, com a ideia de plantar um jardim parecido. E assim passava toda uma tarde, fazendo o meu jardim e usando galhos de hortelã como as árvores da floresta… Onde foi parar o livro da minha mãe? Não sei. Também não importa. Ele continua aberto dentro de mim.

Bachelard refere-se aos “sonhos fundamentais” da alma. “Sonhos fundamentais”: o que é isso? É simples. Há sonhos que nascem dos eventos fortuitos, peculiares a cada pessoa. Esses sonhos são só delas: sonhos acidentais, individuais. Mas há certos sonhos que moram na alma de todas as pessoas. Jung deu a esses sonhos universais o nome de “arquétipos”. Esses são os sonhos fundamentais. O facto de termos, todos, os mesmos sonhos fundamentais, cria a possibilidade de “comunhão”. Ao compartilhar os mesmos sonhos descobrimo-nos irmãos. Um desses sonhos fundamentais é o de um “jardim”.

Faz de conta que a tua alma é um útero. Ela está grávida. Dentro dela há um feto que quer nascer. Esse feto que quer nascer é o seu sonho. Quem engravidou a tua alma, isso eu não sei. Acho que foi um ser de outro mundo… Imagino que o tal “Big-Bang” a que se referem os astrónomos foi Deus a soltar o seu grande sonho e a lançar pelo vazio milhões, biliões, triliões de sementes. Em cada uma delas estava o sonho fundamental de Deus: um jardim, um paraíso… Assim, a nossa alma foi engravidada pelo sonho fundamental de Deus… Mas toda a semente quer brotar, todo o feto quer nascer, todo o sonho se quer realizar. Sementes que não nascem, fetos que são abortados, sonhos que não são realizados transformam-se em demónios dentro da alma. E ficam a atormentar-nos. Aquelas tristezas, aquelas depressões, aquelas irritações – uma vez por outra elas tomam conta de nós – aposto que são o sonho de um jardim que está dentro de cada um e que não consegue nascer. Deus não tem muita paciência com pessoas que não gostam de jardins…

Quando eu era menino, os jardins eram o lugar da minha maior felicidade. Dentro da casa, os adultos estavam sempre a vigiar-me: “Não mexas aí, não faças isso, não faças aquilo…”. O Paraíso foi perdido quando Adão e Eva começaram a vigiar-se. O inferno começa no olhar do outro que pede que eu preste contas. E como as crianças são seres paradisíacos, eu fugia para o jardim. Lá, eu estava longe dos adultos. Eu podia ser eu mesmo. O jardim era o espaço da minha liberdade. As árvores eram as minhas melhores amigas. A pitangueira, com seus frutinhos sem vergonha. O meu primeiro furto foi o furto de uma pitanga: “furto” – “fruto” – é só trocar uma letra… Até inventei uma maquineta de roubar pitangas…

Havia uma jabuticabeira que eu considerava minha, em especial. Fiz um rego à sua volta para que ela bebesse água todo dia. Jabuticabeiras regadas sempre florescem e frutificam várias vezes por ano. Na ocasião das flores era uma festa. O perfume das suas flores brancas é inesquecível. E vinham milhares de abelhas. No pé de uma nêspera fiz um baloiço. Já disse que balançar é o melhor remédio para depressão. Quem balança torna-se criança de novo. Razão por que eu acho um crime que, nas praças públicas, só haja balancés para as crianças pequenas. Devia haver baloiços para os grandes! Já imaginaram o pai e a mãe, o avô e a avó, a balançarem? Sorriem? Absurdo? Entendo. Vocês estão velhos. Têm medo do ridículo. O vosso sonho fundamental está enterrado debaixo do cimento. Eu já sou avô e sinto-me rejuvenescer a baloiçar até tocar com a ponta do pé na folha do caquizeiro onde o meu baloiço está amarrado!

Crescido, os jardins começaram a ter para mim um sentido poético e espiritual. Percebi que a Bíblia Sagrada é um livro construído em torno de um jardim. Deus cansou-se da imensidão dos céus e sonhou… Sonhou com um… jardim. Se ele – ou ela – estivesse feliz lá no céu, ele ou ela não se teria dado ao trabalho de plantar um jardim. A gente só cria quando aquilo que se tem não corresponde ao sonho. Todo o acto de criação tem por objectivo realizar um sonho. E quando o sonho se realiza, vem a experiência da alegria. No Génesis está escrito que, ao terminar o seu trabalho, Deus viu que tudo “era muito bom”. O mais alto sonho de Deus é um jardim. Essa é a razão por que no Paraíso não havia templos e altares. Para quê? “Deus andava pelo meio do jardim…”. Gostaria de saber quem foi a pessoa que teve a ideia de que Deus mora dentro de quatro paredes! Uma coisa eu garanto: não foi ideia dele. Seria bonito se as religiões, em vez de gastarem dinheiro construindo templos e catedrais, usassem esse mesmo dinheiro para fazer jardins onde, evidentemente, crianças, adultos e velhos poderiam balançar e tocar com os pés nas folhas das árvores.

Ninguém jamais viu Deus. Um jardim é o seu rosto sorridente… E se vocês lerem as visões dos profetas, verão que o Messias é jardineiro: vai plantar de novo o Paraíso, e nele voltarão a nascer regatos nos desertos, nos lugares ermos crescerão a murta (perfumada!), as oliveiras, as videiras, as figueiras, os pés de romã, as palmeiras… E lá, à sombra das árvores, acontecerá o amor… Leia o livro do “Cântico dos Cânticos”! Pensei, então, que o acto de plantar uma árvore é um anúncio de esperança. Especialmente se for uma árvore de crescimento lento. E isso porque, sendo lento o seu crescimento, eu a plantarei sabendo que nem vou comer dos seus frutos, nem me vou sentar à sua sombra… Vou plantá-la pensando naqueles que comerão os seus frutos e se sentarão à sua sombra. E isso bastará para me trazer felicidade!

 

Rubem Alves

Mansamente pastam as ovelhas…

São Paulo, Papirus Editora, 2002

(excertos adaptados)

publicado por opoderdapalavra às 21:09

 

O meu pensamento é um devorador de imagens. Quando me aparece uma boa imagem eu rio de felicidade e o meu pensador põe-se a brincar com ela como um menino brinca com uma bola. Se me disserem que este hábito intelectual não é próprio de um filósofo, que os filósofos devem manter-se dentro dos limites de uma dieta austera de conceitos puros e sem temperos, invoco em minha defesa Albert Camus, que dizia que só se pensa através de imagens.

Amo as imagens mas elas amedrontam-me. As imagens são entidades incontroláveis que frequentemente produzem associações que o autor não autorizou. Os conceitos, ao contrário, são bem comportados, pássaros engaiolados. As imagens são pássaros em voo… Daí o seu fascínio e o seu perigo. Mas eu não consigo resistir à tentação. Assim, aqui vai uma parábola que me apareceu, com todos os riscos que ela implica:

Era uma vez um lavrador que criava galinhas. Era um lavrador fora do comum, intelectual e progressista. Estudou administração para que a sua quinta funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutoramento em criação de galinhas. No curso de administração aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado. Aplicado à criação de galinhas esse princípio traduz-se assim: galinha que não põe ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.

Com o propósito de garantir a qualidade total da sua quinta, o lavrador estabeleceu um rigoroso sistema de controlo da produtividade das suas galinhas. Produtividade de galinhas é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos postos pela unidade de tempo escolhida. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou superior a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na quinta como galinhas poedeiras.

Estabeleceu, inclusive, um sistema de mérito galináceo: as galinhas que punham mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que punham menos ovos recebiam menos ração. As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.

Acontece que conviviam com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruído estridente e, acto contínuo, subiam para as costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico, e obrigavam-nas a agacharem-se. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o lavrador que isso era tudo o que os galos – esse era o nome daquelas aves – faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da quinta, nenhum deles tinha posto.

Lembrou-se o lavrador, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha. As galinhas continuaram a pôr ovos como sempre haviam posto: os números escritos nos relatórios não deixavam margens para dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, quebravam-se e de dentro deles saíam pintainhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte e um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintainhos. E se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saía era um cheiro de coisa podre. Coisa morta.

Então o lavrador científico aprendeu duas coisas:

1º: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.

2º: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas.

 

Esta parábola é sobre a universidade. As galinhas poedeiras são os docentes. Corrijo-me: docente, não. Porque docente quer dizer aquele que ensina. Mas o ensino é, precisamente, uma actividade que não pode ser traduzida em ovos; não pode ser expressa em termos numéricos. A designação correcta é pesquisadores, isto é, aqueles que produzem artigos e os publicam em revistas internacionais indexadas.

Artigos, como os ovos, podem ser contados e computados nas colunas certas dos relatórios. As revistas internacionais indexadas são os ninhos acreditados. Não basta pôr ovos. É preciso pô-los nos ninhos acreditados. São os ninhos internacionais, em língua estrangeira, que dão aos ovos a sua dignidade e valor. A comunidade dos produtores de artigos científicos não fala português. Fala inglês.

Como resultado da pressão publish or perish, ponha ovos ou a sua cabeça será cortada, a docência acaba por perder o sentido. Quem, numa universidade, só ensina, não vale nada. Os alunos passam a ser trambolhos para os pesquisadores: estes, ao invés de se dedicarem à tarefa institucionalmente significativa de pôr ovos, são obrigados, pela presença de alunos, a gastar o seu tempo numa tarefa irrelevante: o ensino não pode ser quantificado (quem disser que o ensino se mede pelo número de horas/aula é um idiota).

O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem orientar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender à exigência da comunidade científica internacional de publish or perish. Eu acho que o objectivo das escolas e universidades é contribuir para o bem-estar do povo. Por isso, a sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar, porque é com o pensamento que se faz um povo. Mas isso não pode ser quantificado como se quantificam os ovos postos.

Sugiro que as nossas universidades, ao avaliar a produtividade dos que nelas trabalham, dêem mais atenção ao canto do galo…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

publicado por opoderdapalavra às 21:09

 

Era uma família grande, todos amigos. Viviam como todos nós: moscas presas na enorme teia de aranha que é a vida da cidade. Todos os dias a aranha lhes arrancava um pedaço. Ficaram cansados. Resolveram mudar de vida: um sonho louco: navegar! Um barco, o mar, o céu, as estrelas, os horizontes sem fim: liberdade. Venderam o que tinham, compraram um barco capaz de atravessar mares e sobreviver a tempestades.

Mas para navegar não basta sonhar. É preciso saber. São muitos os saberes necessários para se navegar. Puseram-se então a estudar cada um aquilo que teria de fazer no barco: manutenção do casco, instrumentos de navegação, astronomia, meteorologia, as velas, as cordas, as polias e roldanas, os mastros, o leme, os parafusos, o motor, o radar, o rádio, as ligações eléctricas, os mares, os mapas…

Disse certo poeta: Navegar é preciso. A ciência da navegação é um saber preciso, exige aparelhos, números e medições. Os barcos fazem-se com precisão, a astronomia aprende-se com o rigor da geometria, as velas fazem-se com saberes exactos sobre tecidos, cordas e ventos, os instrumentos de navegação não informammais ou menos. Assim, eles tornaram-se cientistas, especialistas, cada um na sua – juntos para navegar.

Chegou então o momento da grande decisão – para onde navegar. Um sugeria as geleiras do sul do Chile, outro os canais dos fiordes da Noruega, um outro queria conhecer os exóticos mares e praias das ilhas do Pacífico, e houve mesmo quem quisesse navegar nas rotas de Colombo. E foi então que compreenderam que, quando o assunto era a escolha do destino, as ciências que conheciam de nada serviam.

De nada valiam os números, as tabelas, os gráficos, as estatísticas. Os computadores, coitados, chamados a dar o seu palpite, ficaram em silêncio. Os computadores não têm preferências – falta-lhes essa subtil capacidade de gostar, que é a essência da vida humana. Inquiridos sobre o porto de sua escolha, disseram que não entendiam a pergunta, que não lhes importava para onde se estava a ir.

Se os barcos se fazem com ciência, a navegação faz-se com os sonhos. Infelizmente a ciência, utilíssima, especialista em saber como as coisas funcionam, tudo ignora sobre o coração humano. É preciso sonhar para se decidir sobre o destino da navegação. Mas o coração humano, lugar dos sonhos, ao contrário da ciência, é coisa imprecisa. Disse certo poeta: Viver não é preciso. Primeiro vem o impreciso desejo. Primeiro vem o impreciso desejo de navegar. Só depois vem a precisa ciência de navegar.

Naus e navegação têm sido uma das mais poderosas imagens na mente dos poetas. Ezra Pound inicia os seus Cânticos dizendo: E pois com a nau no mar/assestamos a quilha contra as vagas… Cecília Meireles: Foi, desde sempre, o mar! A solidez da terra, monótona/parece-nos fraca ilusão! Queremos a ilusão do grande mar/ multiplicada em suas malhas de perigo. E Nietzsche: Amareis a terra de vossos filhos, terra não descoberta, no mar mais distante. Que as vossas velas não se cansem de procurar esta terra! O nosso leme nos conduz para a terra dos nossos filhos…Viver é navegar no mar alto!

Não só os poetas. C. Wright Mills, um sociólogo sábio, comparou a nossa civilização a uma galera que navega pelos mares. Nos porões estão os remadores. Remam com precisão cada vez maior. A cada novo dia recebem remos novos, mais perfeitos. O ritmo das remadas acelera. Sabem tudo sobre a ciência do remar. A galera navega cada vez mais rápido. Mas, inquiridos sobre o porto do destino, respondem os remadores: O porto não nos importa. O que importa é a velocidade com que navegamos

C. Wright Mills usou esta metáfora para descrever a nossa civilização por meio duma imagem plástica: multiplicam-se os meios técnicos e científicos ao nosso dispor, que fazem com que as mudanças sejam cada vez mais rápidas; mas não temos ideia alguma de para onde navegamos. Para onde? Somente um navegador louco ou perdido navegaria sem ter ideia do para onde. Em relação à vida da sociedade, ela contém a busca de uma utopia. Utopia, na linguagem comum, é usada como sonho impossível de ser realizado. Mas não é isso. Utopia é um ponto inatingível que indica uma direcção.

Mário Quintana explicou a utopia com um verso: Se as coisas são inatingíveis… ora!/Não é motivo para não querê-las…Que tristes os caminhos, se não fora/A mágica presença das estrelas! Karl Mannheim, outro sociólogo sábio que poucos lêem, já na década de 1920 diagnosticava a doença da nossa civilização: Não temos consciência de direcções, não escolhemos direcções. Faltam-nos estrelas que nos indiquem o destino.

Hoje, dizia ele, as únicas perguntas que são feitas, determinadas pelo pragmatismo da tecnologia (o importante é produzir o objecto) e pelo objectivismo da ciência (o importante é saber como funciona), são: Como posso fazer tal coisa? Como posso resolver este problema concreto particular? E conclui: E em todas essas perguntas sentimos o eco optimista: não preciso de me preocupar com o todo, ele tomará conta de si mesmo.

Nas nossas escolas é isso que se ensina: a precisa ciência da navegação, sem que os estudantes sejam levados a sonhar com as estrelas. A nau navega veloz e sem rumo. Nas universidades, essa doença assume a forma de peste epidémica: cada especialista dedica-se, com paixão e competência, a fazer pesquisas sobre o seu parafuso, a sua polia, a sua vela, o seu mastro.

Dizem que o seu dever é produzir conhecimento. Se forem bem sucedidas, as suas pesquisas serão publicadas em revistas internacionais. Quando se lhes pergunta:Para onde está o seu barco a navegar?, eles respondem: Isso não é científico. Os sonhos não são objecto de conhecimento científico...

E assim ficam os homens comuns abandonados por aqueles que, por conhecerem mares e estrelas, lhes poderiam mostrar o rumo. Não posso pensar a missão das escolas, começando com as crianças e continuando com os cientistas, como outra que não a da realização do dito do poeta: Navegar é preciso. Viver não é preciso.

É necessário ensinar os precisos saberes da navegação enquanto ciência. Mas é necessário apontar com imprecisos sinais para os destinos da navegação: a terra dos filhos dos meus filhos, no mar distante… Na verdade, a ordem verdadeira é a inversa. Primeiro, os homens sonham com navegar. Depois aprendem a ciência da navegação. É inútil ensinar a ciência da navegação a quem mora nas montanhas…

O meu sonho para a educação foi dito por Bachelard: O universo tem um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso. O paraíso é jardim, lugar de felicidade, prazeres e alegrias para os homens e mulheres. Mas há um pesadelo que me atormenta: o deserto. Houve um momento em que se viu, por entre as estrelas, um brilho chamado progresso. A galera navega em direcção ao progresso, a uma velocidade cada vez maior, e ninguém questiona a direcção. E é assim que as florestas são destruídas, os rios se transformam em esgotos de fezes e veneno, o ar se enche de gases, os campos se cobrem de lixo – e tudo ficou feio e triste.

Sugiro aos educadores que pensem menos nas tecnologias do ensino – psicologias e quinquilharias – e tratem de sonhar, com os seus alunos, sonhos de um Paraíso.

 

 

 

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

publicado por opoderdapalavra às 21:08

 

Walt Whitman conta o que sentiu quando, menino, foi para a escola:

 

Ao começar os meus estudos, agradou-me tanto o passo inicial, a simples consciencialização dos factos, as formas, o poder do movimento, o mais pequeno insecto ou animal, os sentidos, o dom de ver, o amor – o passo inicial, torno a dizer, assustou-me tanto, agradou-me tanto, que não foi fácil para mim passar e não foi fácil seguir adiante, pois eu teria querido ficar ali a vaguear o tempo todo, cantando aquilo em cânticos extasiados.

Nietzsche disse que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. É a primeira tarefa porque é através dos olhos que as crianças, pela primeira vez, tomam contacto com a beleza e o fascínio do mundo. Os olhos têm que ser educados para que a nossa alegria aumente.

Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da educação, didáctica – mas, por mais que me esforce, não me consigo lembrar de qualquer referência à educação do olhar, ou à importância do olhar na educação.

Por isso, lhe digo: Professor: trate de prestar atenção ao seu olhar. Ele é mais importante que os seus planos de aula. O olhar tem o poder de despertar ou, pelo contrário, de intimidar a inteligência. O seu olhar tem um poder mágico!

O olhar de um professor tem o poder de fazer a inteligência de uma criança florescer ou murchar. Ela continua lá, mas recusa-se a partir para a aventura de aprender. A criança de olhar amedrontado e vazio, de olhar distraído e perdido. Ela não aprende. Os psicólogos apressam-se em diagnosticar alguma perturbação cognitiva. Chamam os pais. Aconselham-nos a mandá-la para uma terapia. Pode até ser. Mas uma outra hipótese tem que ser levantada: que a inteligência dessa criança – que parece incapaz de aprender –, tenha sido petrificada pelo olhar do professor.

Por isso lhe digo, professor: cuide dos seus olhos…

Rubem Alves

Gaiolas ou Asas

A arte do voo ou a busca da alegria de aprender

Porto, Edições Asa, 2004

(excertos adaptados)

publicado por opoderdapalavra às 21:07
Fevereiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
15
16
17
18
19
20
21
22
24
25
26
27
28
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Posts mais comentados
5 comentários
4 comentários
4 comentários
3 comentários
2 comentários
2 comentários
2 comentários
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
últ. comentários
José Hermano Saraiva costumava dizer que a pátria ...
Ao ler esse texto senti orgulho no peito, o mesmo ...
Encontrei o texto hoje...Uma pequena correcção, as...
Obrigado Isabel. Concordo consigo, os Amigos apena...
Carlos, bonita homenagem a um amigo. Que o Luís re...
O que mais me chama a atenção, neste...
A tua escrita acompanha o teu espírito. Amadurece ...
Grata, sorrisos :o)
Quente.Arrebatador.
Leitura muito agradável :)Convido a leitura do meu...
blogs SAPO