podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
05 de Janeiro de 2012

 

 

 

 

 

Estes últimos dias tem sido profícuos em comentários. Foram à mensagem do Presidente, foram à mensagem do PM, foram à transferência da Jerónimo Martins para a sua Holding na Holanda. Chego cada vez mais à conclusão que neste pais não se trabalha, opina-se. Vejo opinar por duas razões, tudo e nada. Mas gostava de me centrar numa ideia que ficou destes opinares, a de anti-patriotismo. E tudo sobre a Jerónimo Martins. Em primeiro gostava de transcrever parte de um editorial do Jornal de Negócios, que explica a atitude:

“A decisão da família Soares dos Santos pode ser criticada mas não pelas razões que ontem se ouviu. A Jerónimo Martins não vai pagar menos impostos. E a família que a controla também não - até porque já pagava poucos. Uma empresa tem lucro e paga IRC; depois distribui lucro pelos accionistas, que pagam IRC (se forem empresas) ou IRS (se forem particulares). Neste caso, a Jerónimo continua a pagar o mesmo IRC em Portugal (e na Polónia); o seu accionista de controlo, a "holding" da família Soares dos Santos, transferiu-se para a Holanda. Por ter mais de 10% da Jerónimo, essa "holding" não pagava cá imposto sobre os dividendos e continuará a não pagar lá. Já quando essa "holding" paga aos membros da família, cada um pagaria 25% de IRS cá - e pagará 25% lá. Com uma diferença: 10% são para a Holanda, 15% para Portugal. Porque tomou a família uma decisão que, sendo neutra para si, prejudica o Estado português? Pela estabilidade e eficácia fiscal de lá, que bate a portuguesa. Pelo acesso a financiamento, impossível cá. E porque a família tem planos de crescimento que não incluem Portugal. “

E ainda incluo mais umas palavras do senhor Alexandre Soares dos Santos, a quando de uma entrevista sobre Portugal à Fátima Campos Ferreira, em 2011:

“ ASS: Oitenta por cento dos nossos fornecedores são nacionais. Só importamos 20 por cento, produtos como o bacalhau, salmão fresco, vitelão, fruta e atum.

FCF: Fruta, temos cá.

ASS: Não, não há. Não temos manga nem outras frutas exóticas que as pessoas querem encontrar quando vão ao supermercado. Não somos como os polacos, que, em 1994, quando abrimos a primeira loja, não sabiam que existiam bananas. Só encontravam maçãs e laranjas por altura do Natal, que iam de Cuba. Não sabiam que existiam outros frutos. (...)

FCF: Na medida em que baixa os preços. Na zona do Mondego, o arroz está muito abandonado porque o arroz asiático é muito mais barato.

ASS: Não sei dizer se importamos arroz asiático. Nós compramos onde há qualidade, preço e entrega. Quando vai fazer as suas compras diárias ou semanais, obviamente quer comprar aquilo que lhe apetece e não o que lhe dão. Tem de existir possibilidade de escolha na loja, e compete aos produtores portugueses trabalharem e organizarem-se para terem esses produtos. Por que razão havemos de importar cordeiro da Irlanda? Ao encomendar um determinado número de peças, tamanho e acordando um preço com a Irlanda, tudo corre conforme combinado. Em Portugal, nunca sabemos quando nem se os portugueses vão entregar a encomenda. Em relação ao cordeiro, já me disse um produtor que as entregas dependem da vontade de trabalhar dos matadores municipais. O problema é que levamos as coisas a brincar. Exportar não é ter um produto e enviá-lo para fora, é preciso adaptá-lo ao cliente. Na Polónia, vendemos 3 milhões de garrafas de vinho português, mas é vinho que está a ser desenvolvido em função do paladar dos polacos. O fornecedor, que é da zona de Sangalhos, teve de estudar a sério como era o vinho barato romeno que o polaco bebia, para fazer igual. Produziu-o melhor e vende-o.” Ora, em primeiro lugar, este assunto veio mais uma vez confirmar que temos demasiados moralistas, iluminados e pessoas que não sabem de facto fazer mais nada senão serem o gene vivo do velho do Restelo. Em segundo lugar, fiquei espantado com as criticas a uma transferência que não é virgem, pois SONAE, EDP, Brisa e outros tantos já o fizeram, e para a Holanda também. E ainda não vi ninguém a dizer que vai deixar de ir ao Continente, de deixar de utilizar electricidade, ou mesmo de andar nas Auto-estradas... e os senhores destes grupos também já foram moralistas com o Estado. Depois vem a questão do patriotismo...bem, aqui é que me desmancho completamente. Que idiotice.

Onde está o patriotismo daqueles que preferiram irem para a praia em vez de irem votar? Votar nos momentos mais difíceis do pais, naqueles em que de facto é preciso manifestar a sua vontade de mudar, de alterar, e preferem olhar para o lado, e absterem-se?

Onde está o patriotismo dos que defendem tanto os produtos nacionais, mas também compram produtos de outros países, como toda a gente o faz?

Onde está o patriotismo daqueles que sempre preferiram passar férias no estrangeiro, mas são os primeiros a defenderem que “O que é Nacional é que é bom”?

Onde está o patriotismo dos que se fartam de comprar autores, escritores e revistas estrangeiras em vez de privilegiarem o que é português, e instigarem as editoras a arriscarem mais no que é português?

Onde está o patriotismo dos que defendem acerrimamente o novo acordo ortográfico, que vem decapitar por completo a Língua que é de Camões e Pessoa? Onde está o patriotismo dos que continuam a dar voz às pessoas que levaram este pais à ruína, levaram uma cultura ao descalabro?

Onde está o patriotismo daqueles que nem sabem de facto o que o 5 de Outubro representa, e ainda pensam que o 10 de Junho é de facto o Dia em que Portugal nasceu?

Aqueles que ignoram a sua história, as suas tradições, os seus valores?

Onde está o patriotismo daqueles que não respeitam os impostos dos outros e que só pensam em reivindicar direitos?

Onde está o patriotismo dos que se encheram de materialismos, quando havia muito dinheiro, e que se riam dos que avisavam ( como o senhor Soares dos Santos) que um dia as coisas podiam ser arrastadas para o “deserto”?

Vou-vos apenas esclarecer dois pontos importantes sobre o senhor Soares dos Santos, quanto à sua intervenção na sociedade portuguesa, e que ninguém lembra. A Fundação Francisco Manuel dos Santos editou uma série de livros, ensaios sobre os vários sectores da sociedade, desde a educação à justiça, passando pela filosofia, jornalismo, politica, cidadania, etc. Estes livros, magníficos, foram vendidos a 5 euros nos Pingo Doce, na Fnac e outras livrarias. Alguém notou? Se sim, ainda bem. Mas mais, a Fundação editou uma nova revista, publicação, que dá pelo nome de “XXI, ter opinião”, que visa discutir todo o tipo de assuntos relevantes da actualidade, e é anual. E ainda incluo o conceito da Fundação: “ A Fundação tem como missão estudar, divulgar e debater a realidade portuguesa. Com liberdade e independência.”

Este senhor, aquele que agora criticam e até querem boicotar a ida ao Pingo Doce, como se alguma vez foram obrigados a fazê-lo, mas eu dizia, este senhor já fez mais pela discussão real do que é o pais, do que pode e deve ser feito, já foi mais patriótico, do que a maioria daqueles que apregoam o contrario, que se mantém na sombra da critica gratuita, do opinar desmesurado e da enorme falta de ideias e de deveres, porque direitos eles pensam ter... mas serão eles patrióticos?

Eu não sou advogado do senhor Soares dos Santos, nem lhe revejo a perfeição, nem ele precisa de mim. Não vivo para defender os empresários, o capitalismo ou outra coisa qualquer, esquerdas ou direitas, tortas ou rectilíneas... e também aqui assumo que não me agrada este tipo de situações ( transferência do capital para a Holding Holandesa), ou os salários baixos que por vezes estes patrões pagam, mas a realidade é esta, e é este o pais em que vivemos e deixamos ser construído.

Mas sou um acérrimo defensor da alguns valores essenciais ao equilíbrio e à mínima inteligência humana: A Racionalidade; A honestidade de pensamento; a Humildade de filosofia; a Justiça de atitude; a Dignidade de existência. Sou a favor da seriedade nas discussões, sou a favor da Verdade e Transparência, sejam eles patrões ou empregados, mas que sejam Transparentes. Sou Utópico? Se for assim, Sou, mas sem Medo!

Portugal precisa de mais. Portugal precisa de criar uma consciência, de construir na sociedade uma nova filosofia, um conceito de mudança, aquele que poderá mudar o regime, aquele que poderá redefinir esta constituição obsoleta e que trás cada vez mais a desconfiança, a injustiça e os desequilíbrios. Deixem-se de discutir fóruns que apenas querem audiências, deixem-se de ir atrás da critica fácil e procurem saber e ler o que pode de facto estar a trás das palavras garrafais, queiram intervir e discutirem baseados no conceito da mudança, da criação de uma nova e verdadeira consciência. E sobre consciência, termino com as palavras deliciosas de um ex-padre Jesuíta, espanhol, que aborda precisamente o mundo actual, o social, o religioso e o Humano:

“ É uma questão de poder. (...) Estar perto dos que tem dinheiro dá poder. E também o controlo da sexualidade, da afectividade e da emotividade, dá poder.”

publicado por opoderdapalavra às 01:25
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