podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
05 de Outubro de 2010

 

 

Hoje, dia 5 de Outubro ,  comemoram-se 867 anos do Tratado de Zamora. O Tratado que deu a Portugal a identidade de um Pais, uma nação valente, como canta a Portuguesa. Durante séculos construiu-se um Império, um domínio para lá do horizonte marítimo. Durante anos e anos, homens de coragem, de força inegável, mulheres de vontade combativa, bateram-se pela independência deste lugar à margem de um Oceano crispado de bem aventurado para as conquistas que se avizinhavam.

Portugal conquistou o respeito, conquistou o mundo, descobriu novos horizontes e ofereceu uma língua, uma cultura, ofereceu uma nova visão. Durante este percurso muitos foram os erros, as decapitações de povos, o forçar uma nova crença, religião baseada numa demanda de poder. Mas quem não erra, qual foi a nação que não cometeu os seus erros colossais e que destruíram futuros e dizimaram presentes? Mas a história de um dos paises mais antigos do Mundo, foi marcada pelo enriquecimento histórico de um caminho feito de sangue, de querer e da vontade de chegar mais longe. Este foi o destino de um dia, em que por terras espanholas, assinaturas ditaram a independência de um Condado, espaço físico a que Portugal chamaria de berço.

Hoje, dia 5 de Outubro, comemoram-se 100 anos da Republica Portuguesa. Hoje comemora-se um século de existência da promiscuidade política, 100 anos da eloqüência e da imprudência do pensamento político, descuidado para com um povo inculto, esquecido na formação, na educação dos valores da história. Hoje comemora-se o regredir da história. Perdemos 100 anos em várias batalhas republicanas, numa ditadura que nos fez esquecer no mundo, numa democracia que nos fez afundar na globalização. Estúpidos e ignorantes são os que dizem que estamos melhor, porque temos mais estradas, mais escolas, mais tecnologia, mais cuidados de saúde, mas isso são apenas frutos colaterais do desenvolvimento de um globo, da evolução natural de um continente, na qual somos apêndice, e de quem recebemos o apoio para podermos sair da misera frustração de sermos os coitadinhos da Europa. Culturalmente somos os descendentes do Velho do Restelo, pobres de convicções, vazios de ambições, ocos de valores. Somos um poço sem fundo, sem água que nos possa preencher o conhecimento e enriquecer o espírito português. Temos demasiados fantasmas, sombras que ensombram o nosso designo.  E estes foram os últimos 100 anos. Vivemos um período em busca de uma identidade.

Hoje ainda escutava os discursos de políticos, onde diziam que a Republica veio defender a igualdade, os direitos, e as defesas dos cidadãos. Onde?

Onde estão as igualdades, quando atravessamos uma crise onde o mais pobre paga os vícios de uma classe política enfadonha e alimentada pela bolha do poder. O poder que lhes foi conferido por uma republica descuidada, longe do livre arbítrio, da liberdade de expressão, baseada na perseguição fortuita e desmesurada, que jogou as peças do xadrez pelos mesmos interesses que ainda permanecem nos dias de hoje, a defesa única e exclusiva da mentira nacional. Apesar de uma democracia, de um dito voto livre, ainda somos um pais que se conforma com a mentira barata, com a promessa esquecida. Vivemos 100 anos de Republica sem aprendizagem. A história serve para nos ensinar os proveitos, mas também os erros. Tivemos uma oportunidade soberana em mudar a mentalidade, em cortar com uma factura pesada que uma dos momentos da republica nos impôs, o Estado Novo, e não o fizemos, mas porque nunca houve interesse de o fazer. Senão como é que uma nação, que não esteja adormecida na velha e errada idéia de viver a democracia, aceitaria de forma algo irresponsável , três planos de austeridade que nos foram impostos, e no mesmo ano? Num momento em que fazemos, mais uma vez, contas à nossa vida de pais empobrecido, continuamos a aceitar as decisões dos responsáveis republicanos como factos normais, dentro da nossa cultura resignada. Nem uma manifestação em condições somos capazes de fazer. A Republica foi e continua a ser a pílula do adormecimento.

Onde estão os direitos dos cidadãos, quando não existem as responsabilidades dos dirigentes. A responsabilidade é um dever soberano. E esse dever é que poderá conferir o direito ao dever de cidadania.

Onde estão as defesas dos cidadãos, quando temos uma constituição que refere que o Estado tem o dever de defender e proteger os cidadãos. Onde está essa defesa de um povo que está cada vez mais à beira do abismo cultural?

Não sou pessimista, apenas temos de olhar a realidade do que somos, dos 100 anos de Republica que hoje se comemoram, mas também dos 867 anos de Nação que ninguém comemora. Temos valores acrescentados entre nós, mas são apenas migalhas encobertas, pela estúpida maneira elitista de pensar o pais. Somos uma nação que ficou esquecida, e agora somos apenas os filhos de uma vontade de sermos os contra producentes do sangue daqueles que desejaram a independência dos nossos vizinhos espanhóis. Agora já não queremos essa independência, mas mais porque nos sentimos e reconhecemos fracos para lutar, para enfrentar os verdadeiros inimigos desta nação dita valente... os nossos governantes.

A Monarquia estava decadente, corrupta, ditadura, mas não se constrói de novo um pais...adormecendo-o. Perdemos 100 anos na nossa história, porque não se ganha quando apenas, 100 anos depois, podemos dizer que o melhor que tivemos foi...não acreditarmos no pais que um dia já fomos.

publicado por opoderdapalavra às 17:12
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