podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
08 de Setembro de 2010

No Talmude vem um escrito que diz: “ A Difamação é um pecado tão grave quanto a idolatria, o incesto e o assassínio.” E no Talmude de Jerusalém ainda refere que :” O caluniador assemelha-se a uma serpente: Faz mal sem disso tirar partido.”

Durante a ultima semana fui observando  um circo montado à volta do caso da Casa Pia. Mas falo do circo social, do circo em que o cidadão anónimo é a figura central. O circo mediático é apenas mais uma circunstância do que outra coisa. Este caso tem sido das melhores refeições servidas aos órgãos de comunicação social, que se gladiam por uma qualquer acção que lhes dê visão e audiências. As guerras das televisões é apenas um fait diver dos dias de hoje. Só suporta isso que quiser.

Mas é do povo comum que eu quero falar e escrever. Do que escreveu apressadamente no Facebook sobre a sua forma de ver as condenações, ou quis se reunir no café com meia dúzia de conhecidos e outros tantos desconhecidos, os que pararam reuniões de trabalho para discutirem ideias, pontos de vista que foram esmiuçados até ao tutano da questão. Aos que apontaram o dedo, aos que não sabem que dedo apontar ou mesmo aos que pensam que estão de fora.

Foram dias a fio, a ver o quanto as pessoas jogam pedras sobre os vidros estilhaçados de si mesmas. Este caso é uma enorme lição para todos e todos devemos tirar sim as verdadeiras lições dele:

1-    Lição de Estado de Direito – um Estado que se diz democrático e livre, não pode conviver com uma justiça lenta e morosa, quase parada. Precisamos de um sistema judicial célere, rápido nas decisões e prontificado nas acções. Precisamos de uma verdadeira justiça, não verdadeira no ponto de vista de ser perfeita, pura, pois essa é utópica, mas sim uma verdadeira justiça no quadrante de estar pronta a dar uma resposta às inseguranças, desmontar as mentiras, atacar os cartéis de interesses, reinventar os valores humanos e sociais, abandonar as duvidas. Esta sim é a Verdadeira Justiça, feita por homens, feita por pessoas, sabedoras de um principio básico da justiça e primordial: errar não é ser cego.

2-    Lição Humana – Não precisamos de uma leitura de acórdão para vermos que mesmo antes de condenados, os arguidos, todos, já estão presos. Presos a uma imagem, presos a um conceito, presos a um perfil. Mas não são os únicos. As vitimas também elas estão presas, ao passado, às marcas, feridas não saradas, ódios, vontades de vingança. E os juízes também estão presos, ao peso do caso, da história que se contará, das famílias que os olham, dos políticos que os pressionam, das imagens que se criam. Os advogados serão os únicos que estão em liberdade, porque hoje defendem ou atacam e amanhã nunca serão eles os recordados. Acreditem que as grades das prisões que falo, são bem mais pesadas que as de ferro. E esta prisão não desaparece, carrega-se. E estão presos todos os que se deixaram envolver emocionalmente por este caso, tomando partidos e facções, sem conhecerem os dados, sem terem certezas e fazendo julgamentos gratuitos e fora de contexto. A consciência pode ser a porta da liberdade como a porta da pior das jaulas.

3-    Lição Social – Li esta semana um artigo fabuloso de Rui Tavares no Jornal Publico. Ele escrevia que todos falhamos neste caso, e eu concordo, porque sempre que existe um crime, ele deve-se ao falhanço de uma sociedade. É fácil pensarmos que não temos nada a ver com este caso, mas ele acontece porque a sociedade é um antro de preconceitos, de barreiras, obstáculos culturais que levam à criação de monstros, mas que não deixam de ser humanos. Hitler era um ser humano, não era mais ou menos constituído fisiologicamente que todos nós. Um pedófilo é um ser humano. Mas dirão que são monstros, concordo, mas são-no porque fomos todos nós que os construímos. Quando existe um mal, não pode ser aparando a copa da árvore que esse mal vai sucumbir. É cortando a raiz, tratando que ela não se alastre. E nós não fazemos o tratamento da origem. Apenas nos sentamos, com o copo de cerveja na mão, o tremoço na outra, e com o sangue a cair pelos dentes, esperamos a queda do próximo, vendo-o esmagar-se contra a sua própria ruína. E assim se criam os monstros. Todos falhamos porque todos pertencemos a uma sociedade, um grupo de pessoas que vivem dentro da mesmo Gaiola. Este caso aconteceu porque o estigma do abandonado, do socialmente fraco, do desprotegido levou uma cultura a esconde-los numa sombra, numa escuridão onde a falta de luz os deixou à mercê dos monstros. Monstros que tem um passado, por vezes marcado por violências, por violações prematuras, por um desequilíbrio emocional mal entendido, e que se revela em situações como a pedofilia e outras mais. Não estou aqui a desculpar os malfeitores, nem os culpados, porque quem o é, deve pagar por isso. Mas estou aqui para assumir a minha culpa como cidadão, como parte do preconceito absurdo de não encarar o mal de frente, para se poder combate-lo. A minha culpa como parte de uma sociedade estigmatizada em fantasmas, baseada numa cultura mesquinha e arruinada pela ânsia desmesurada do gratuito julgamento do próximo, nunca de si mesma, apenas do próximo. É mais fácil ver no olho do outro, a mosca que incomoda o nosso.

 

Não sou advogado do Diabo. Sou apenas o culpado do acaso. E sou a vitima do meu pensamento.

Pensem muito bem no que dizem e no que escrevem. A vida está sempre a julgar-nos e essa justiça é a mais real de todas. Tenham cuidado com as pedras que atiram, elas sempre podem voltar na vossa direcção. Todos somos normais até ao dia em que o deixamos de  ser.

E aprendam com as lições.

 

publicado por opoderdapalavra às 23:55
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