podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
08 de Fevereiro de 2010

 

Querida criança,

 

Escrevo-te perdido na rua. Deixaste-me ontem, junto ao caixote do lixo que se espanta na esquina da tua rua. Ao frio, sozinho no mundo, sem dizeres um obrigado, um adeus e até breve. Nada. Simplesmente abandonaste-me, viraste as costas, com um novo brinquedo nas mãos. Sabes, talvez não te recordas, mas durante anos eu fui a tua maior companhia, estive sempre a teu lado. Cheguei num dia de alegria. Tinhas acabado de ver o mundo, nascido de entre as pernas da tua mãe. Vieram muitos familiares teus abraçar-te e dar-te beijos peganhosos, cheios de uma baba irritante e pestilenta. Eu vim no braço de um senhor elegante, que havia passado numa montra, onde eu sorria para os que passavam. Quis que fosse eu a ir, na altura, sorrir para ti. E fui. Com muito bom grado, afinal, uma criança é a pureza da vida. Quando fomos apresentados, recordo-me de estares deitado, a dormir, e eu não fiz barulho. Deixei-me estar, junto a ti, aquecendo-te e protegendo-te. Tinhas a pele a cheirar ao singular odor da inocência, um cheiro a bebe que se torna adorável, com aqueles cremes que te puseram durante dias e noites a fio. Eu sorria sempre, mesmo quando tu me pegavas e atiravas contra a parede. Ficava com algumas feridas, como aquela que a tua mãe cozeu, junto ao braço, quando me espetaste com uma faca, para ver se eu teria coração. Pois tenho, sabes. E foi esse coração que me fez estar a teu lado nos momentos em que estiveste doente, com aquelas febres que teimavam em não abandonar o teu corpo. Fui o teu protector nessas alturas, chegando mesmo a pedir ao Deus dos brinquedos que me ajudasse a melhorar o teu ser. Fui eu quem sorriu quando tiveste o primeiro dente, e fui eu quem te abraçava quando os teus pais discutiam e batiam-te, mesmo quando tu não tinhas culpa nenhuma. Nessas alturas o teu ranho inundava o meu corpo, mas eu nunca me importei, pois dizem que chorar por vezes faz-nos bem à alma. Lembras-te quando os teus amigos vinham lá a casa e tu brincavas com eles e comigo? Era tão bom, e nunca me queixei das coisas que vocês me faziam, desde a massa que eu ficava banhado, até à tinta que me colorava a pele. Para mim a tua felicidade foi sempre o principal. E agora, logo agora que estou velho e perto dos meus últimos dias, tu decidiste trocar-me por um brinquedo mais novo, apenas porque é mais tecnológico, faz sons, e onde tu destróis tudo e todos. Trocaste-me por um brinquedo onde tu és o senhor da guerra, onde matas os que queres, onde o sangue é o teu maior prazer. Eu, que nunca te bati, eu que nunca te fiz chorar, eu que nunca te disse que te odiava, eu que nunca fiz birra, eu que nunca te virei as costas... eu sou o que abandonas. Nem o teu pai, que um dia partiu, e nunca mais te disse uma palavra, até ao dia em que ele apareceu com esse brinquedo novo e te sugeriu que me jogasses no lixo. E até a tua mãe, que passa as horas a berrar contigo, a isolar-te no teu quarto, onde podes jogar a playstation e ver filmes violentos, só para tu não a chateares, até ela tu preferiste. Eu... pois eu sou apenas um peluche, não é? Pensas que não sinto nada, pois enganaste, eu sinto e muito. Tu só precisas de um amigo, e eu era o teu amigo. Mas agora que estou aqui ao frio, vou partir. Espero que o fim chegue. Vou esperar aqui, sentado nesta cadeira de jardim, onde os pássaros vem e falam comigo. Onde o sol vem e aquece-me o corpo. Onde o vento abraça-me e conforta-me com o seu som. Aqui onde a chuva lava as lágrimas que escorrem no meu coração, aqui onde sou apenas eu, o peluche, mas apesar de sozinho, não me esqueço de ti, criança, que amo. Sê feliz.

 

publicado por opoderdapalavra às 22:46
Fevereiro 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
12
13
14
15
16
18
19
20
21
22
24
25
26
27
28
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
Posts mais comentados
5 comentários
4 comentários
4 comentários
3 comentários
2 comentários
2 comentários
2 comentários
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
últ. comentários
José Hermano Saraiva costumava dizer que a pátria ...
Ao ler esse texto senti orgulho no peito, o mesmo ...
Encontrei o texto hoje...Uma pequena correcção, as...
Obrigado Isabel. Concordo consigo, os Amigos apena...
Carlos, bonita homenagem a um amigo. Que o Luís re...
O que mais me chama a atenção, neste...
A tua escrita acompanha o teu espírito. Amadurece ...
Grata, sorrisos :o)
Quente.Arrebatador.
Leitura muito agradável :)Convido a leitura do meu...
blogs SAPO