podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
21 de Junho de 2009

Quero pedir a todos os meus leitores que façam uma paragem nos vossos pensamentos. 

Na História do Homem, muitos tem sido os que morrem pela Liberdade, pela vontade de poderem exprimir a sua opinião, pelo querer uma sociedade mais livre, justa. Neste sábado, uma mulher morreu em Teerão, tinha 16 anos. O seu nome Neda. Parem. Pensem. O que acontece longe dos vossos olhos, explodem dentro do vosso pensamento. A Simplicidade Humana de querer ser Livre. Será um problema dos outros, afinal?

 

 

 

 

Poema Árabe de Nizzar Qabbani.  Para Neda e todos os que Lutamos para a Liberdade de Todos!

 

O meu filho coloca a sua caixa de pintura à minha frente

 

E pede-me que lhe desenhe um pássaro.

 

Mergulho o pincel na cor cinzenta

 

E traço um quadrado com fechaduras e grades.

 

Os seus olhos enchem-se de surpresa:

 

"... Mas isto é uma prisão, pai,

 

Não sabes desenhar um pássaro?

 

E eu digo-lhe: "Filho, perdoa-me.

 

Esqueci-me da forma dos pássaros.

 

O meu filho coloca o livro de desenhos à minha frente

 

E pede-me que desenhe uma espiga de trigo.

 

Pego num lápis

 

E desenho uma arma.

 

O meu filho desdenha da minha ignorância,

 

perguntando,

 

"Pai, não sabes a diferença entre uma espiga de trigo e uma arma?"

 

Eu digo-lhe: "Filho,

 

uma vez usei a forma da espiga de trigo

 

a forma do pão

 

a forma da rosa

 

Mas nestes tempos duros

 

as árvores da floresta juntaram-se

 

aos homens da milícia

 

e a rosa veste uniformes escuros

 

Neste tempo de espigas de trigo armadas

 

de pássaros armados

 

de cultura armada

 

e de religião armada

 

não se pode comprar pão

 

sem encontrar uma arma no interior

 

não se pode colher uma rosa do campo

 

sem que os seus espinhos nos arranhem o rosto

 

não se pode comprar um livro

 

que não vá explodir entre os nossos dedos."

 

O meu filho senta-se à beira da minha cama

 

e pede-me que recite um poema

 

Uma lágrima cai dos meus olhos para a almofada.

 

O meu filho apanha-a, surpreendido, dizendo:

 

"Mas esta é uma lágrima, pai, não é um poema!"

 

E eu digo-lhe:

 

"Quando cresceres, meu filho,

 

e aprenderes o 'diwan' da poesia árabe

 

descobrirás que palavra e lágrima são gémeas

 

e que o poema árabe

 

não é mais do que uma lágrima chorada por dedos que escrevem."

 

O meu filho pega nos seus pincéis,

 

a caixa de pinturas à minha frente

 

e pede-me que lhe desenhe uma pátria.

 

O pincel treme nas minhas mãos

 

                                         e eu afundo-me, chorando.

 

 

publicado por opoderdapalavra às 23:56
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