podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
08 de Fevereiro de 2008




A chegada.

A cidade dorme num manto de nevoeiro espesso. Está frio, e tudo o que possa aquecer as ruas está morto. As árvores estão despidas e as pessoas desaparecidas. Existem apenas meia dúzia de folhas soltas pelas beiras dos passeios. O vento não consegue limpar a neblina que navega pelos cantos de toda a cidade. A vida parece se ter esquecido de um local onde o aço e o cimento encobrem os rostos, os corpos, as sensações. A noite está coberta pela melancolia da solidão. Nos seus fundos um vulto emerge das estrelas e caminha rasgando todo o nevoeiro. Traz uma roupa escura e traça os seus passos pelo condão de um alinha recta. Palmilha as ruas, avenidas, guetos escondidos, travessas perdidas, esquinas desencontradas. O seu bafo respira uma calma anormal. Chega junto de uma praça onde dormem pequenos moribundos, homens que fazem do céu o seu tecto, e do chão a sua cama. Chega-se a eles. Olha-os fixamente por entre uns óculos pintados pelo preto da noite. Está fixo nos corpos que desenham a calçada, frios no tempo, esquecidos dos pensamentos nos pensamentos dos outros, atormentados pelas agonias de uma vida apagada, uma história sem letras. Um deles acorda e vê o vulto. Fica assustado, embriagado pelo medo.
“ Quem és tu? Porque me olhas? “
A voz ficou parada no momento. Não se escutou nenhum som dos lábios dele. Apenas o silencio foi soletrado. Mas a insistência apegou-se ao velho moribundo.
“ Porra, responde. O que queres?”
As perguntas obrigaram à fala.
“ Sou alguém.”
“Alguém? Mas quem é alguém?”
Outros já acordaram. Estavam envoltos todos num misto de curiosidade amedrontada. Não havia mais ninguém por aqueles lados. Nem um policia. Nem um transiunto que pudesse ajudar.
“ Fostes abandonados.”
Voltou as costas e foi-se sentar num banco que ornamentava a praça num dos seus cantos. Deixou-se estar. Fechou os olhos. Dormiu. Os sem-abrigo ficaram ainda mais bêbados de curiosidade. Quiseram saber afinal o que aquele homem queria e quem era. Um deles decidiu aproximar-se. Sentou-se ao seu lado.
“Quem és tu? Estamos todos curiosos. Não te conhecemos destes lados. Os meus amigos ali pensam que vens para nos fazer mal.”
Os lábios riscaram um sorriso. O moribundo quis saber porque ria.
“Eu não vos faço mal. Já vos fizeram mal demais. Sou apenas um estranho que caminha pelo mundo, aprendendo com o que vê, conhecendo o que toca, degustando o que sente. Sou um viajante da vida. nada mais. Sou um aprendiz.”
“ És um estranho. Mas falas bem. E a tua calma sabe bem escutar.”
“ A minha calma? Devias ver a calma de Deus.”
“ De Deus? Falas com se o conhecesses.”
“ E conheço.”
O silencio voltou a cair no largo. Todos já se tinham aproximado, mas aquela frase de conhecimento abalou os pensamentos de todos.
“ E de onde o conheces?”
“ De todo o lado. Ele está em tudo e em todos.”
“ Mas onde está ele aqui? Onde está Deus nas nossas vidas miseráveis? Onde está esse Homem que diz ser o pai de todos nós, e nos deixa morrer nesta tristeza?” as palavras foram ensangüentadas pela ira da voz.
“ Quem te disse que ele é um Homem? Os homens é que o desenharam à sua imagem, com a arrogância do poder, com a prepotência de pensarem que eram o topo do mundo. Deus não é nenhum Homem, nenhum ser, Deus é tudo. Tudo o que vemos, o que sentimos, o que tocamos, o que pensamos. Deus são as cores da natureza, é a água do mar, é o vento que sopra, é o sol que aquece, a chuva que molha. Deus são os frutos, os animais, as pedras, a terra. Deus é tudo. E Deus não se esqueceu de ti, acredita. Nós é que nos esquecemos dele, quando o trocamos por um Homem.”
“Falas bem. Mas não acredito em ti.”
“ Tu que não acreditas no que digo vais sempre estar descrente do que digo, porque pensas que o Deus é alguém que nunca vai aparecer. Por isso temos a guerra, a fome, a desgraça, o abandono. Por isso existem vocês. Mas vejam que Deus não se esqueceu de vocês, pois vocês existem, como existe tudo o que ns rodeia. Ele não é um Santo que um dia virá julgar quem quer que seja, ele apenas é justo na sua existência diária. Tudo tem de existir e co-existir.”
Os moribundos começaram a dispersar. Pensavam que as palavras deste vadio estavam cheias de maior desgraça que as suas próprias vidas. E foram-se deitando.
Ele sorria. Percebia que era ignorado. Pensava nos olhares, nas mãos secas, na pele dura.
“ Deitem-se e descansem, amanhã será um novo dia e todos vocês saberão que tudo estará diferente.”
E adormeceram todos.
O dia acordou com um sol único, luminoso, rasgando o céu com um brilho estonteante. Os olhos dos moribundos formam despertos por umas mãos que os tacaram com um calor arrebatador. Eles ficaram no espanto dos pensamentos. Pessoas com roupas, comida quente, com um sorriso nos lábios, palavras de afecto, e com um abraço de amor abordaram-nos pelo esplendor da manhã. Olharam em volta, mas o vulto já tinha partido.
Enquanto comiam, um deles olhou o céu. Hoje parecia mais belo do que nunca. Olhou o verde das árvores, o canto dos pássaros. Tudo parecia mais belo. Falou no surssuro do seu intimo.
“ Conheci Deus. Ele existe.”



Volto Já. Sentimento.
publicado por opoderdapalavra às 00:53
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