podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
02 de Abril de 2009

Transcrevo aqui uma carta que foi assinada por várias pessoas e dirigida aos lideres mundias do G-20

"Uma crise económica de grandes dimensões deveria trazer ao de cima o melhor da Europa. Os fracos deviam ser protegidos pelos fortes, que por seu turno deveriam apontar uma estratégia comum. Mas até aqui a Europa não tem estado à altura da situação, quando devia estar a aproveitar a crise para pressionar no sentido da adopção de soluções comuns para problemas globais. Em vez disso, à medida que nos aproximamos da cimeira do G20, as divisões provocadas pelo agravamento da crise financeira ameaçam minar os três grandes projectos dos europeus nos últimos 50 anos.


Desde 1945 que a Europa vive uma paz e uma prosperidade sem precedentes. A principal razão para a criação de um mercado interno europeu que uniu as economias dos vários Estados membros numa comunidade legal onde beneficiam da livre circulação de pessoas, capitais, bens e serviços. Mas se as couraças financeiras nacionais são mobilizadas para relançar as indústrias nacionais e toda a atenção é dada aos estreitos interesses nacionais imediatos, então as regras da competição justa e o mercado interno que sustentam ficarão minadas.

A crise financeira em curso demonstrou de forma convincente as vantagens do segundo grande projecto europeu, a criação de uma moeda única. Sem esta, muitos membros da zona euro poderiam estar a atravessar dificuldades muito maiores. Porém, o projecto do euro revelou-se incompleto; dispõe de um banco central, mas não tem um tesouro central e a supervisão do sistema bancário está a cargo das autoridades nacionais. Uma quebra de solidariedade no interior da zona euro ou mesmo face aos novos Estados membros do mercado único europeu poderá ser um perigo para a zona euro.

O terceiro projecto sob pressão é a consolidação do alargamento histórico para leste da União Europeia (UE). A viabilidade económica de todos os novos Estados membros beneficiou toda a União nos últimos anos. Mas as declarações proteccionistas de alguns líderes da UE e a falta de vontade de alguns Estados membros em dar apoio financeiro às economias mais vulneráveis da Europa levaram a que em alguns dos Estados membros mais antigos se fale em "desfazer o alargamento". Uma nova maré de populismo e de nacionalismo ameaça debilitar os princípios nucleares europeus da solidariedade, da tolerância e do compromisso com uma sociedade aberta. 

À medida que nos aproximamos da cimeira do G20, a 2 de Abril, a Europa está numa posição crítica. Os Estados membros da UE estão demasiado integrados para poderem desenvolver respostas puramente nacionais, mas demasiado divididos para decidirem seguir em frente por um caminho comum. 

É vital que os líderes europeus mostrem visão e capacidade de liderança para construírem uma posição coordenada. Este é um tempo para surgirem respostas institucionais criativas a nível europeu relativamente à regulação, ao orçamento da UE e a encorajar estímulos pontuais e definidos, por exemplo através de um "New Deal Verde". Os líderes europeus deveriam também considerar o lançamento de task-forces lideradas pela Comissão Europeia para garantir e reforçar o mercado único. Deveriam considerar formas criativas de sustentar o euro com o eurobonds ou uma versão europeia do Fundo Monetário Internacional. Os líderes da Europa Ocidental têm de mostrar solidariedade com os seus parceiros do Leste - incluindo medidas especiais para os que se estão a bater para integrar a zona euro - em vez da atitude de "cada um por si" que têm transmitido agora. E os países que estão em boa situação devem procurar formas de apoiar os países menos desenvolvidos contra uma calamidade financeira que não provocaram. Apoiamos a ideia da emissão de Special Drawing Rights (SDR) pelo Fundo Monetário Internacional, através dos quais os países ricos emprestem aos mais pobres.

O G20 tem sido visto como o prenúncio de uma nova ordem política global. Os líderes europeus têm de mostrar que a Europa pode contribuir de forma significativa para resolver os novos problemas internacionais, em vez de exibirem as suas divisões internas ao resto do mundo. A UE nasceu como um projecto económico concebido para alcançar objectivos políticos. Mas, à medida que a crise económica continua, apenas uma acção política ousada ao nível europeu poderá salvar a economia europeia e o projecto europeu no seu todo.

Martti Ahtisaari, Giuliano Amato, Emma Bonino, Manuel Castells, Massimo D'Alema, Jean-Luc Dehaene, Timothy Garton Ash, Teresa Patrício Gouveia, Pierre Hassner, Wolfgang Ischinger, Mark Leonard, Ana Palacio, Chris Patten, George Robertson, Narcís Serra, George Soros, António Vitorino e outros (53 personalidades assinaram esta carta aberta)

publicado por opoderdapalavra às 00:27
A Europa como entidade política não EXISTE, nem nunca EXISTIU. As "comunidade" ou "união" europeias nunca passaram para lá de tratados comerciais e económicos. Então, para quê escrever textos tão apelativos à participação concertada da Europa para a resolução da crise económico-financeira se não há "cabeça" a que apelar ? . A Europa sem união política é como um golias sem cabeça. Até aqui muitos concordam. O problema é que a união política nunca virá. Daí que esta cimeira me pareça o estretor dos G7,8,20 e passará a ser dos G2. A Europa em conjunto com os EUA são o maior bloco económico mundial da mesma forma que os EUA+Ásia ainda o são mais. A Europa viveu desde o fim da 2ª GG uma prosperidade sem igual, mas para isso aceitou o escudo financeiro e militar americano e, portanto, a PAX americana, o que implica prescindir exactamente dos mecanismos que permitem ter voz activa no mundo. Veja-se que a "Europa" nunca conseguiu resolver qualquer conflito armado que tenha ocorrido em qualquer parte do mundo.Até mesmo na SUA casa, como foi o caso da guerra dos Balcãs em plenos anos 90, com genocídios que só se imaginavam em África e nunca na "Europa" civilizada,teve de aceitar a intervenção americana para por fim à vergonha civilizacional.É claro que a seguir tem os Tribunais Internacionais para julgar os crimes de guerra. Veja-se também a impotência da "Europa" sempre que rebenta mais uma intifada. O sr. Xavier Solana vezes há que nem é recebido pelos Israelitas, pese embora a "Europa" ser o maior doador financeiro quer para os palestinianos quer para Israel !!
O problema dos leaders europeus é terem criado nestas últimas décadas um sistema de Estado Social irreal, ( a Europa Social, lembram-se?) só conseguido por desviarmos todos os recursos financeiros afectados à defesa ( porque existia um guarda chuva americano), e que agora não tem sustentação nem futuro, nem nenhum governo tem coragem para reformar. Daí que se volte a falar de proteccionismo. Simples.
Eurico a 2 de Abril de 2009 às 11:19
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