podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
09 de Fevereiro de 2009

 

 

Decorria o ano de 1992, Eluana Englaro fora vítima de um terrível acidente de viacção que a atirou para um longo e profundo estado de coma. Após uma penosa batalha jurídica que durou mais de dez anos, os seus pais conseguiram que o Tribunal Constitucional italiano decretasse a suspensão da alimentação artificial que mantém a integridade das suas funções vegetativas.

Após o anúncio da decisão, a hipócrisia humana de Sílvio Berlusconi fez com que se reunisse com o Vaticano, qual escola de virtudes humanas, e iniciou-se uma série de manobras políticas que fizeram a Itália mergulhar numa perigosa crise institucional. Para além de ter feito aprovar uma Lei que proíbe o cumprimento da decisão judicial, o governo de Berlusconi iniciou uma perseguição à clínica onde a jovem se encontra internada, lançando suspeitas de ilegalidades administrativas no seio da mesma. Os pais da jovem Eluana continuam a sua longa batalha, denunciando que «Berlusconi enfrentou o Presidente da República para tentar deter a legalidade»e acrescentando que «a Igreja (católica) não tem nada a ver com este assunto» nem lhe deveria impor os seus valores.

Segundo Berlusconi, “Eluana Englaro não pode morrer porque, pelo menos fisicamente, ainda está em condições de ter filhos”... Incrivel… Não consigo acreditar que a opinião pública europeia e, em particular, a italiana concordem com este tipo de afirmações perfeitamente absurdas que parecem ver toda a existência feminina como o útero potencialmente reprodutor, e nada mais do que isso… Como podemos viver numa Era Democrática, LIvre e defensora de todos os direitos, quando a vida é vista como um caminho de dois lados, o lado da existência pelo Homem ( Ser criado pela costela) e o lado do utensilio necessário e quase perdoado em existir, a mulher… afinal parece que nem só os Mulçumanos vivem fechados.

Independentemente da opinião individual que cada um tem nestas matérias, convém ter presente, como bem assinala Laura Ferreira dos Santos, que «é tempo de reconhecermos devidamente o pluralismo ético em que estamos envolvidos, em que não há uma única perspectiva do que é, ou pode ser, uma vida (moralmente) boa».

[Soube-se agora que Eluana morreu.]

 

 


 

 "Todos vocês falam muito bem. Utilizam palavras caras, constroem frases bonitas, mas sinceramente nenhum de vocês diz algo de importante. Eu sou mãe. Eu dei à luz o Robin. Foi o dia mais feliz da minha vida. Senti durante 9 meses a vida dentro de mim. Ela desenvolveu-se com toda a sua magia. Depois ele cresceu aos meus olhos. Dei-lhe amor, carinho, uma educação de fortes convicções. Tudo para que o seu futuro fosse pintado de bem estar. Até ao dia em que recebo a noticia do seu acidente. Aquele dia não irei nunca esquecer. Senti as pernas frias, gélidas. Senti que me tiraram algo do meu corpo, como que tivessem cortado parte de mim e tivessem dado a comer aos animais... – houve olhares de repulsa pelas palavras em todo o estúdio - ... esse momento foi eterno e será sempre assim. Nesse dia eu perdi o meu filho. Ele sobreviveu, é verdade, mas deixou de ser o meu Robin. Transformou-se num manto de trapos. Choros dias e noites. Gritos manhãs e tardes sem fim. Urinas. Odores. Fezes. Tudo sem limites. Feridas num corpo sem vida. Feridas num coração sem dono. Feridas numa mente sem corpo. Sabem o que é isso? Sabem o que é acordar de noite e irmos ao encontro de um filho e encontrarmos uma cara vadia deitada numa almofada, chorando a sua existência? É o Robin. O meu filho que amo muito. Não o deixem morrer. Ele continuando assim, naquela cama, aprisionado ao sofrimento, está cada vez mais morto. Está transformado num monstro. Deixarem-no seguir o seu caminho não é matá-lo, mas sim fazê-lo viver, em liberdade. Na liberdade do coração dos que o amam verdadeiramente."
 
In " Senhores da Vida e da Morte" de Carlos Almeida, a publicar pela MillBooks - Abril 2009
 
 

 

 

 

 

publicado por opoderdapalavra às 23:27
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