podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
25 de Novembro de 2015

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Pego na mochila e saio. Não se sai assim de leve, sem dizer nada, sem deixar uma memória. Primeiro arrumam-se os momentos, depois limpa-se os ressentimentos, para que as dores possam ficar guardadas. E a seguir as palavras. Pegam-se nas desculpas, nos perdões tardios ou não, nas consciências mais ou menos pesadas, e metem-se nas palavras. Fazem-se frases, construindo discursos repetitivos, mas sempre bem definidos. E remata-se sempre com um sorriso. E com um abraço quando ainda se tem tempo. Mas não muito longo, pois o demasiado afecto pode fazer regressar o passado. E esse tem de ficar bem fechado. Como um fantasma que ensombra os dias e as noites, deixando, assim de ser, o sabor amargo do enclausurado. É assim que se sai. E foi assim que sai. De mochila. Com poucas coisas amontoadas. Apenas umas camisolas, umas cuecas, alguns pedaços de utensílios pessoais, umas botas de troca e duas calças de reserva. Ah, claro, acrescentei ainda o livro e o bloco de notas. O livro fala de um amor. Vadio, sem dono, meio assustado. Um amor de quem espera pelo beijo esquecido, de quem resenha entre dentes a vontade de um corpo malandro, daqueles com que se fode, como se da última se falasse. Homem com mulher. Mulher com homem. Outro homem. Outra mulher. Mais mulheres e menos homens. Mais expectativas quanto ao amor de uma mulher, menos promessas quanto ao amor de outro homem. É assim que se cruzam as páginas do livro. E no fim, parece que tudo termina bem. Com beijos. Com cama. Com sonhos e futuros prometidos. E tudo fica ali, naquela última frase " nunca haverá outro dia como aquele, em que o amor venceu." Como se fosse uma corrida, onde o primeiro seria premiado com o tal sentimento nobre. E depois as notas. A caneta. Vou escrevendo o que me vem à ideia. Nada de especial. Apenas os passos que vou dando, os pensamentos que parecem brutos umas vezes e mais dóceis noutras. Mas nunca deixam de ser pensamentos. Apesar de quando querem apertar o peito, fazem-no como se uma mão entrasse pelas costelas e fosse às entranhas esvaziar todo o seu conteúdo. Escrevo também o que vejo. Caminhos, estradas, ruas. E há as montanhas, as descidas e os desníveis. E há as pontes, às margens que se ligam e à margem de quem se liga ou desliga. Aí, olho sempre a corrente. Nunca passa a mesma vez por debaixo daquela travessia. E vai, no seu percurso, sem notar se ali estou, contemplando-a. Anoto a comida. O pão quente, as carcaças mal cozidas, o queijo fundido na tosta, a carne que fora mal passada e o peixe por amanhar. O vinho que sabe a rolha, a água a pedra e a sede que não se mata. As conversas de fim de dia, as vozes no início da tarde, os silêncios pela manhã. Escrevo sobre as várias vezes em que comi sozinho. Apenas eu e a mesa. E mais uns bancos vazios. Prato cheio, copo por meio, e sem diálogos. Qual livro de desenhos com balões sem palavras. Quando durmo, fico de olhos abertos. Dormir assim é não esquecer que a seguir ainda se pode acordar. É assegurar que não se fica ali, no sono profundo, perdido entre quem se deita e nunca se levanta. São muitas as casas onde durmo assim. Ouvindo a noite. Escutando o que ela diz. O matreiro do mocho que fisga a presa, o grilo que não se cala, e o pirilampo que não se desliga. E falam as estrelas também, e o vento que sopra antes de amanhecer, ou a vergonha da penumbra que humedece os campos. E durmo em casas de gente que não se deita, de gente que me olha por estranho, que me troca por um pedaço de moedas que tilintam nas mãos. Gente que mostra os seus aposentos, que me deita em palheiros ou no chão de madeira. E sempre chega o dia. Um banho pela mangueira, roupa lavada na banheira e os perfumes das flores. Raso na pele pétalas que me embebedam de odor. E depois o café. Cheiro matinal. E assim saio de novo. Depois de tudo arrumado, deixa-se a memória, de mochila nas costas, e olhar na frente da passada, saio e vou embora. Até chegar. Nesse dia poderei, enfim, descansar.

publicado por opoderdapalavra às 13:37
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