podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
23 de Dezembro de 2014

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Este é o ultimo texto que coloco do meu curso com o Pedro Chgas Freitas. Foi dos que me deu mais gozo em escrever. Leiam-no sem pudores, e imaginem. Vão ver que se vão divertir. Grato a todos. Até breve e Boas Festas!

 

 

"Ao entrar na La Bodega, Salvador percorreu, como sempre, todas as salas, vasculhando pelo seu corpo, pelo desenho da sua linda mulher. E ali estava ela, traz um vestido acetinado, preto, colado com a pele. Criava uma temperatura, criando um desejo mundano que inundava a respiração de todo o ambiente. Era a ultima sala, onde Juanito preparava as notas soltas de mais uma musica. Havia pouca gente, e a luz era apenas uma leve e sombria mancha que cobria todo o lugar. Num dos quatro cantos, sentado junto a uma mesa comum, o estrangeiro bebia, como é habito, o seu vinho. Argentino, para não variar do seu paladar. Copo cheio. Garrafa estreada. E Juanito rodou os dedos pelos botões do arcodeão. Começou, como habito, mais um tango. Os lábios do estrangeiro colaram-se ao copo, deixando-se ir ao sabor do seu intimo. “Cheval des Andes”, nome do fluido dos deuses. Mistura de forma fina, três corpos, que se entrelaçam por entre o fino sabor de Cabernet Sauvignon e Malbec, par que dança a sensualidade como fantasia de sentidos apurados. Mas este casal tem o corpo musical de Petit Verdot, que pauta todo o andamento, onde a transpiração se cola aos engrossados lábios. Existe uma espécie de beijo que apura o amor, uma espécie de tacto que define o desejo, e uma espécie de sonho, ilusão que transporta o pensamento pelo pecado orgásmico. Os odores unem-se, lembrando framboesas e amoras maduras, dando uma perfeita intensidade ao toque nas linguas, já salgadas de tanto suor que transpira das papilas gustativas. Os dedos deslizam pelo corpo, baixando pelo pé que sustenta toda a magia, orientados pelo toque notável de chocolate de leite e sugestivos aromas florais. Depois de tantas notas, com a voz rouca de um Juanito que modelava toda a melodia de Carlos Gardel, olhava-se uma bela textura de cor violeta, bem densa, que exprimia toda uma jovialidade sensual. Por isso, deixou-se ficar mais uns segundos, sentindo na boca, todo o seu vigor, o equilibrio de um corpo eroticamente equilibrado e afrutado. E o ultimo gole do estrangeiro coincidiu com um ultimo poema que saía daquele apixonado cantor:

“Acaricia o meu sonho

O suave murmúrio do teu suspirar

Como ri a vida

Se os teus olhos negros me querem olhar

E se é meu amparo

O teu sorriso leve que é como um cantar

Ela acalma a minha ferida

Tudo, tudo é esquecido.

O dia que me querias

A rosa que te enfeita

Vestir-se-á de festa

Com a sua melhor cor

O soar dos ventos

Dirão que já és minha

E as fontes loucas

Cantarão o teu amor

A noite que me queiras

Desde o azul do céu

As estrelas ciumentas

Olharam-nos passar

E num raio misterioso

Fará um ninho no teu cabelo

Vaga-lume curioso

Que verá que és o meu consolo.”

O estrangeiro ainda avistou o ultimo passo de Salvador e Mellia. Fitou-os e sentiu o que se respirava em toda a sala. O quente sabor do amor. "

 

publicado por opoderdapalavra às 16:24
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