podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
08 de Abril de 2015

 

 

 

“- Há uns anos – começou o gordo – escrevi um ensaio que começava com a seguinte frase: O canal do parto e o caixão são dois espaços desenhados para um só corpo.

E isto, Damião, para mim, quer dizer que nascemos sós e morremos sós. Esta ideia, tão assustadora do meu ponto de vista, é talvez a lição mais dura que tive de aprender ao longo do meu próprio processo de crescimento.

Mas também descobri, felizmente, que existem companheiros de viagem: companheiros durante um pequeno período de tempo e companheiros durante longas temporadas. E depois, existem ainda os amigos, os amores, os irmãos: companheiros de uma vida inteira.

  • Sabes que mais, gordo? Lembra-me uma coisa que li algures sobre o amor: Não caminhes à minha frente, porque não conseguiria seguir-te. Não caminhes atrás de mim, porque poderia perder-te. Não caminhes debaixo de mim, porque poderia pisar-te. Não caminhes em cima de mim, porque poderia cansar-me. Caminha a meu lado, porque somos iguais.
  • É bem verdade, Damião, é isso mesmo. É fundamental perceber que ninguém pode percorrer o caminho por ti. E também que o caminho é mais satisfatório se percorrido com companhia.

Aperceber-me de quem sou e saber-me único, diferente e separado do mundo pelo limite da minha pele não quer dizer forçosamente que deva viver isolado, nem desolado, nem sequer que tenha de ser auto-suficiente.

  • Então não se pode viver sem os outros?
  • Depende do que tu aches que deves viver em cada momento e de quem são os outros.

 

 

Aquele homem viajara muito. Ao longo da sua vida, visitara centenas de países reais e imaginários...

Uma das viagens que mais recordava era a sua curta visita ao País das Colheres Compridas. Chegara à fronteira por acaso: no caminho de Uvilândia a Paraís, havia um pequeno desvio em direcção ao tal país. Como gostava de explorar, seguiu esse caminho. A sinuosa estrada terminava numa enorme casa isolada. Quando se aproximou, reparou que a mansão parecia dividida em dois pavilhões: uma ala oeste e uma ala este. Estacionou o automóvel e acercou-se da casa. À porta, um cartaz anunciava:

 

PAÍS DAS COLHERES COMPRIDAS

ESTE PEQUENO PAÍS DE APENAS DOIS QUARTOS,

CHAMADOS PRETO E BRANCO. PARA PERCORRER

DEVE AVANÇAR PELO CORREDOR ATÉ ONDE ESTE SE DIVIDE

E VIRAR À DIREITA, SE QUISER VISITAR O QUARTO PRETO,

OU À ESQUERDA SE QUISER CONHECER

O QUARTO BRANCO.

 

O homem meteu pelo corredor e o acaso fê-lo virar primeiro à direita. Um novo corredor com cerca de cinquenta metros de comprimento terminava numa enorme porta. Assim que deu os primeiros passos, começou a ouvir aís e uis que provinham do quarto preto.

Por instantes, as exclamações de dor e sofrimento fizeram-no hesitar, mas decidiu avançar. Chegou à porta, abriu-a e entrou.

Sentadas à volta de uma mesa enorme estavam centenas de pessoas. No centro da mesa, viam-se os manjares mais requintados que qualquer pessoa poderia imaginar e, embora todos tivessem uma colher para chegar ao prato central, estavam mortos de fome! O problema era que as colheres tinham o dobro do comprimento dos seus braços e estavam presas às suas mãos. Assim, todos podiam servirem-se, mas ninguém conseguia levar a comida à boca.

A situação era tão desesperada e os gritos tão terríveis que o homem deu meia volta e saiu a correr da sala.

Voltou à sala principal e meteu pelo corredor da esquerda, que levava ao quarto branco. Um corredor exactamente igual ao anterior desembocava numa porta idêntica. A única diferença era que, pelo caminho, não se ouviam queixas nem lamentos. Ao chegar á porta, o explorador girou a maçaneta e entrou no quarto.

Centenas de pessoas encontravam-se também sentadas à volta da mesa igual à do quarto preto. Também ao centro se viam manjares magníficos e todas as pessoas tinham uma colher na mão.

Mas, aqui, ninguém se queixava nem lamentava. Ninguém morria de fome, porque todos davam de comer uns aos outros!

O homem sorriu, deu meia volta e saiu do quarto branco. Quando ouviu o clique da porta a fechar-se, encontrou-se imediatamente de volta ao seu próprio automóvel, a caminho de Paraís.”

 

In deixa-me que te conte, de Jorge Bucay.

 

 

 

publicado por opoderdapalavra às 22:44
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