podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
05 de Outubro de 2015

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Temo tudo e não temo nada.

Fico tantas vezes, que já me esqueço de as contar, a olhar aquele espelho quase desnudado de reflexo. A manhã é sempre um problema maldito. Olhar esguio e fechado, carne dura e mal formada, cheiros que matam qualquer insecto e um hálito de cor púrpura... como se fosse possível ver a cor de um bafo carregado de lástimas. Sempre a mesma cara. Anos e anos a fio a ver sempre o mesmo gajo daquele lado. Sempre na esperança de chegar um dia que pudesse contemplar alguém diferente, de anos para trás e não para frente do caminho.

O banho é a água a cair solenemente no corpo. Quente e fria, fria e quente. Nunca acerto com o raio da torneira, maldita sejas ó escolha ambígua sem ambiguidades. E de repente a vontade de me jogar na sanita, despejando-me de todas as maleitas que o passado me carregou... ou carreguei eu este corpo efémero. Coitado, tiveste azar em seres o escolhido. Podais agora ter alguém que te tratasse melhor, que te levasse a comer a sítios diferentes, chiques, de comida saudável, a beber um vinho furtado e a envolver-te com perfumes de mulheres únicas. Mas não, fui eu. Tabernas com cheiro a bêbados, ruas encharcadas e lixos, putas que não sabem se lavar e comidas repletas de gorduras saturadas.

Fodas que este doeu a sair. Duro como cabo de aço que atravessa canais. Sinto-me vazio. Preciso do café. Meio trago de aguardente no acompanhamento. Pão seco e umas tiras bolorentas de presunto. Sair de casa é sempre o suplicio de achar que é tempo perdido ir à rua. A mesma que abriga os amigos do costume. Perdidos de nome, sem nome para chamar, são cães de fila que se juntam pelos caixotes que abrigo nos meus braços. Lanço as suas entranhas no camião. Despoja-se a cidade dos seus infames conteúdos, e ficam os ossos roídos pelo tempo. Esse ladrão que me deixa com o mesmo rosto e me leva os anos.

Mas eu não temo nada nem nada temo, apenas fico agastado por o espelho manter a mesma imagem, daquele lado que não consigo apagar, a olhar-me, feito estúpido que espera que a vida o leve, quem sabe para o corpo de uma mulher.

publicado por opoderdapalavra às 23:44
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