podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
23 de Março de 2016

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Ser doido-alegre, que maior ventura! Morrer vivendo p'ra além da verdade. É tão feliz quem goza tal loucura Que nem na morte crê, que felicidade! Encara, rindo, a vida que o tortura, Sem ver na esmola, a falsa caridade, Que bem no fundo é só vaidade pura, Se acaso houver pureza na vaidade. Já que não tenho, tal como preciso, A felicidade que esse doido tem De ver no purgatório um paraíso... Direi, ao contemplar o seu sorriso, Ai quem me dera ser doido também P'ra suportar melhor quem tem juízo. António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..." Ao sentar-me naquela cadeira de laranja em riste, vi-me de frente para uma extensão de palco que escondia uma certa loucura humana, qual sonho e ilusão desenfreada do coração de um homem. Havia andaimes que serviam de casas, abrigos, comboios sonhados, terraços com vista sobre a cidade que se imaginava, ruas e vielas que se escondiam. Havia roupas velhas que abrigavam corpos doentes, colchões de cheiro vadio, pôsteres de mulheres desnudadas, seringas levianas. Havia uma cerca, divisão que divide em duas partes o que o homem podia juntar numa só. E havia a Porta. Paraíso. Vivemos tempos de um purgatório sofrido, despido de identidades, ausente de referências que nos conduzam. Somos mortos vivos à entrada do lugar prometido, esse Paraíso incomum de sonhos estragados, ilusões destruídas e promessas não cumpridas. Este é o país que vivemos, este é o mundo onde "uma lei reúne todos os fodidos da vida". Este é o mote de uma viagem a um mundo subnutrido de vida humana, ao universo onde as seringas são os pedaços de comida, os fumos e as pratas as brincadeiras de crianças grandes, e os rádios o fio que conecta os restos da mente à vida que ainda sobrevive. Porta Paraíso fala-nos em metáfora. Metáfora de quem sofre no corpo as repressões de uma sociedade perdida no seu conteúdo, que anda em busca de uma resposta, uma porta de saída, qual paraíso inexistente nesta "puta" de vida. Mas "puta" só existe essa forma andante de se viver, sem sobrevivência nenhuma, que é a loucura de se ainda sonhar. Sonhar fugir, não como quem se esconde, mas como quem ainda persiste acreditar que lá longe, onde o terra toca o céu, se pode encontrar a vida que um dia fugiu. E há as personagens, pessoas de nomes, nomes que perfilam um percurso de pérfida ferida humana. Um ferida que sangra sempre que mais um braço é trespassado por uma agulha e o corpo amaldiçoado. Uma ferida que mostra o quanto humanos se esquecem de humanos. O quanto humanos virão ratos dos esgotos do pensamento dos homens. Ratos que são jogados no firmamento dos fundos do mundo, onde se escondem dos olhares dos outros. Sente-se bem, naquele pedaço de madeira fundo, que somos plateia insensível, olhando os filhos do nada, sem reacções, mostrando apenas a velha piedade hipócrita que vem do desejo constante de eliminar essa rataria que lavra os cantos e recantos do nosso mundo. Esta peça é uma ópera de palavras. Uma viagem ao ritmo de um texto muito bem construído, repleto de ícones sociais de um Portugal que se abandonou a si próprio, desacreditado e mal tratado. É um constante conflito entre o sonho de ser e a dor de já não ser. A velha dicotomia humana entre o ser e o parecer, qual demanda filosófica entre a escolha e a razão. Mas a razão é uma idosa forma de se morrer devagar. A escolha uma renuncia rebelde a essa morte, um fôlego de respiração que nos mantém à tona. À tona dos sentidos, mesmo que estes sejam meros pedaços de promessas por cumprir. À Porta do Paraíso fica-se na dor da diferença, não da natural, mas da diferença preconceituosa, daquela que define esse lema do bem e do mal. Mas afinal, nas catacumbas do purgatório, o que é essa farsa do bem e do mal? Fazer teatro com paixão é trazer essa apaixonante forma de viver para a plateia, criando uma ficção nas nossas mentes, uma reflexão nos corações, uma lágrima nas revoltas e um sorriso nas convicções. E é isto que esta peça traz. Paixão e muita. Sente-se a cada palavra, a cada entrega das personagens, a cada nota da magistral música que vem dos fundos. É uma peça de variadas personalidades, desde os que falam pelas palavras, aos que as perderam na boca, ficando pelos que fazem das palavras uma mera circunstancia de lugar. Brinca-se sem brincar. Chora-se, ri-se, pensa-se, sente-se, estranha-se e entranha-se. Mexe e remexe. Gosta-se, ama-se. Teatro sem paixão é uma doença sem cura. Teatro com esta intensidade, no texto, na construção, na sonoplastia, nas personagens, nas pessoas que se veem e nas que se escondem, é uma loucura que devia ser preservada, é um fôlego de vida numa morte anunciada. Porta Paraíso não é só uma peça de Teatro, é uma viagem à consciência de um povo. Porque afinal... "Já que não tenho, tal como preciso, A felicidade que esse doido tem De ver no purgatório um paraíso..."

publicado por opoderdapalavra às 07:30
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