podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
21 de Dezembro de 2014

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Uma paragem será sempre uma paragem. Um sitio onde pessoas se encontram ou se desencontram, onde se beijam ou dizem um adeus, onde se conhecem ou terminam, onde se cruzam e nunca se recordam. Será sempre um local vazio ou preenchido, um sitio onde se pode abrigar dos pingos que caiem pela manhã invernosa ou do calor de um tarde de verão. Uma paragem sera sempre sinónimo de tempo ou da falta dele, de corridas apressadas ou de esperas demoradas.

E para Joana, a espera era já longa. A entrevista fora marcada para as 12 horas, e já eram 11,30. Meia hora não dava para chegar à marcação, e não tinha alternativas neste momento. Já tentou ligar, avisando a demora, mas o numero parece teimar um ocupado stressante. E chegou o 45. Tinha de arriscar. Entrou, pagou o bilhete, e seguiu caminho. Sentou-se junto a um homem que escostava a cara ao vidro, embaciando-o conforme expelia o ar. Ela olhava a rua, meia baça, meia turva. Não pensava em mais nada que não a entrevista.

Mas o motor quis calar-se após duas paragens. O coracão disparou, o corpo ergueu-se em direcção ao motorista, que pedia desculpas por uma pequena avaria. Joana ficou envolvida num nevoeiro de pensamentos, perdida e sem ideia do rumo que tomar. Ainda por cima, numa paragem vazia, sem nada que a pudesse ajudar. Até a rede do telemovel não queria colaborar. Sentiu que perdeu. E sentiu uma mão no ombro esquerdo. Virou-se e era o homem do vidro embaciado. Estava vestido com um fato preto, e agora até lhe parecia mais arrumadinho do que aquele tolo que adormecera no vidro encostado.

  • Sente-se bem?
  • Não. Não posso sentir-me bem. A vida hoje parece querer atraiçoar-me.
  • Mas como?
  • Tenho uma entrevista daqui a… - o relógio do telemovel parecia ser a unica coisa que funcionava – 5 minutos. Estou a uns kms dela, e era a minha grande oportunidade.
  • Porque não telefona?
  • Porque está sempre ocupado. Pensa que eu não me lembrei disso? Mas quem é voçê? Um inquisidor?
  • Não. Mas compreendo perfeitamente o que sente.
  • Compreende como?
  • Eu também estou atrasado. Na Vida…

( Este homem é louco! Hoje acontece-me de tudo.)

Joana caiu num choro desalmado.

  • Não chore. Peço-lhe.
  • Deixe-me estar no meu pranto.
  • Diga-me, que tipo de entrevista ia?
  • Para designer de publicidade.
  • Onde, posso saber?
  • Na Quality Lifetone.
  • Sabe quem a vai entrevistar?
  • Não. Porque?
  • Talvez a possa ajudar.
  • Porque?
  • O meu nome é João Pereira – Joana limpou por momentos as lágrimas que já lhe molhavam o peito – e estou atrasado para entrevistar uma pessoa, com o nome, espere – e retira o telemovel do seu bolso, onde consulta umas notas – uma Joana Abrantes, na Quality Lifetone, para designer de publicidade, e pelo que fui informado, ser o trabalho da vida desta senhora, rapariga ou menina, não sei, porque ainda não a conheço.

(Fodas! Isto não está a acontecer)

Ele sorriu-lhe, pegou-lhe pela mão e levou-a até a um dos bancos vazios. Ela não conseguia quase falar, mas ainda tinha forças para o questionar sobre o que o atrasou.

  • Ontem à noite fui informado que o meu pai havia falecido há dois dias atrás. Não o via há dez anos. E hoje, logo pela manhã, foi enterrado, sozinho, numa campa vulgar, com o unico filho, que o abandonou, a ver descer o seu caixão. Mas isso é outra historia.

Nesse momento, o motor regressou. O motorista sentou-se e continuou o caminho. Para trás ficou mais uma paragem…

publicado por opoderdapalavra às 00:52
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