podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
11 de Agosto de 2015

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Nome? Não me lembro. Idade? Não me recordo. Morada? Não tenho ideia. Do que se lembra? De um sol que nascia. De um vento que subia e de um odor que penetrava no peito. Alguém por perto? Talvez. Alguém sim, aproximava-se puxadores um cavalo leve, de passadas estreitas e direitas. Trazia um chapéu de abas largas. Camponês. Velha barba, olhos claros e uma voz de rompante. Nem lhe pergunto se recorda o nome? Mas porque precisa tanto de um nome? Para o registo. Um nome é uma identificação. E esta é uma pessoa. Todos temos um nome. Mas precisam disso para serem alguém? Então, como sabíamos que você é você e o camponês é o camponês? Pela textura, pela fragrância, pela verdade de cada um. Isso é muito poético. A vida não é poesia. Ela só existe nas palavras. E um nome não é uma mera palavra? Sim, mas identifica. O resto não. O seu cabelo é branco. Sim. Isso identifica-o. E não sei o seu nome. Para mim é o homem polícia de cabelos brancos. (Silêncio) Mas vamos ao que interessa. Falava-me do camponês. Sim. Conversou com ele. Sim. E o que falaram? Não sei. Mas, também não se recorda? Recordo-me sim. Mau. Então como não sabe o que falou com ele se recorda o que conversaram? A conversa foi atempada. Alertou-me para as pessoas que se aproximavam. O casamento. Os carros que vinham e, velocidade atroz, sem medida. Os apitos estridentes. A confusão instalada. Puxou-me para junto de si. Ali passavam todos aperaltados. Via-os de sorrisos abertos, ou de caras fechadas. Carros de alegria e outros de tristeza. Como poderia um casamento ter tanto de dois mundos? Foi essa pergunta que lhe coloquei. Ele olhou-me e colocou-me a mão no ombro esquerdo. "A felicidade não é uma divisão de dois. É a soma dos dois." Interessante. Quanta matéria sabia proferiam aqueles lábios. De seguida fui atrás até à igreja. E ele veio também. Entramos. Todos cantavam. Batiam palmas. Ao fundo um homem vestia cinza claro é uma mulher branco pérola. Um outro homem de batina dividia-os em metades. Sentamo-nos. "Que belo quadro." Ele nem mexeu as retinas. Manteve-as na linha recta do fundo da igreja. Mas falou. "Hoje casam. Amanhã descasam. São meros sentimentos descartáveis. Nada mais. Hoje beijam-se e amanhã atiram à cara um do outro, quantidades de julgamentos, culpas, egos feridos. São horas de céu azul que ficam arrebatadas por horas de chuva intensa. Tudo o que prometem não cumprem. Tudo o que dizem ser fiéis, são apenas infiéis. E sabe porque?" Eu acenei com um não. Reparei que ele nem viu, mantendo aqueles olhos saídos na mesma linha que nunca deixou de traçar no seu horizonte. "Porque as pessoas não conseguem abandonar as suas idiotices. O orgulho, o passado, as mentiras que se contam para se amarem a eles próprios, os traumas que lêem e relêem para se sentirem eternamente vítimas de fantasmas. E andam cegas com este lixo. E depois...depois o amor surge. Ficam radiantes. Gratos. Riem desesperadamente, como se o amanhã nem existisse. Mas esquecem-se da idiotice. A mesma que no dia seguinte lhes alerta para a desconfiança, para a necessidade que possuir o outro. E esquece-se a pureza, o sentimento que nasceu como água na nascente. Fica apenas um rio de caprichos. Nada mais. E exige-se ao outro que alimente todos os caprichos, senão é acusado de não amar." E levantou-se. "Mas então, se o amor é isso, porque se ama?" Olhou-me por uma última vez." Porque não se ama. Apega-se a uma falsa ideia de pensar-se ser feliz. Já lhe disse. Felicidade não é a subtração do sorriso com a lágrima. É a soma dos dois." E saiu. Mas não voltou a vê-lo? Não. E depois aconteceu o inesperado? Sim. Conte-me. Eu fui na direcção dos noivos. E quando cheguei perto deles, segredei-lhes o que acabara de escutar. Eles chocados começaram a trocarem-se de razões. Pelos vistos tinham muitas conversas por terminar. E tudo ficou numa zanga desmedida. Sai de soslaio. Mas fui apanhado por um familiar que me repreendeu e apontou-me as culpas. E tem culpas? Porque tenho de ter? Porque é que tudo o que se faz sem se saber tem de ser um mero conceito de nome? Como é que chamam a isso... Erro? Sim, isso. Vê. Precisam de um nome para tudo. Porque não sentem apenas que é viver? (Mais silêncio) Viver é apenas tudo. Na verdade, sabe, quando criei tudo isto eu só queria que vocês soubessem que não precisam de nomes para se sentirem alguém. Apenas precisam de viver. E o resto é uma soma de tudo.

publicado por opoderdapalavra às 01:51
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