podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
09 de Maio de 2015

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Foto Pedro Rezio

a velocidade não conta. não faz parte da matemática das coisas que por aqui se vivem. dizem que ela, a fórmula das contas, morreu no alto do monte que divide a terra dos homens desta terra, a das pessoas felizes. estamos na terra das crianças, das que nunca crescem, das que ficam sempre coladas num tempo indiferente. felizes porque dizem os sábios, senhores de turbantes que cobrem a cabeça que pensa e vestem branco que deixam cair no corpo, que aqui não chegam os pesadelos dos homens, apenas os sonhos dos céus. e estes tem cor azul, nuvens que se deixam escorrer como laivos de rio e um sol que abrasa a vista. tem ainda um comboio que liga as duas pontas. são mesmo duas, as pontas que distam distância entre o ser-se homem e ser-se criança. mas o comboio nunca chega a tocar nenhuma delas. para que elas nunca deixem de ser pequenas criaturas que um certo deus, que certo dia de verão, desceu do seu cadeirão e no barro lamacento de um carreiro de água, de mãos de divino saber, moldou corpos que só sabem sorrir. "são inocentes demais para saberem o que é uma dor" palavras escritas por um dos poucos homens que atravessou as montanhas. mas esse deus não fez do barro a inocência. ele criou antes a pureza. e puro é o olhar de sharim, menina de olhos escuros, cor de lava arrefecida, cabelos que se soltam sempre que o vento teima em falar, e um corpo esbarrado nos tons do barro moldado. pensamento de sonhos, e um sorriso de ilusão. iludida com a velocidade, com o sentir do balanço do comboio que desbravava entre pontas. " porque viajas aqui, sharim?" o homem conheceu-a aquando da sua breve passagem. " porque sempre que ele escapa ao silêncio, faz barulho, as montanhas parecem andar depressa, o rio nem dou por ele e os pássaros ficam mais lentos que os meus olhos. é isso que nos faz rir. como tudo muda quando o comboio começa a andar" e todos começavam a soltar gargalhadas, por entre barras pintadas a cinza pelo pincel de um tempo que não passa, mesmo com a velocidade da locomotiva. o homem ainda hoje se recorda de tirar a máquina da sacola, tirar fotos aos rostos que pareciam brilhar por entre o pó que os cobria. " mas se só vocês habitam estas terras, onde estão os homens sábios?" " além" e ela apontou para uma das maiores montanhas que se erguia nos fundos do horizonte. " já os viste alguma vez?" " nunca. mas eles falam tão alto que a brisa traz-nos as conversas. e são tão belas que nós só conseguimos rir. o que é isso que tem na mão?" " é uma máquina fotográfica. regista o teu rosto, os teus sorrisos. mas fica numa imagem parada." " parada como quando o comboio assenta no silêncio?" " sim. ficas como és, mas não falas." " e como se pode ficar sem falar? assim não posso sonhar" " tu sonhas falando?" " claro. falo com a terra que se mexe, as cores que se movem, o céu que traz as nuvens e a água que alimenta o rio." " e sonhas com tudo? ou gostavas de sonhar para lá da montanha dos sábios?" sharim pausou. olhou o homem com uma certa tremura no corpo. os lábios pareciam tomar outra forma para além do sorriso. os lábios ficaram mesmo mais vermelhos, de tanto serem apertados. espantou-se o adulto quando viu cair uma pequena lágrima do rosto dela. não falou. sentiu que devia ficar retido nas palavras, guardando-as. até ela abrir o coração, " um dia a conversa dos sábios trouxe o conto do mar. falavam de uma imensidão de água que se perde na vista e nunca se alcança o seu fim, com o olhar. se ele existe, era o que eu sonho mesmo poder ver." o homem ficou atônito. fechou-se em pensamentos e guardou a câmara. pegou num caderno e um lápis. pediu a sharim que desenhasse o que ela escutou sobre esse mar. no balanço de um lado ao outro, varria-se a velocidade do comboio, e os dedos de pequena riscaram um desenho que ele ainda hoje guarda. " este é o o meu sonho." todos os dias, em sua casa, num lar para lá da terra das crianças felizes, vive um homem, pregado nos pesadelos de todos os homens, com uma foto de um sorriso feliz, e o desenho de um sonho sentido. nas últimas escritas, junto ao final da folha que encerra o seu caderno de viagens, deixou escapar, afinal a felicidade nunca se perde quando os olhos deixam de ver o silêncio e passam a dominar o movimento do mundo. mas nós homens não conseguimos ver isso enquanto não percebermos que esses olhos tem de ser da criança que sonha dentro de nós. a minha ficou lá, onde o céu e o vento trazem conversas de homens velhos e o sol oferece-nos a velocidade de um comboio repleto de sonhos, de inocência sem dor, de crianças que serão sempre as nossas crianças. só depois percebi que afinal precisava de conhecer o mar, só após ver o desenho da pequena sharim.

publicado por opoderdapalavra às 00:28
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