podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
13 de Abril de 2015

Ponte do Amor.jpg

Foto CA

 

 

Eram horas e nem o dia tinha dado conta delas. Esquecera-se e deixou o sol cair sobre o horizonte. A noite começava a despontar. Mas houve quem se esforçou por segurar os últimos toques de luz. Arremessou os seus braços compridos sobre os últimos raios, puxando-os para junto da ponte, e ainda assim deixou que algumas estrelas viessem sarapintar o céu. As árvores estavam agora mais sossegadas. Tudo estava pronto. A ponte arrumada, a água que engalanava-se à passagem, os últimos pardais que vieram cantarolar pelos recantos da floresta e eles os dois. Cada um chegou e deixou-se estar na sua margem. Parecia que aquela ponte, aquela travessia era a mesa, o chilrear os violinos, presenteados pelos odores deslumbrantes das primeiras flores da primavera, e lá em cima onde o céu se perde no infinito, as estrelas davam o toque das velas. Faltavam os olhares. Tímidos, recatados como enamorados. Mas eles surgiram. Vieram devagar como se pede. E as mãos agacharam-se por detrás dos corpos, embaraçados por não saberem o que fazer. Nestes momentos, são muitas as coisas que se intrometem, como que estando a mais.

Foi quando a árvore mor, um eucalipto, deu-lhe um empurrão. Tão forte que ele ficou a meio da ponte. Do outro lado, um espinheiro, apertou as pernas dela, que deu passo atrás de passo, até chegar junto dos seus olhos. Estavam tão juntos, que até sentiam o sabor dos lábios e o perfume da pele, um do outro.

  • Queria dizer-te tanta coisa, mas não sei o que te diga. – ele corou como pequeno. Tanto que umas folhas de azinheira esconderam-se no tronco, e até se escutou um sorriso maroto. – Sinto-me nervoso, tanto que o meu coração era capaz de fazer ondular a corrente do rio.
  • Eu também me sinto assim – ela vergou um pouco o olhar, disfarçando-o no ombro esquerdo. Tinha também um rosar da pele no rosto.
  • Posso pegar-te a mão? – Nesse instante as raízes de todas moveram-se, arrepiadas e sôfregas de que ela aceitasse.
  • – ele pegou, suavemente, docilmente, a sua mão direita. Sentia uma leveza, uma frescura que o transportava para o cume dos iluminados. Sorriu acanhado, no espanto de sentir o belo, ali na sua tão pequena mão. Ela ergueu aquelas duas lindas bolas de cristal, que enaltecem toda o seu rosto. Olhou-o devagar, como se fosse possível olhar-se alguém de quem se gosta, devagar... como se pudesse amar devagar, como se conseguisse dominar o impulso de beijar, devagar.

Os lábios juntaram-se dois num. A soma. As árvores, todas elas, sem distinção, junto das flores, dos troncos velhos, dos ramos caídos, das folhagens verdes, todos ficaram deliciados no ventre daquele beijo. O sol, em assombro, não se deitou, e olhou a lua, que longe na distancia abria-se em luz. Os dois fitaram aqueles que na ponte se uniam, e deixaram-se estar, casando o dia com a noite. Até os pardais se calaram. As andorinhas chegaram e repousaram em honesta alegria, nos longos ramos dos eucaliptos. Houve o castanheiro, já idoso como o tempo, que quase expirou, não fosse a grande pedra o suster.

  • Então meu caro, já não aguentas a força do amor?
  • Não meu amigo. O Amor é que me faz cair de ardor, de admiração. Dá-me um abraço, meu amigo, porque preciso de chorar em ti gotas de seiva que me apertam a alma.

A pedra deixou que o velho companheiro se dobrasse sobre ela. Correram lágrimas. E correu um sorriso de ambos, ali, abraçados.

E sem tempo de existir o tempo, ali ficou o mundo, junto num beijo. O poema foi escrito pelas palavras que trouxe a pequena brisa do mar. Também ele quis adorná-los com o seu toque de magia.

No beijo ficou o tempo e no tempo ficou o Amor. Na junção de duas margens, ligou-se a passagem de duas almas que se amam. E chegou, assim sem se notar, por fim, a Primavera.

 

publicado por opoderdapalavra às 00:06
Abril 2015
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
14
15
16
17
18
19
20
21
23
25
27
29
30
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados
5 comentários
4 comentários
4 comentários
3 comentários
2 comentários
2 comentários
2 comentários
2 comentários
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
últ. comentários
Encontrei o texto hoje...Uma pequena correcção, as...
Obrigado Isabel. Concordo consigo, os Amigos apena...
Carlos, bonita homenagem a um amigo. Que o Luís re...
O que mais me chama a atenção, neste...
A tua escrita acompanha o teu espírito. Amadurece ...
Grata, sorrisos :o)
Quente.Arrebatador.
Leitura muito agradável :)Convido a leitura do meu...
Excelente!!Sinto-me representado.Sim, sou eu: o po...
O discurso é apelativo aos mais nobres sentimentos...
blogs SAPO