podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
10 de Dezembro de 2014

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" Tenho os pés assentes numa prancha. Não numa qualquer prancha. Sim, numa que se eleva a metros de altura, onde posso avistar as diferenças do horizonte. O sol parece estar mais próximo, o céu quase lhe toco e o vento, esse sopra-me na pele com a doçura de uma mão afectuosa que acarinha a alma. Mas alto ou não. Para onde? Para o abismo que se desenha lá em baixo.

Porque vim até aqui? Pelo desespero de me apaixonar e tudo sem livro de instruções.

Ela podia gostar de mim, penso eu. Mas não. Porquê? Não sei. Tentei encontrar tantas explicações, mas tudo se apaga quando ela diz: mas eu não gosto de ti, és simpático, mas nada mais. Simpatia é piedade escondida. Simpatia é ter um sorriso nos lábios só para dizer aos outros que também sorrimos. Simpatia é ironia. Já são três, as simpáticas que dizem que até pareço uma conjugação de adjetivos agradáveis, mas todos somados não dão para um beijo apaixonado. E aqui estou. Decido se salto ou não. Assim posso sentir qual a sensação de escolher entre o sim e o não. Até posso viver com a minha simplicidade de cidadão exemplar, arrumadinho, aéreo e professor dedicado. Mas não consigo viver sem companhia, viver na solidão. Anseio por um abraço, mas apenas consigo sentir-me a mim próprio, amarrado no meus braços. Beijo-me no espelho, acaricio-me no banho, e nada mais.

Salto ou não? Porra, nem para decidires essa coisa de te despenhares num simples chão de terra consegues ter uma decisão.”

 

 

 

 

" Um homem qualquer. Um daqueles que qualquer um pode ser. Nada mais. Cabeça, membros, e um corpo de resolução flácida e enrrugada pelo desarrumo do mau gosto. Pode-se dizer que o exterior não é tudo, pois sim, mas o interior também não tem muito a mostrar. Enfim, qualquer homem pode acabar assim. Sem um amor que dentro de si mesmo o conforte, uma voz que o anime e lhe oriente o caminho, tudo pode terminar numa prancha.

Porquê uma prancha, e não uma ponte, um viaduto, o cume de uma montanha? Porque um homem qualquer sempre deseja voltar ao mesmo desânimo banal de auto piedade. Por isso nada melhor que uma prancha elevada ( um pouco!)acima do nível da água, para que a impressão de fim iminente esteja sempre presente, mas tudo termine num banho frio e ilustrando o receio de ser mais do que um homem qualquer. Como eu!

Sou de corpo musculado, eu sei. Inteligente, eu sei. Confiante, eu sei. Mas não é de mim que agora desejo falar, mas sim da personagem que está a ocupar o lugar que me pertence. Quem o colocou lá? Eu, claro. Sou o narrador desta estúpida história lamentosamente contada. Mas eu quero a prancha daquela piscina. Quero ser nadador voador sobre as finas águas que a alimentam. Quero abeirar-me das suas margens e sentir a doce melodia do seu desenho. Sempre sonhei ser figura principal de uma piscina assim. Contornos que parecem as ondas de uma guitarra do The Edge, toca-me como a música "With Or Without You", assim eu serei, peixe voador com ou sem asas que me projectem no leito daquela piscina.

Mas antes preciso de dar movimento à personagem. Este homem qualquer agora pensa...( aborrecido!), mas tenho de lhe dar pensamentos:

Tenho os pés assentes numa prancha. Não numa qualquer prancha. Sim, numa que se eleva a metros de altura, onde posso avistar as diferenças do horizonte. O sol parece estar mais próximo, o céu quase lhe toco e o vento, esse sopra-me na pele com a doçura de uma mão afectuosa que acarinha a alma. Mas alto ou não. Para onde? Para o abismo que se desenha lá em baixo.

Porque vim até aqui? Pelo desespero de me apaixonar e tudo sem livro de instruções.

Ela podia gostar de mim, penso eu. Mas não. Porquê? Não sei. Tentei encontrar tantas explicações, mas tudo se apaga quando ela diz: mas eu não gosto de ti, és simpático, mas nada mais. Simpatia é piedade escondida. Simpatia é ter um sorriso nos lábios só para dizer aos outros que também sorrimos. Simpatia é ironia. Já são três, as simpáticas que dizem que até pareço uma conjugação de adjetivos agradáveis, mas todos somados não dão para um beijo apaixonado. E aqui estou. Decido se salto ou não. Assim posso sentir qual a sensação de escolher entre o sim e o não. Até posso viver com a minha simplicidade de cidadão exemplar, arrumadinho, aéreo e professor dedicado. Mas não consigo viver sem companhia, viver na solidão. Anseio por um abraço, mas apenas consigo sentir-me a mim próprio, amarrado no meus braços. Beijo-me no espelho, acaricio-me no banho, e nada mais.

Salto ou não? Porra, nem para decidires essa coisa de te despenhares num simples chão de terra consegues ter uma decisão.”

Estou farto disto.

  • Vai saltar ou não?
  • Desculpe?
  • Só perguntei se salta ou não. É que eu preciso da ponta da prancha e voçê está a ocupá-la demasiado pasmado?
  • Pasmado? Eu?
  • Olha o horizonte como se fosse a ultima fronteira perante os seus olhos. Essa forma estática e vidrada nos seus olhos não mente. Suicidio?
  • ( Como é que adivinhou?)
  • Hum, já vi que sim. O silencio é outro sinal.
  • Voçê parece muito seguro do que pensa. Não será demasiada presunção?
  • Ora ai está outro sinal de tentativa de suicidio. O querer que as atenções se centrem noutra personagem. Só que entre nós existe um problema.
  • Qual?
  • Sou eu quem o criou. Fui eu quem desenhou todo o cenário, o colocou aqui na ponta da prancha, lhe colocou as duvidas sobre o fim. Fui eu quem o agonizei na alma e lhe feri o orgulho. Pode pensar que sou presunçoso, mas eu sou apenas o seu criador. Ah, e preciso da prancha.
  • Para quê? Se me criou, pode sempre me empurrar logo de uma vez.
  • Isso tirava algum suspense à cena. Ah e preciso para escrever outra história.
  • De mais um suicidio?
  • Não. Do meu sonho de ser campeão olimpico de saltos para a água. O voador das águas profundas. Vá, salte lá, que até eu já me aborreci da sua fraqueza.
  • ( ahhhhhhhh...........)
  • Agora e

E ao aproximar-me da ponta prancha, por momentos senti pena daquele homem qualquer, que tentava bracejar. Talvez não soubesse nadar. Puxa, nós os narradores temos de fazer o trabalho todo. As personagens tornam-se perguiçosas conforme a história decorre. E esta pior do que um homem qualquer, já se tornou uma personagem qualquer. Lá terei que escrever que ela se salvou e eu... Fico à espera enquanto escuto "Where the streets haver no name." Afinal somos todos um pouco de homem qualquer."

 

 

 

publicado por opoderdapalavra às 23:14
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