podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
15 de Dezembro de 2014

 

 

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A casa era apenas o nome atrubuido aos inumeros pavilhões que se perdiam por um perimetro demasiado longo para ser contado. Sempre que se entrava nela, havia a sensação de que o mundo mudava, parecendo mais encolhido no racional, e mais comprido no sonhar. Exemplo disso era Alvaro. Chegou cedo à casa, por volta dos 15 anos, e encontra-se nela faz uma duzia e meia de anos já. É ele que, pela manhã, corre os pavilhões, e todos os dias, como rotina, pergunta a todos os seus sonhos. As respostas perdem-se em novos nomes, novas personagens, novas historias. E Alvaro aponta-os todos. As enfermeiras procuram-no logo pela madrugada, para a medicação. Se não o fizerem, perdem-no nos gritos e nos saltos, imaginando. Ainda esta manhã, ele fez o sonho da gaivota. Agachou as pernas, em cima do armário do salão do pavilhão 3, abriu os braços, grasnou, e olhou bem o horizonte. Lá estava a linha do mar, que separa a terra do céu. Lá estava a brisa que soprava de norte, e acariçiava os cabelos. E lá estava o ar, onde podia largar as asas em batida, e assim voar e raspar as ondas que o mar traz, cheias de espuma. E saltou. E todos gritaram como gaivotas, batendo os braços e procurando rasar as paredes que eram sonhadas como rochas onde o mar vinha bater com força.

 

 

Naquela noite podia ficar apenas sentada, olhando a porta, e esperando que dela ele surgisse, vestido de negro ou num capote de cetim. Mas a duvida inundou-a como se preenche o rio com a chuva do temporal, e quase se sentiu afogada pela incerteza de ficar ou não. Tinha sofrido em demasia, não podia mais ficar apenas com a sensação de uma promessa que a fez esperar, a deixou ficar por ali, onde até o mar já esqueceu de abraçar a terra. Mas decidiu agarrar o banco e sentou-se nele com mesmo vestido que havia sido desejado. Branco, de pequenos folheados a contornar os ombros, e de resto era limpo, apenas a cor deslizava corpo abaixo. E olhou a porta. A mesma que havia fechado. Mas agora tudo era diferente. Sentia-se no ar que até o tempo, também ele envelheceu. Mas ela não se demoveu por isso. Ficou sentada. Ele havia de surgir. E recordava-se do momento em que lhe fechou aquela porta. Adolescente, já adormecida pelos desejos de ser mulher, queria mais do que apenas o sonho. Chorou uma noite inteira. Talvez mais, pois as horas cobriram ainda o amanhecer. E não queria mais escutar aquele murmurio de que a ilusão de uma criança pode-se tornar a realidade de uma mulher. Era altura de ver outros, diferentes, mais radicais, sem o medo de arriscarem. Queria sentir o sangue a tornar-se quente quando uns braços a cobrissem e a amassem. Limpou lágrimas, arrumou brincadeiras, livros, e uma ultima conversa. Ele compreendeu, e prometeu-lhe que voltaria assim que ela estivesse pronta para o receber de novo. Nesse dia ela iria vestir a noiva que nunca chegou a ser. Porque o medo…pois, o eterno receio de o perder for a sempre mais forte do que esposar alguém na verdade. Mas eram esses os momentos em que ela voltava-o a recordar e fugia. E tantas vezes fugiu, que acreditou que ele afinal voltaria…e abriria a porta do armário onde ela o fechou.

  • Achas que ela algum dia se conseguirá libertar dele? – o psicólogo, interrompeu-a por breves segundos.
  • Não sei. Mas sei o que ela sente por ele.

( Ou que tu sentes…)

Ela ama-o. Disso tenho a certeza.

 

 

 

– Porque nãos desces daí?

  • Talvez porque não queira. Talvez deseje mesmo cair daqui em vez de simplesmente sair.
  • Não faças isso.
  • Porque é que niguém percebe?
  • O quê?
  • Que a vida é uma merda, bem contada numa história com pequenos desenhos, onde todos acreditamos que tudo vai ter sempre uma resolução… até ao momento em que afinal os bonecos não passavam de bonecos, e nós ficamos sem rede no trampolim e caimos sem asas no abismo.

( Foda-se, tinha-me de sair um destes. Pedrado até ao tutano)

Os pés de Mario tornaram-se manteiga no preciso momento em que o cabo Elias lhe tenta deitar a mão. Mario começa a sua queda. 400 metros até ao chão. Mas apenas 100 até à rede das obras, onde miraculosamente, “o puto pedrado”, ficou pendurado e preso. Os seus olhos fixavam o fundo do prédio, e as lágrimas já eram apenas o arrependimento de quase terminar o livro sem primeiro criar o principio

 

 

 

 

Sempre na mesma sala. Sempre na mesma posição. Sempre olhando a mesma janela. Lá fora, fosse dia de chuva ou de sol, fitava sempre o mesmo horizonte, a cidade. E sempre a trautear,

São os loucos de Lisboa

Que nos fazem duvidar

Que a Terra gira ao contrario

E os rios nascem no mar

E chegava sempre José, o louco dos tiques irritantes, tocando-lhe no cruto.

- Porque cantas sempre a mesma coisa? – e estalava os dedos, em movimentos doidos e descontrolados.

E ele, sempre sem se perturbar com qualquer movimento, qualquer importunio, qualquer toque que o pudesse retirar daquela letargia musical, trauteava,

São os loucos de Lisboa

Que nos fazem duvidar

Que a Terra gira ao contrario

E os rios nascem no mar

José ainda ficou por mais uns instantes, tocando-se e remexendo-se, em tiques desgovernados. Mas ele olhava apenas a cidade e cantava, sem que o mundo fosse algo mais do que aquelas palavras

 

publicado por opoderdapalavra às 22:53
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