podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
04 de Novembro de 2015

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A janela. Aquele pedaço que transgride a enorme parede que a sustenta, buraco que traz luz, que se abre aos sabores de uma imensidão. Ela está ali, bem junto a mim. Os meus dedos tocam levemente o vidro. Sente-se o vapor que a minha respiração vomita em toda a sua estrutura. E fico ali por uns segundos. Sem mexer um músculo. Apenas olhando e formando pensamentos.

Viro-me e deixo-a nas costas. Sento-me. A secretaria espera por mim. Chego-me a ela e pego na caneta. O papel há muito que me aguardava. E escrevo. Como se fosse sempre a ultima vez,

“Não sei como se redige uma ultima carta. Não que seja a ultima de dizer adeus, mas será sempre a ultima antes da próxima. Se houver essa próxima.

Nunca soube, nestes anos, como se escreve de facto a palavra amor. Foram tantos os poemas, as vezes que cantei versos de paixão, de formas em que me entregava, de palavras que sempre descreveram o que me ia no foro mais intimo do peito. Foram tantas as horas em que pensei, letra a letra, em te dizer. Mas em todas, agora que as olho, foram pequenas partes do todo. Nunca consegui expressar-te a explosão que habita em mim.

Pensava que podia dizer-te assim, em frases bonitas e que brilhavam nos teus olhos, que o amor era um percurso de sensações e sentimentos arrastados pelos lábios que se uniam, pelas ideias que se casavam, pelas horas em que sorriamos. Que o amor era preenchido pelos corpos que se abraçavam, pelas vezes em que entrava em ti e tu me recebias com o fogo ardendo na pele.

Que tinha presentes escondidos e ladeados por postais onde te dizia o que pensava ser tudo.

Mas afinal, agora que não estás, que não te vejo, que não te ouço, que não te toco, que não te beijo, que não escuto o teu silencio, que não posso deitar-me olhando apenas como as pálpebras acolhem o teu olhar, que não posso sentar-me apenas para que me contes as tuas fúrias, que não posso descobrir as tuas surpresas, que não posso descobrir os teus pensamentos, que não consigo observar os teus movimentos. Agora que não habito em ti, dentro desse ser tão único, que não retiro o teu nome dos meus dias, ou mesmo não abandono todos os teus hábitos pelas noites e noites em que me deixo ficar pelas insónias da saudade.

Agora que já não és parte das minhas horas, percebo afinal que nunca soube te dizer de facto todo o significado do amor que está aqui, dentro deste pequeno pedaço de músculo que bate e bate, a cada badalada de tempo que soletra o tempo em que já não estás aqui. Mas também contou todo aquele em que estiveste. Logo desde que ele se apaixonou por ti, ele tem pautado todo o firmamento da palavra que se escreve tanto e dela pouco, de facto, se diz. Porque dizer mesmo dela é quase um impossível. Como se consegue desenhar neste pedaço de papel todas as emoções que sentia quando chegavas perto de mim. Quando eu passava na leveza de um momento, estes razos lábios naqueles que de tão doceis que eram, traziam-me o paladar da pureza.

Quando eu tinha a fortuna de colocar-te os dedos nas tuas faces risonhas, e deixava que a contagem dos anos ficasse perdida algures no infinito.

Quando eu guardava as memorias dos momentos em que viajávamos, falando do nada, e ainda assim o nada era tanto que preenchia todo um universo de conversas.

Quando liamos textos um ao outro, procurando dizer que sentíamos que o outro era tão importante para nós, que tínhamos de partilhar tudo o que sonhávamos.

Quando éramos pequenas crianças, brincando pelas ruas, pelas praias, pelas praças, pelas cidades, pelos campos, pelos países, pela casa.

Quando fomos amantes, jogávamos a sensualidade nos dados do desejo. Dançávamos corpos famintos de deitarmo-nos, sós a dois, na cama de uma vontade de beijar toda a intimidade, todas as formas que contornam a nossa existência, e estarmos ali, perdidos do mundo, esquecidos que lá fora existia tanta gente bradando por nós. Queríamos e tínhamos. Um ao outro.

Agora percebo como se escreve essa palavra. Ela só sabe aparecer nas frases, quando a memoria arrasa o relógio da nossa ausência. Sabes, agora não consigo encontrar um defeito em ti. Não consigo lembrar das nossas discussões, não consigo encontrar as nossas contrariedades, nem mesmo o que nos separava. Agora só vejo tudo o que de maravilhoso aconteceu connosco. Mesmo os momentos menos bons foram óptimos. Porque aprendemos um com o outro, descobrimos que podemos crescer juntos, caminhar junto, lado a lado pela estrada fora. Descobri qua final amar não é procurar diferenças, mas sim aceitar as diferenças. Que o amor não é esperar mudanças, mas mostrar mudanças. Agora sei que amor não é entregar o meu nome nas tuas mãos e vice versa, mas partilharmos as nossas identidades. Agora sei que amor não é abandonar um rumo, mas sim definir um rumo.

Agora sei o que o amor de facto representa. E fico aqui. De costas para o mundo. E penso. Porque só agora sei isso? Porque é que só consigo descobrir o que é a palavra amor, agora?

Talvez porque já não estás aqui. Mas onde quer que estejas, algures, quero que saibas que não guardei as tuas fotos, os teus presentes, o teu lugar na cama, as tuas roupas, os teus livros, as tuas lembranças. Não guardei nada disso.

Preferi guardar algo melhor. O teu sorriso. Os teus olhares. Os teus beijos. A tua intimidade. O teu toque. O teu cheiro. Os teus cabelos. As tuas formas. O teu nome.

Sim, amar-te é isto. Deixar-te ir, no teu caminho, mas ficar com o teu nome guardado neste cofre onde apenas coloco aquilo que me faz andar.

Guardei este amor que sinto por ti.

 

E volto à janela. Ali estava ela, sem se mexer. Na secretaria ficou aquele pedaço de papel, escrito, rasurado com aquele nome. E abro as portadas e deixo o vento entrar. E fico ali. Sentido, de olhos fechados, todo o mundo que ela habita. E sentindo um odor igual à pele que a protege. E sorrio.

E no vazio da sala fica apenas uma leve esperança de um papel que voa e de um corpo que parte. E a janela, aberta, abre-se a um novo dia. Talvez a um novo amor, ou ao regresso do anterior.

publicado por opoderdapalavra às 18:16
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