podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
22 de Janeiro de 2015

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Olhavam o terraço pela pequena fresta que estava rasgada na parede. Lá fora, eles eram apenas dois, um par, dois corpos que se juntavam na harmonia da dança. Havia uma certa fogosidade, um lume brando que ardia lentamente o ar que cobria as cabeças. Eles deslizavam pelos passos quase domesticados. Eles observavam atentamente. Quatro olhos que viam, deliciados e de mente embaciada. Queriam sentir o corpo de uma mulher junto ao deles. O seu cheiro, perfume que parece nunca desgrudar da pele. Os lábios, beijos que ficam marcados como suturas fechadas dentro de um espírito apaixonado. Os dedos, pele que escorre o tacto pela dura textura do homem, deixando-a sedosa e habitada pelo desejo. Os cabelos, longos e finos filamentos que escondem olhares matreiros. Eles já se deixam dominar pelas pernas descobertas dela, que se movem e mostram todo um esplendor feminino. Tocam-se dentro dos calções, como pequenos sonhadores que são. A lua lá no alto, mantem-se atenta e as estrelas parecem ficar despertas para a plateia. O som está quase no final, e os rodopios dela deixam-na cada vez mais exposta às ilusões de garoto. Um fica atrapalhado pelos tecidos ficarem inundados pelo sémen que brota do fundo da sua semente. O outro olha-o entre um riso malandro e uma vergonha escondida, pensando que quase mergulhava no mesmo mar de expressões. A música terminou. Ele deixa-a separar-se de si, e beijando-lhe a mão, sente um barulho vindo do alto da torre. Grita por quem ande por aquelas bandas, e não palavras a resposta, mas sim passadas apressadas de quem foge pelo desengano. Ainda correu até ao beiral do terraço, mas lá fora apenas a escuridão. Os vultos escondiam-se por entre arbustos, fitando ainda no olhar os movimentos simples de uma mulher que cobriu a noite de luz. Assim se deitaram em suas casas, lembrando sonhos de meninos, pequenos petizes que crescem na paixão de um dia serem homens e serem abafados pela beleza inóspita de uma mulher que os abraça. E a noite continuou, apenas ela, na música dos silêncios.

publicado por opoderdapalavra às 23:09
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