podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
04 de Maio de 2015

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E chegou o dia seguinte mãe. E hoje, como ontem, contínuas a ser a minha mãe. Aquela que há 44 anos atrás pegou-me nos braços e adormeceu-me no seu leito. Aconchegaste-me e deste-me um nome. Uma identidade. E hoje mãe, todos me chamam ainda pelo mesmo nome que tu escolheste para mim. Incrível como somos filhos. O que é isso de ser-se filho e chamar-te mãe?É vir de dentro de ti, semente que cresceu e se desenvolveu como caule de flor nasce pela primeira primavera que traz o sol de março. Mas ainda cheguei pelo inverno. Tarde, contas tu, pois de corpo preguiçoso não virava e revirava nas voltas que a volta não dei. 10 meses trouxeste-me dentro de ti, carregada com este parco corpo de rapaz, menino sem choro, criança sem berro, olho fechado, cor de roxo esguio. Mas tu foste a primeira. A primeira mãe que me deu o seu calor. Deste-me o leite, a papa, a sopa que borrei no teu vestido. Deste-me a palmada, o lenço para o ranho que saia com o espirro. Deste-me a paciência de quem espera que a febre passe. O sorriso de quem limpa a gota do sangue que sai cortado do joelho raspado. Ralhaste quando era o franganote de palmo e mais um pouco de meio palmo, que trazia o pão e comia um ou dois pelo caminho. Foste a primeira mãe. A segunda que conheci foi a tua. Lembras-te dela eu sei. E choras. Mas choras porque sabes o que o amor de uma mãe pode fazer. Por vezes cega tanto que nem nos liberta. Cega tanto que nem permite que consigamos ver que a protecção de uma mãe é como a leoa que cobre a sua cria e empola os dentes a todos os que por perto tentam caçar. A tua mãe era especial. Foi a minha segunda mãe. Lembro-me das bolachas embebidas em manteiga, da aletria, do doce de abóbora, do sorriso que chegava sempre com o raiar do sol e o beijo pelo entardecer. E lembro-me das histórias que contas dela, do carinho com que ela tratava todos os que ela amava. E ama. Ela ainda te ama mãe. Não chores, porque só chora quem não tem ninguém para amar. Sabes que te escrevo hoje mãe, no dia seguinte, porque ontem foi apenas mais um dia em que foste minha mãe. Hoje contínuas a ser minha mãe, logo é o teu dia também. Sempre me conheceste, sabes como eu não gosto de escolher dias para me lembrar dos que amo. Sabes que sempre fui encolhido, escondido, apesar de trautear meia dúzia de conversas com as senhoras lá na quinta da formiga sem formigas por perto. De pequeno, ainda reguila, meio caído para chamar atenções, fazia teatros e discursos eloquentes. E cresci mãe com as atenções que devia ter. Bulhei por mais, mas deste-me aquelas que afinal conseguias dar. Porque como dizia tua mãe, só quando grande se percebe porque o andor anda sempre carregado pelos ombros dos homens. É que eles têm amor no seu peso. E tu sempre foste assim. Carregaste-me sempre nos teus finos ombros, porque quando a grande se chega, se percebe que o fazemos pelo peso do nosso amor. Mas sem nos pesar o coração. Estes anos mãe discutimos várias vezes. Engane-se aquele que pensa que amar não é discutir também. Por isso sofremos, por isso ficamos magoados, por isso largamos lágrimas, porque amamos. E nós tivemos esses momentos. Mas voltamos, porque há sempre o dia em que voltamos para o abraço, para o beijo, para o sorriso, o carinho, o "já passou, está tudo bem, agora". E é tão bom quando esse instante chega. E mãe, hoje contínuas cá. Que bom ouvir a tua voz quando preciso dela. Ouvir aquelas palavras de "meu filhinho, como estas?", por mais infantis que possam parecer, adoro-as, porque uma mãe é sempre uma mãe. Ensinaste-me a ser quem sou. Tu e o pai, claro. Que não me posso esquecer dele. Fui aprendiz de encontrar as portas para sair, os caminhos para seguir, o rio para navegar. Tentei, como continuo a tentar, a ser um bom aluno teu, mãe. Não és perfeita, nem digo que és a melhor ou a pior, sabes porquê? Porque és a minha mãe. Porque deste-me luz... Em vez de escuridão. Porque deste-me um nome... Em vez de esquecimento. Porque deste-me alimento... Em vez de vazio. Porque deste-me o que de melhor tinhas para dar, independente do seu valor...e como sempre disseste, que, dá aquilo que tem mais não é obrigado. E tu deste, por isso mais não dês... Porque tudo o que me dás é o melhor de ti, mãe. Hoje é o teu dia, como será amanhã. Escolhi um rio para te escrever. Porque? Porque vejo-te assim, como a água cristalina do rio que corre ao lado do meu, sempre conduzindo o caminho e alimentando toda a minha margem, meu caminho. Fica mãe. Fica mais um bocadinho, dois, três, os que quiseres. Eu preferia o infinito, mas sei que não podes. Mas posso amar-te até ao infinito. À minha maneira, porque como tu, é a melhor que eu tenho em amar-te assim, Mãe! A minha Mãe! Grato. Pelo que sou e quem sou! E tu pai, não fiques com ciúme vadio...hoje também é o teu dia. E amo-te da mesma maneira, com a melhor que tenho em amar-te assim. Tu és o outro rio. Tenho uma margem para ti também. Fiquem os dois, assim, mostrando-me que afinal a minha segunda mãe tinha razão. Carregamos o andor pelos ombros, porque é assim que levamos o peso do nosso amor, sem nunca nos pesar no coração. É assim o dia seguinte...

publicado por opoderdapalavra às 00:29
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