podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
13 de Maio de 2015

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Preciso de uma nova história... Algures no pensamento de uma criança esvoaçou uma nova vontade, uma sensação de quem deseja virar uma página, uma folha escrita que precisa de ficar de novo em branco, para gastar a tinta que ainda retém na caneta dos seus dias. Pega no caderno e puxa atrás uma série de lembranças. Simples fragmentos. Olha atentamente todos os recantos das palavras, as frases que ficaram mal escritas, as sensações mal interpretadas, os sorrisos partilhados, as brincadeiras solitárias. São páginas extintas no tempo, que apenas ficaram redigidas no baú da memória. Olha à sua volta. A árvore onde se estendeu como pássaro, e de braços abertos gritou mais alto que os pardais. Viu o chão que pisou com a bola no pés, em meias fintas e fintou-se a si próprio, no riso sonoro de todos. As suadelas jorram como pintas que serpenteiam as camisolas meio sujas do pó que se levantou. As corridas misturam-se com os braços que se estendem pelo ar, num bailado onde a bola é simples artefacto. Ficaram os golos. As defesas. As feridas onde o sangue se fechava com meia dúzia de saliva e logo se corria de novo. O campo era uma mera mescla de caminho com pedaços de erva e uns pinheiros e pedras à mistura. A criança tirou da sacola outra lembrança. De um poço. Uma queda, água, a luz que entrava com os seus raios, um braço que o puxa, primo que ficou em abraço, e o choro, assustado, pegado pela mão da mãe, mais em desato de palavras que se espalhavam pelo ar, como susto que moveu todo o coração. Tirou outra foto. Uma casa, camas, quartos e salas, cozinha onde o cheiro da madeira se confundiam com os sabores de bolos amassados em massa fina. Pombas nas traseiras, um cão que fugia para trazer galinhas pelo pescoço, paredes caiadas que caíam ao almoço, e a noite, a mesma que parecia assustar, mas que era uma mera resposta " está tudo bem, dorme meu anjo"... Anjos nunca foram as vezes que se ia ao poço buscar a água que alimentava a casa. A criança sabia que a fortuna dos dias não é feita de dinheiro, mas de olhar uma mesa com um pai, uma mae, um irmão, e comida no prato. Não se falava muito, mas o muito de pouco que se dizia era alimento da alma, como se de amor conseguíssemos obter comida para os dias. Criança gaiata que se juntava no penedo da saudade, saudades de tempos em que o ar, o sol, o rio que corria ao longe, a chuva, as nuvens, eram a sala de brinquedos preferida. Falava-se de sexos, de pelos que cresciam sem se perceber que homens eram aqueles que cresciam dentro deles, com desejos estranhos no olhar, com ilusões tímidas de quem gostava de baixar os olhos pelas pernas de garotas mais velhas que por aquelas bandas passavam. Ponte romana que atravessava um rio meio perdido no seu leito. E a casa dos vidros partidos. Pedras soltas no caminho da escola faziam o deleite da criançada que atirava alvo de vidro partido e repartido. Não havia raptores, apesar de teorias de homens que vinham de saco em riste e levavam aqueles que se portavam mal. Criança pequena assustou-se, mas quando grande abraçou esse homem, que de saco aos pés, apenas refugiava-se da ideia de solidão perdida. Criança. Pequeno ser de inocência. Cantava com voz de arrepio, sem notar no desafino, mas alegre nas pautas e na ausência de letra, apenas um grunhir de sons, e a imaginação que uma multidão lhe prestava a devida admiração na vibração de uma guitarra sem cordas e de madeira esticada. Como são puros os sonhos. Criança que cresce. E porque temos de crescer, se de pequeno se vive a beleza, a eterna fonte de felicidade que depois se procura como doido, louco adulto a riscar listas intermináveis de objectivos, que nunca terminam nem nunca começam de verdade? Gostava de receber, criança viva, um novo abraço, um beijo, um sorriso do pai que lhe entrou em casa, da mãe que lhe explicou como uma pomba branca voa livre nos céus de um campo aberto. Porque de amor vive o animal, ser que vem a uma vida sem explicações, e depois procura explicações porque veio cá. Talvez a nova história devesse ser de criança, sem receio de se amar, sem pensamento de fronteiras entre os homens, e de noção exacta de que o dinheiro afinal nunca foi a felicidade, apenas uma mera circunstância do caminho. Porque mesmo de criança viverá sempre o adulto, olhando o caminho, e continuando a caminhar. Tirei a minha criança, com algum pó no cabelo, de dentro do baú. É bom ter-te de novo aqui, ao ver-te de braços abertos, no galho da árvore, pronto a voar...

publicado por opoderdapalavra às 00:48
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