podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
19 de Janeiro de 2016

 

 

 

Como é que se escreve a palavra fim?

Aquela que é difícil de proferir, é dura de escutar, é terrível de sentir.

Aquela palavra que fecha a porta, a tranca e esquece-se onde deitou a chave.

Aquela que nos deixa num oceano vazio, onde as marés de palavras foram derretidas pela devastação dos sentidos.

Como é que se percebe uma palavra que se esconde por entre maleitas, por entre expectativas, ilusões sonhadas. Palavra que não deixa que o amor se revele, que impede que o coração fale, que os corpos se unam. Perde-se o abraço, o conforto de uns braços que protegem. Perde-se o detalhe do beijo, dos lábios que se partilham e se acarinham. Perde-se a carta, com aquelas frases que nos ensinaram a amar, que nos mostraram que a paixão é um inicio e não uma suspeita. Perde-se a memoria, a recordação de todos os instantes que nos tornaram nomes adocicados pelo proferir do outro. Perdem-se anos, esperanças que apenas servem como facas afiadas no peito. Perde-se o riso, até mesmo a lágrima que limpamos com a precisão de um gosto.

Tenho nos dedos a palavra. Procuro, percorrendo todo o universo, precisar onde ficou o dicionário que apagara o fim. Mas não recordo o seu destino. Como se esse caminho fosse suprimido da história, esta minha margem que fugiu da tua.

O escritor fica, envergonhado no seu canto. Despiu a folha de preceitos, deixando-a deslavada, ausente dos momentos que as palavras descrevem. O escritor ficou perdido no firmamento dos pensamentos, que se revoltam, como cães danados, em busca de um pedaço da carne ferida pela palavra. A mesma que procura perceber como se escreve. A mesma que lhe perdeu rasto, mas que no entanto veio no seu encalçe.

E ficam as fotos. Estranha relação com a lembrança. Aquela que decapitou todas as vontades, retirando-lhes a coragem de agir.

Escrever essa palavra tão ínfima quanto efémera é o produto de um chegar. Junto ao morro, onde os pés parecem querer fugir. É abrir o peito e retirar o coração, suspendê-lo junto ao abismo e de olhos em lágrimas, deitá-lo abaixo, para junto do desespero.

Não existem formas bonitas, belas, simpáticas ou meramente poéticas para se escrever tal palavra.

Ela vem com a morte, com a dor de uma partida inesperada, com a passagem de uma saída expectável, com o acenar de um adeus, com o silencio de um até sempre.

Ela escreve um percurso, uma estrada onde os buracos foram mal amanhados. Onde os furos nunca substituídos ou o combustível foi sendo esquecido. E um dia, certo dia pela manhã, pela tarde, ou por uma noite sem estrelas, a palavra chega. Sem bater na porta, sem avisar e entra. Corta, mostra que a estrada já vinha torta, que as desculpas esconderam a sombra que sempre incomodou, que as bermas resvalavam as feridas tapadas com um pó fino levado ao vento.

E fica a imensidão das perguntas. O desgaste de não encontrar uma resposta. E ficam, finalmente, as verdadeiras palavras do sentimento, da vontade de explodir o que no intimo habita. Ficam as virtudes de quem nos fez bem, as saudades de quem gostávamos que ali, junto ao calor de nós mesmos, se aconchegasse e retirasse dos nosso lábios, aquele singelo sorriso. Mas só mesmo o pensamento permite-nos essa memoria. A mesma que suporta todas as razões que nos conduziu às borboletas que semearam no estômago a sensação de comichão, do arrepio de pensarmos que naquele quadro perante os nossos olhos, estaria a beleza dos nossos sonhos. O sonho no sonho. Mas que ficou pela palavra fim. E triste pensar que todo o sonho só ganha importância quando a palavra determina o amanhã. Devia-se perguntar porque é que só quando ela fica descrita nas folhas da nossa existência, é que explode nas entranhas do coração, a vontade de amar quem afinal já foi levado pela palavra.

Como se aceita uma palavra que nos leva tantas frases que descrevem um bater que se apaga aos poucos, de forma tão silenciosa que até se esconde nas esperanças?

E vão-se os momentos, a música, os filmes, as conversas, as intempéries, as desavenças assim como as reconciliações. Vão-se os sinais, os amigos, as surpresas, os discos que se partilharam e os planos também.

Escrevê-la é esquartejar a imaginação. Mas ela traz muito mais. Ele traz no seu dorso uma vontade que o destino fosse diferente. Mas a diferença não impera nas vontades do escritor, porque delas apenas sai um raso pó de saturação, cansaço de tantas palavras desenhar, e logo apagadas por outros que não os seus míseros e já velhos dedos. Mas que não serviram, que não resultaram. Apenas foram sendo metidas no bolso da indiferença. Assim como a borracha que ainda poderia apagar a tinta que escreve a tal palavra.

Afinal, um escrito não se cria sem unir o escritor à sua página. Porque, até este texto, chega ao fim.

Como se escreve afinal aquele fim que nunca se desejou soletrar?

Porque talvez ela apenas chega porque das cinzas se ergue outra árvore, com outros frutos. Afinal não se pode querer incendiar a floresta e desejar que as árvores permaneçam todas em pé.

Como se escreve a palavra renascer?

publicado por opoderdapalavra às 01:49
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