podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
02 de Setembro de 2015

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Naquela tarde havia um sol radioso, um céu em esplendor azul e uma pitada de vento que soprava de sul. Calor era o termo mais usado e sentido. A transpiração percorria toda as conversas e a lentidão as passadas. As ribeiras estavam repletas de corpos transeuntes e os pés eram mergulhados na água esfriada pela corrente. Gelados na boca, água na pele e um lenço pela cabeça. Os pássaros escondidos nas folhas que ainda restam, os insectos metidos nos buracos e os gatos adormecidos pelas sombras. Mas havia ainda os cães, que deixavam a língua suavizar-lhes a temperatura da alma.

E havia a janela. Aberta. Os dois lençóis de branco, esvoaçam pelos cantos, e as ventoinhas parecem querer arrefecer o ambiente. Ele está estendido sobre o colchão de molas. Ela retira mais uns quantos suores pelo chuveiro. Após, veste uma meia em liga e uma cueca fina que lhe desenha as nádegas e o intimo. Coloca o perfume que torra os odores e os lábios inunda-os de batom vermelho. Regressa ao quarto e repara num corpo despido que se estende pela cama. Adormeceu. Chega-se aos cabelos, mexendo-lhe em rodas, massajando –lhe, no mesmo tempo, o peito. Ele desperta. Os olhos fitam-na. Sentem-na. Aproximam-se dos seios rijos. A língua é uma cobra que sai do cesto e os abraça. Ela beija-o nas orelhas, pescoço, mordendo-lhe a pele. Ele retira as mãos do adormecimento e acolhe as longas pernas de cetim. Tem o pudor de subir, mas os dedos são astutos e chegam-lhe à lingerie cor de prado. E retiram todo o desejo, arrastando-o para dentro. Movem-se como pétalas estendidas pelo corpo de prazer. Gemem-se as palavras, os beijos que se trocam nos lábios, as vontades de entrar e penetrar-se o mais puro dos íntimos. Retiram-se os adereços, colhem-se as sensualidades e cobre-se a pele. Calor com calor. Suor com suor. Movimentos audazes, posições arbitrárias, partilhas silenciosas. Chega-se à fronteira, onde se pondera o fim ou retorno. Opta-se pelo segurar ali, naquele momento, a preciosidade de se sentir, no fundo da entranha, a junção entre intimidades, o fruto que se quer, a paixão que se arde em lenha sem fogo. E trocam-se olhares, intensos. Retinas que se dilatam, tremores que se soltam. Não se fala. Não se conversa, apenas se comunica pelo que se tem e se dá. E decide-se. Retorno. Voltar a dançar um no outro.

E o resto fica no vento que de sul vem e leva. Nas pessoas que se banha e nesse calor que apodrece o dia e o joga na escuridão de uma noite de verão.

 

publicado por opoderdapalavra às 19:39
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