podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
16 de Julho de 2015

 

 

 

A ponte. O alto dela.

O corpo. O homem dele.

Os olhos. O olhar deles.

O horizonte. O principio dele.

Em baixo, carros atropelam o silencio e rasgam a escuridão. As luzes abraçam-se no escuro do alcatrão. Existe um cheiro roto de combustível.

Ao longe, luzes percorrem todas as avenidas, num filamento de ornamento. Pessoas que preenchem com as suas passadas todas as partes da calçada. Prédios altos e outros baixos. Uns mais baixos ainda e outros mais altos do que os altos que se possa imaginar. E no ar um sabor a vento. Norte. Servido a frio, com um toque marítimo pelas ondas que debasta e um limar de pinheiro.

No céu a noite que veio. Ficou e deixou-se estrelar. Pontos minúsculos que se acendem magicamente. Talvez venha um certo infinito inundar todas as retinas e deixá-las cegas, perdidas no imenso preto que cobre a cabeça.

Os seus braços não se movem. Nem mesmo as pernas. Nada se move senão as pálpebras. Move a visão de um lado para o outro. Busca? Talvez, ou então apenas repara. Fato negro, sapatos em bico. Cabelos lisos e que se deixam ondular pela brisa forte que chega ao topo da viga. Daqui vê-se tudo. Daqui sente-se tudo. Não há coração mais palpitante que este. No topo da ponte.

Escuta-se um relógio. Longe, mas badala com força. É hora.

O corpo dobra-se e deixa-se cair. Vai em riste, firme e erecto. Flecha que desce.

Um, dois, três carros que param, de olhares em espanto, gritos em pranto e mãos enroladas à cabeça. Um corpo que se atira. Que nome ali vai, meu deus?... se existes, porque vai ele ali?

Apitos que alertam, palavras que esvoaçam no ar. Alguém chega mesmo a olhar. E lá em baixo nada se ouve, nem mesmo qualquer movimento no correr da água. Onde caiu? Onde foi aquele corpo que caia?

Está longe já. Asas batendo. E os cabelos. Sempre lisos continuam ondulados. Tem a cidade na frente, e uma janela aberta aos fundos de um bairro. Senta-se no beiral, de escuta activa. Dentro uma mulher apregoa ajuda. Bate forte nas portas, apelando ao socorro. Tem a pele tatuada por um negrume de sangue esbatido. Sente dor. Nos ossos e no coração. Um homem deita-se dois andares abaixo, imune a quem desce e sobe pelo prédio. Tem sono, agastado pelas horas. Fuma um ultimo cigarro. Os olhos pesados absorvem o fumo. De luz ténue, deixa-se ir, pelo adormecer. O turbilhão do dia apaga-se ali. Mas o cigarro não. Fica agarrado ao cobertor. Chamas sairão dali. Mais gritos. Mais socorros.

Asas que voam de novo. Um passeio de rio. Um banco sem jardim. Árvores sem flores. Dois jovens beijam-se. Senta-se por perto. Sente os lábios que se esgaçam, que falam pelo salivar de uma paixão. Repara nas mãos que já tocam os corpos. Abrem camisa, levantam saia, rasgam calças, arrebatam íntimos. Ecoam palavras que não se dizem. Soltam-se desejos que não se escrevem. Peles suadas. Suores que se colam um no outro. Gemidos de quem gosta, quem gosta geme como um ardor que se abrasa. A escuridão tapa as silhuetas que se penetram. A noite esconde a sensualidade que escorre pelo efémero sentido de apaixonar.

De novo no ar. De novo na ponte. Ainda alguém aponta uma luz ao rio. Nada. Ninguém. Alarmes perdidos em busca de quem não se vê. Mas ia um corpo a cair.

Fica ali, no seu lugar. Olhando a manhã que vem. Sem se mexer. Asas guardadas. Olhar fechado. A cidade por pouco que adormeceu, mas rapidamente regressou.

Uma ponte. Um homem. Algures, um tempo. De novo chegará a noite.

 

publicado por opoderdapalavra às 23:14
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