podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
12 de Abril de 2015

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A bicicleta ferrugenta de Amir teima sempre em descolar a corrente de duna em duna. O pequeno rapaz de chapéu cor de ocres de pó, dá duas voltas com as pernas e tem de parar de novo. Baixa-se e de mãos calejadas pelas voltas, cai em esforço e força, a colocar aquele pedaço de correia seca e gasta, no lugar. E duas pedaladas à frente, de novo, o mesmo. Mas todos os dias Amir tem de passar por este esforço quase desmotivante, só para ir levar o almoço à avó Magdur, que teima em não deixar o vale dos mortos, vale onde o rio já secou, onde as pessoas já partiram para longe, onde as plantas emigraram, onde só ela e duas cabras velhas se mantém.

“Aqui está o teu avô Amir. Ali onde a terra comeu os ossos. E não posso deixá-lo sozinho. “

Amir é filho de beduínos que habitam a montanha dos vivos, pequeno lugar onde se avista todas as dunas do deserto, da areia que desenha horizontes, que toca o céu sempre que se enfurece. É onde se vê o sol que acorda e a lua que vem grande e cheia e logo se eleva nas estrelas.

Este rapaz sempre que chega junto da avó fica à espera de uma estória, de uma conversa daquela sua antepassada de pele em queda, olhos quase apagados e corpo que se perde no meio de dois mantos tão idosos como ela. Sonha com o rio que traz a água fresca, com o verde dos arbustos, com as palmeiras em série.

“Morreu tudo meu filho. Havia tempos em que até eu era bonita.”

“E és avó.”

“ Isso é o teu coração que o diz. Mas os teus olhos mentem.”

“ Mas a avó sempre me disse que o avô enquanto teve pele além dos ossos, lhe dizia o mesmo.”

E ela sorria-lhe. Ele atirava sempre 30 pedras para o lugar onde o rio secara. Não as contava, porque Amir nunca soube o que são números, mas juntava sempre esse calculo de pedrinhas soltas. Era a forma de contar o tempo. No fim, ia-se embora com um abraço apertado da sua avó.

E naquele dia, depois de ter parado já umas quantas vezes para endireitar o rodar da soga da bicicleta, foi quando caiu em joelhos de espanto. Mais abaixo de uma duna, a não muita distancia do acampamento onde morava, um ser estranho estava deitado junto a algo colorido. Cores diferentes das normais e mais que habituais ocres, amarelos e pouco mais, que sombreiam toda a atmosfera de vivencia do jovem. Não. Tinha um pé que se elevava, e parecia um bico em crista. Aproximou-se devagar. O ser deitado deu por ele e logo se ergueu. Tinha uns olhos redondos, demasiado grandes. O seu corpo era todo transparente. O manto cobria-o no todo.

“Quem és tu?” Amir tremia em susto. Todo o corpo era um manto retalhado em medo.

O ser não lhe respondeu, fechando-se no meio do disfarce que o cobria e sumiu no nada, como se de um mágico se tratasse. Amir estremeceu ainda mais. Fala-se em espíritos perdidos, em almas que ficam a flutuar presas nos confins do deserto. E depois olhou ao que havia ficado na areia. Uma flor. Amir reconheceu pela forma, era igual à que sua avó já lhe contara. Correu atrás para ir buscar a amada mulher de longos anos. Sentou-a na bicicleta e esqueceu a correia. Empurrou-a areia acima. Quando chegaram até os olhos da senhora que vivera já mais do que o próprio tempo não conseguiram arrumar as lágrimas. Sentou-se junto à flor. Uma flor no meio do nada, no meio do fim do mundo, onde nenhuma semente conseguia germinar. Mas ali estava, uma flor. Pé verde, bico como um pássaro e crista em amarelo e azul.

“É uma estrelícia.”

“Como sabes avó?”

“ O teu avô um dia trouxe-me umas sementes. Disse-me para as deitar à terra sagrada do rio e cuidar delas. Tempos depois elas estavam grandes, lindas e coloriram toda a margem. São as aves do paraíso. O teu avô antes de partir, antes de fechar os olhos, falou-me de como as conheceu. Numa viagem ao mar. Lá onde perdes os pés do chão e os deixas ir na frescura da água que nunca conheceste além da do poço velho. Ela leva-te para longe. Tão longe que podes ver os pássaros voarem, assim de bicos às cores e cristas em tons tão belos que nem os nossos sonhos conseguem desenhá-los. E um dia choveu, disse-me ele. Um forte vento trouxe uma chuva de flores. Todas eram as mesmas, como bandos, cobriam todo o céu. Pareciam ter asas, mas caiam rasando as cabeças, rasando a água, a terra. E cobriram tudo o que era morto em vida. Tudo o que era cinzento, pedra e seco, em cores, em alma, em espírito que enchia os olhos de alegria. O teu avô pegou em sementes e trouxe-as. Disse-me na noite antes de se apagar que quando ficasse corpo sem coração, sem sentir, eu colocasse todas as estrelícias que ainda cobriam as margens, sobre o seu corpo. Para que elas, como pássaros do paraíso o pudessem levar para longe, para onde os pés deixam a terra e os levam o mar.”

“ Avó, mas e aquele homem estranho, de olhos grandes que estava aqui ao pé dela?”

A pergunta trouxe um sopro de vento. Forte, cheio de uma areia que obrigava a fechar os olhares. Mas rápido abrandou. Quando as retinas voltaram a ver a luz, o ser coberto pelo manto, de olhos grandes e redondos e corpo transparente, estava de novo junto à estrelícia, ao Amir e sua avó. Mas desta vez chegou-se mais perto, como se quisesse tocar. Não tinha boca, não se via na cara mais nada senão os olhos. Levantou um braço e com um dos 3 únicos dedos tocou na testa de Amir. Este tinha já quase o corpo em falecimento, tanto o medo que havia tomado o lugar do sangue. E nesse momento o rapaz sentiu uma voz. Não vinha de fora, da boca da avó ou de algum dos sons que o deserto provoca. Vinha de dentro.

“ Olá Amir. Sou eu. O teu pássaro do paraíso. Não temeis. Vim porque o teu avô me pediu. Sou esta flor, e vim do sitio onde o céu cobre a terra e o mar inunda o horizonte. Ele quis que visses que a vida é mais do que a correia da tua bicicleta, que é mais do que a duna que vês ao fundo da tua tenda. Ela é mais do que o sol que te acorda e a lua que te deita. A Vida é o teu sonho, aquele que tens em ir em viagem até onde a terra acaba e o mar te leva os pés. “

E logo desapareceu. Ficou o rapaz em espanto e a avó em joelhos. A estrelícia nunca se moveu.

A velha senhora, anos que se contaram no tempo, repousa agora na terra que lhe come os ossos, ao lado dos mesmos do seu amado. Tem no seu dorso a estrelícia que a levou a voar até ao mar. Lugar onde os olhos de Amir assumem o desassossego do coração, de um sentir único e vasto dentro do seu sonhar. Viajou com o nome de quem amou e ama. Dias e noites a repor a corrente da bicicleta. Comeu cactos, bebeu água castanha, mas chegou. Aqui o vento não traz a areia, o cheiro não é seco e quando pôs os pés descalços junto ao mar, uma onde veio e levou-os com ela. Conta-se que quando ele já apenas navegava em corpo pela espuma do oceano, que veio um ser transparente, acompanhado de estrelícias em voo e o levaram, pelo céu, para onde o horizonte toca o infinito. Lá onde o sonho é mais do que uma simples bicicleta de corrente descolada.

Hoje, todos os anos, junto à margem de um rio que voltou a correr, num vale que deixou o nome dos mortos e ganhou o dos vivos, nascem e chovem estrelícias, como pássaros de um paraíso dos sonhos.

 

 

publicado por opoderdapalavra às 01:31
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