podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
23 de Dezembro de 2014

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Para ele a alta velocidade, o quebrar as barreiras e limites, não é um carro em movimento, é o andamento do seu diapasão de vida. Precisa de ultrapassar essas fronteiras para se encontrar consigo mesmo. Tudo porque não a consegue esquecer. Tudo porque aqueles braços que contornavam o seu corpo lhe deixaram as saudades que apunhalam o seu peito, repleto de uma dor de remorso. Ele deseja atingir a mesma onda de som que conseguiu naquela noite. O motor esticou tanto, que a escuridão transformou-se em silencio, as estrelas pareciam querer tocar-lhes os olhos de tão disformes que ficavam, e o caminho era uma vertigem, tudo surgia e desaparecia numa tontura. E voou. Tirou as mãos do volante de deixou-se ir, naquela loucura de dimensões, onde não se percebe mesmo a linha que separa os dois lados. Ele ficou deste e ela passou a linha.

Sempre que atinge esse momento, ele larga as mãos e pensa no seu rosto, nas formas que desenhavam faces doceis e pintadas por uma pele tão branca que quase se sentia neve no seu seio. Com olhos da cor cinza, cabelos em preto marcado, e uma voz que deixava a frequencia do pensamento sintonizada na sua presença. Ele quer vê-la, e consegue-o, no exacto momento em que passa o local onde ela parou no tempo. Consegue avistá-la nas entranhas da noite, sorrindo-lhe, como se nunca fosse possivel mostrar outra faceta. Apenas sorrir, e docemente, olha-o, como que se divertindo com aquela sua forma de a encontrar. Ele não resiste em travar a fundo. Ouve-se a borracha a ser sugada pela força de um alcatrão que rasga e queima. E depois fica o silencio. O corpo dele é esticado pela força do cinto de segurança, que o amarrota e o joga contra o banco. A cabeça anda perdida, esticada pelos solavancos espontaneos da travagem, e depois de imobilizada, fica perdida de sentidos. É quando ela vem. Não precisa de muito. A porta abre-se na mesma escuridão daquela noite, e depois entra como uma pena, esvoaçando. E atravessa-o. Toca-lhe o coração, onde lhe deixa um beijo suave, o mesmo que deram naquela noite, antes de ser cuspida no pinhal que engole a estrada.

É neste momento que André acorda. Retira a respiração sufocante de quem regressa, e senta-se na cama. Envolve o corpo com os braços e entre lágrimas, mas também sorri. Com o mesmo sorriso dela. A pela suada seca e do ar vem um perfume ténue que entra pela janela. Vem do pinhal. Talvez seja o de Ana. Volta a fechar os olhos, inspirando-o com toda a força.

De seguida, o caderno. Era necessário apontar todos os pormenores dos sonhos, disse-lhe o psicologo. 16 anos, sem carta, nunca conduziu um automovel, nem conhece nenhuma Ana. Mas esta viagem dimensional começa a pesar-lhe os ombros cada vez mais. O pensamento começa a deixá-lo curioso quanto aos traços que o dia seguinte lhe pode trazer. Um deles pode riscar o nome Ana e começar a perceber. Mas fica também preso nas palavras cientificas de um homem para quem fala faz uns meses: são sonhos de adolescente, meu rapaz.

 

 

 

 

Estava tudo preparado. Os botões, as manetes, os corpos bem encaixados, os capacetes, as turbinas para a maxima explosão, o oxigénio, a metereologia, e até o medo estava preparado. Esse sentimento que assola qualquer um que entra naquelas cápsulas. São muitas as vezes em que tudo corre mal. Um calculo mal feito, o desgaste imediato de uma peça, uma fuga imprevista. E eis que surge a explosão. Não de lançamento, mas do fim. Em que tudo se transforma em fogo, numa bola falmegante sem fim. Por isso, há corações que batem num ritmo tão acelarado, e expressões de arpeensão tão estampadas que o medo parece sentar-se ao lado de cada um. E ri-se como palhaço. Boca bem aberta para que se veja a escuridão que ele trás vestido. A contagem começa. Tudo pode acabar agora. Tudo pode apenas parar sem se sentir. E os numeros chegam ao fim…sente-se o solavanco arremassar todos os esqueletos para trás. E depois de se pensar, depois de se sentir todos os receios, tudo fica para trás, no silencio que o espaço traz. E nas costas está ela. Bonita e singela. À frente, o futuro. Qual sera? Parece que afinal o passageiro invisivel continua dentro da cápsula.

 

publicado por opoderdapalavra às 15:01
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