podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
03 de Agosto de 2015

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Chegou mais um verão. Aqueles dias em que se acorda com o vento de sul e adormece-se com a brisa de norte. Sente-se o sol bem perto, quase tocando o rosto, qualquer beijo que chega em silêncio e fica. Dias a fio sem nada para fazer, ou procurar fazer o que nunca se fez. Horas em que inundo o meu mundo com um olhar sobranceiro, patrão de um quarto recheado por livros descascados pelo estudo; CDs de Led Zeppelin, Doors, Tom Waits e outros que lhe perdi o nome; pedaços de bolachas esmagadas no chão; uma janela que me separa da rua, corrida desde o cruzamento com a nacional até à casa do senhor de calças longas que passeia sempre o cão pela manhã. Aqui sou dono, sou chefe e rei. Aqui ninguém me chateia, chama-me à atenção sobre as minhas birras, embirra com as minhas parvoíces, torna-se parvo com as minhas tonteiras, fica tonto com as minhas palermices, palerma com o meu silêncio. E com mais um verão, chegam as férias com o pai. Longe daqui, deste meu reino despontado de uma vontade de ficar fechado entre fronteiras. Lá fora o carro da mãe espera-me. Mais uma viagem, tantas que já foram. E depois...depois mais um sorriso forçado dele. Parece que nunca me viu. Finge dizer que me ama. Fica em espanto leviano nas palavras - estás tão diferente, como crescestes - sim, crescer faz parte de mim, como já fez de ti. Infelizmente parece que os adultos perdem essa noção, de crescerem. Por isso obrigam-nos a fazê-lo, como se fosse uma forma de se recusarem à admissão de o fazer. Porque se esquecem do que já foram? De quem já foram? Porque querem que cresçamos, que sejamos adultos, se eles estão sempre a lamentar lhes ter acontecido a pior das verdades, ficarem mais velhos? Já estou a chegar, a mãe continua em recomendações infinitas, como que gravadas em todos os anos. Parece que tem uma cassete naquele pensamento. Não consegue parar, mesmo que eu tivesse um stop para carregar. Olho a estrada, quase já decorei o número de tracejados que tem. 234 pontos de luz. Isso já consegui o ano passado, em mais um verão que foi seco e árido, na mesma casa de sempre. Onde hoje me aguardam. Com a mesma bola de futebol. Mais logo faço-a explodir contra uns pregos sempre soltos num dos cantos da cerca. E depois, pena foi a perda, mas para o ano volto a ter uma igual. Afinal o castigo apenas dura um ano. É pouco. Pouco para o que tenho de carregar desde que eles se separaram. Era noite. Desci as escadas com pouco peso nos passos. Eles discutiam, mais uma vez entre tantas. Ela chorava como sempre. Ele tinha a voz mais grossa. Diziam disparates atrás de disparates. Isto não pode continuar, já não aguento. Pois, como sempre nunca tens outras soluções. Segues sempre o caminho mais fácil. Pensas que é fácil? Achas? Estou cansado, tu já nem consegues disfarçar. Pelo nosso filho até. Ele chora todas as noites, e tu? O que fazes? Sais e voltas tarde. Eu fico sempre aqui, com ele. Sempre eu. Sim, sempre tu. Sempre foste tu que saíste. Eu fiquei sempre aqui sozinha. Este é o meu lugar... Não te facas de vítima. Não consegues destroçar o meu coração. Estou farto. Sim, vai embora e deixa-me. Vai para onde te compreendem, não é? Tudo terminava sempre da mesma maneira. Uma porta a bater forte. Aquele bafo com que a madeira bate no contorno de alumínio deixava sempre a sensação de fim. Mas voltava sempre. Mas naquela noite não regressou. Foi de vez. Até chegarem os verões. E com eles, as minhas viagens. Nunca nenhum me explicou. Só escutava falarem de mim, numa guerra de razões, mas nunca me disseram porque é que eu tinha de ser uma das razões. Para ficar e para partir. Nunca pedi para o ser. Apenas queria que me deixassem ser eu. Mais nada. Sem ser um estrapilho indesejado que tardava em deixar de ser fardo. E agora cada um tem alguém mais. Mais uma pessoa que me trata como o puto, aquele que fica sempre com os restos das culpas. O que não pode falar, porque nunca tem razões para o fazer. O que nunca se porta bem, porque afinal ainda não cresceu. O que fica sempre nos finais dos programas, sem ser escolha para nenhum deles. Fico como esterco acabado de ser defecado e por porra nenhuma, sem explicações. Sem saber o que é isso de ser filho separado, ser divisível nas contas, nas subtrações de mais contas e nas adições de problemas. Tenho de esperar. Aguardar que os verões me tragam o crescimento, o velho conceito dos adultos, para me tornar num deles. Mais um que se esquecerá, de quem foi, o que foi e como foi. E depois o mesmo. Traumas, coisas mal resolvidas, assuntos mal fechados, personalidade difícil, relações complicadas, talvez mais um separado, complexos amorosos e outros tantos, e uma resma de horas, dias e meses, afundado nas ruínas da minha infância. Enfim, afinal tudo se resume à derrota do meu reino. E tudo porque nunca quiseram explicar-me porque é que naquelas longas noites, eu era sempre o tema central? Meu Deus, como cresceste. Cheguei. Mais um verão. Vamos lá a isto.

publicado por opoderdapalavra às 23:10
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