podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
09 de Novembro de 2015

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A cidade.

O rio.

O barco que chega sem avisar, o sol que abranda sem se notar, o vento que vai sem se apontar.

A ponte que atravessa, faminta de cor, perdida na imensidão de quem desespera.

As pessoas que se aglutinam, como moscas tontas, nos batelões que rasgam as águas reviradas.

As ruas que se deixam foder de lixo. As casas já fodidas pelo descarnar do abandono. As janelas que escondem olhares matreiros e ausentes. Os cafés que se deixam emergir em conversas de silêncios. O vinho que vem à mesa, o café que abraça lábios, a cerveja que refresca a garganta. Os pregões da ribeira, os berros dos ciganos que vendem almas ao ouvido dos descrentes. Peles que sarapintam multidões, do branco com o preto, amarelo, escuro e claro, casados com cabelos que se multiplicam em arco-iris de norte.

E a história que dormiu com as estórias e na pornografia das palavras, sucumbiram na imaginação dos que por ali já perderam o nome, a idade e sabe-se lá mais. A comida que já nem se sabe onde nasceu, as lojas que deixam entrar qualquer um, mas só alguns sabem como saem. As línguas que já nem tem casa, os risos que deixaram de ser presentes para serem obrigados. As lágrimas de quem ouve o fado, o brilho daqueles que olham o Jerónimos, ou a azafama de quem sobe a Bica.

Os passeios foram feitos para os carros e o asfalto para as pegadas dos peões. O ar já nem se respira, e a respiração é domada pelos adornos dos aviões.

A cidade.

O bairro. Os bairros. As canções que recortam a voz dos pátios, a sardinha que estala no carvão, o copo meio cheio ou meio vazio. O bar que não fecha e aquele que se fecha a alguns. Os corpos dos meninos que se beijam, os beijos dos rapazes que se amam. As mãos dos homens que acenam às miúdas que sobem até ao Principe Real. As mulheres que se mostram no Intendente, e os laivos de sexo que se escondem por trás das portas da baixa.

A nata que se come na Belém dos Descobrimentos. Os jardins dos verdes amarelos. Os bancos rendidos aos que esperam a morte. A Torre que espera o nevoeiro da madrugada. A doca que troca olhares com o Cristo que espera que a cidade se decida.

Há cheiro a castanha, a sovaco de fim de dia, a perfume requentado, a roupa fresca nas varandas, a estações que deixam de o ser pela Madragoa. O Panteão que guarda quem se esqueceu que haja existido, aperfilhando aqueles que de nome são heróis, de passado meras circunstâncias de noticia.

Os barcos continuam a chegar. Aos que partem dizem obrigado e aos que ainda nem se avista, reza-se que rapidamente entrem pelo rio e acabem com as saudades. Essa saudade na letra de Alfama, por quem se contam as escadas e degraus submersos entre corredores de casas idosas.

O sol vem abraçado a um céu que não chega ao engano. A luz é arrebatadora e quem a vê sabe-o.

A cidade.

E assim adormece no sono de quem não dorme.

 

publicado por opoderdapalavra às 17:11
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