podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
02 de Março de 2015

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Quando se aproximaram da atmosfera, sentiu-se dentro da nave uma espécie de rombo, que fez tremer toda a linguagem. Sim, a linguagem dos Nebundys é feita através dos pensamentos. Os lábios, a abertura das palavras foi fechada na criação do seu mundo. Nunca se soube o que seria comunicar através de um som. Nem ouvidos. Apenas pensamentos e um coração que falam. Pequenos seres brilhantes, envoltos numa branda aura branca, como que anjos que descem dos céus.

Era a primeira viagem do pequeno Mobdy. Quando atingem as sete voltas dos dois sois do seu sistema, eles são iniciados numa epopeia única, atravessando toda a fronteira da via láctea. E escolheram a Terra como destino. O seu pai já viera duas vezes até este planeta distante. Mas nunca se aproximaram tanto como desta vez. Resolveram aterrar junto a um planalto, deserto de gente, de casas, onde apenas uma árvore singela e solitária repousa. Os Nebundys conseguem emergir num invisível manto, e percorrerem as multidões que habitam este planeta azul. Assim foi dito a Mobdy. Ele andou dias a fio, por entre cidades repletas de confusões, de edifícios que se perdem entre as nuvens, de carros que buzinam com o desespero latente, e de pessoas que não se olham.

(Pai, porque estes habitantes são tão estranhos? Eles tem dois olhos que escondem e comunicam por aquele buraco esquisito, por onde falam sem coração.)

(Filho, estes terráqueos são diferentes. Não os julgues, eles não falam com o coração. eles falam por pensamentos desiguais dos nossos.)

(Sinto muito medo, muita raiva, muita inveja, muita tristeza, muita frustração)

(Estes habitantes estão perdidos. Este planeta há muito que se sente perdido. Vamos.)

Quando chegaram perto da nave, Mobdy reparou numa criança, uma menina que estava sentada na sombra da árvore solitária. Subiu num voo, por entre as andorinhas que chilreavam, e sentou-se num galho. Lá me baixo, a pequena falava para o ar. Ele ainda olhou em volta para perceber se algum semelhante andava pelas redondezas, mas nada. Ficou por algumas horas, observando no espanto aquela menina de olhos azuis, cabelos que o vento soltava em oiro e uma pele quase tão branca quanto o corpo dele. E quando o sol começava a querer-se esconder no horizonte, ela levantou-se, abraçou a árvore, beijando com força e,

  • Hoje vejo que tens companhia. Não vais ficar sozinha. Além das andorinhas tens lá em cima um ser estranho, de branco. – Mobdy sentiu-se observado. Mas estava invisível, como ela podia vê-lo? Sentiu um assombro tomá-lo de companhia. – Não te assustes, eu não te vejo, porque os meus olhos não me deixam ver nada, mas sinto-te. – ainda o deixou mais confuso. Se ela não vê ninguém, como é que ela sabe que ele é branco? Mobdy achou que devia interpela-la. E falou com os pensamentos do seu coração.

( Como é que me vês?)

  • Já te disse que não te vejo. Mas vejo-te pelo meu coração. É assim que também vejo a minha avó.

( A tua avó? Onde está ela?)

  • É esta árvore. Ela morreu faz uns cinco anos, eu ainda era uma bebé. As cinzas dela foram colocadas aqui e plantou-se uma árvore no seu lugar. Todos os dias eu venho falar com ela. A minha mãe não sabe, porque eu sou cega e tenho algumas dificuldades. Mas é o cheiro que a minha avó deita das suas folhas que me conduz.

( Sabes que és o único habitante deste planeta que me viu, me sentiu. Vocês são estranhos demais. Tem um coração muito poluído de sentimentos estranhos. )

  • Eu sei. As pessoas vivem perdidas. Só pensam em dinheiro. Os adultos discutem por causa do dinheiro, por causa do que tem e do que não tem. Muitas são as vezes que a minha mãe chora porque não tem dinheiro. Muitas vezes ela chora porque gostava de pagar uma operação para eu ver, para eu ficar curada.

( E não queres ficar curada?)

  • Sinceramente preferia ter a minha avó de volta. Tenho saudades do seu cheiro, do seu toque, do seu sorriso.

(Mas se não vês, e se eras pequena como disseste, quando ela morreu, como é que te lembras disso tudo?)

  • Porque sinto. Não sei explicar, mas sinto que seria assim. Pelo menos sonho que ela era assim.

(Como te chamas?)

  • E tu?

(Mobdy. Venho de um planeta muito distante do teu. Eu não tenho uma boca como tu, nem ouvidos. Nós comunicamos com o coração. Com os pensamentos do coração.)

  • Então és um anjo. Um dia destes a minha avó árvore disse-me que anjos costumavam vir até aqui. E afinal ela tinha razão. – e sorriu. Este sorriso, o primeiro que Mobdy via, deixou-o enternecido. Desceu até junto dela e tocou-a de leve. Os seus olhos, por breves momentos deixaram de ser azuis e ficaram cinzas. Por segundos ela sorriu ainda mais, e uma lágrima caiu de um dos olhos.

( O que é isso? Água que sai dos teus olhos.)

  • É uma pequena lágrima. Estou a deixá-la sair porque te estou a ver. És a primeira pessoa que vejo a sério. E logo um anjo. Espero que todos sejam como tu, pois somos tão bonitos. E vejo a minha avó. Obrigado por me deixares ver a pessoa que mais amo. Ela é linda. Os seus ramos, as suas folhas verdes, o seu tronco, e todo o seu brilho. Foi como sempre imaginei. – e abraçou-o com força, tanta que o pequeno Mobdy conseguiu, algures pelo coração soltar as seguintes palavras,
  • Obrigado eu por me mostrares que se pode amar alguém diferente de nós.

Deixaram-se estar abraçados durante algum tempo, sem que o tempo fosse um incomodo. Aliás, até o sol se deixou ficar por mais uns instantes, e a no seu oposto a lua segurou-se de nascer, como se o universo quisesse que aquele abraço vivesse mais tempo. E num segundo de espanto, ambos sentiram o toque de uns galhos envolverem-nos. A árvore, aliás, a avó de Rute debruçava-se perante os dois e envolvia-os no seu leito.

Ainda hoje, anos passados, Rute, que continua a escutar a sua mãe chorar por não ter dinheiro para pagar uma operação, sai sorridente, senta-se junto à sua avó e fica horas a conversar com ela e com o anjo que a sente a mil milhões de anos luz. Afinal o coração não tem distancia.

 

publicado por opoderdapalavra às 22:58
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