podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
09 de Abril de 2015

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Foi pelo cair do sol. A sua sombra caminhava na frente, como quem teima não descolar do corpo. Por mais que ele se desviasse, ela fitava-o desde logo e imitava-lhe as passadas. Os seus olhos estavam no chão, lendo todos os pedaços de alcatrão, as pedras soltas, os torrões que a terra deu, os ínfimos galhos que por ali permaneciam deitados na solidão e rebentos de ervas que ladeavam a estrada. Carregava uma pequena mochila pelas costas e um bastão pela mão esquerda. A direita tinha uma flor. Aquela que apanhara quando o sol ainda não tinha germinado a sombra. Fora junto ao mar. Esteve sentado durante umas duas horas, assim fez os cálculos pelo tempo que rodou o universo. Fechava por vezes os olhos e sentia a tontura do planeta, girando no seu próprio centro. Foi contando e contando até sentir que eram horas. Nunca pensou que o tempo fosse assim tão importante, vê-o como um fragmento, uma pequena folha de castanheiro que se solta e tem que voar pelo mundo fora, sempre diferente, sempre igual, mas nunca dependente.

Quando chegou à ponte, viu-a. Até a sombra descansou, quando ele se sentou. Olhou-a como quem olha o sonho. De olho em brilho, lábio riscado a sorriso e um certo tremor no queixo, nervoso de quem se permite arrepiar com o assumir da admiração.

  • Sabes porque estou aqui? – no ar ficava apenas o eco dos últimos cantos de pardais que afoitos, atarefavam os últimos pormenores para mais umas bicadas no ninho. Ficou ainda o vento, que chegava sempre pela noite, vindo de norte. Não trazia noticias, mas vinha sempre com as estrelas pelas costas. Mas hoje veio mais cedo, porque o dia ainda não se deitou. – Tu sabes, eu sinto que sabes. Estou aqui porque precisava te falar. Não tenho mais ninguém a quem confessar.
  • Eu sei – foi quando sentiu a resposta. Ela não fez voz, mas fez palavras dentro de si. De olhos fechados ouviu-a.
  • Tenho o coração aos saltos. Parece que pula como um menino desenfreado, louco pela paixão que lhe rebenta no corpo.
  • Porque sentes essa sensação?
  • Porque a vi ao longe.
  • Conta-me como foi.
  • Eu tremi. Ela não me viu. Estava de princesa. De vestido em tons claros, sapatos coloridos pelo arco-íris e um sorriso que transpunha o horizonte e trazia de volta toda o pigmento do por do sol de verão. Eu sentei-me atrás de um poste de luz que por ali estava. Fiquei durante o momento em que o autocarro percorre a rua acima, dá meio quarto de volta na rotunda e atravessa-se em frente à entrada da sua escola. Foi ai que ela deixou a minha vista perdê-la. Ainda tentei acompanhar aquele mesmo autocarro rua acima, dois quartos de volta noutra rotunda, e depois desapareceu na esquina. Mas em rápido fechei os olhos, com a força de um mundo, e desenhei-a no meu pensamento. Toda ela. Não ficou a faltar nenhum pormenor.
  • E por isso agora sentes o palpitar.
  • Abraça-me. – ele levantou-se e fê-lo. – Mas sem força, apenas com todo o teu sentimento. Quero senti-lo. – Nem a sombra foi capaz de o impedir. Ficou até a luz se apagar, as estrelas começarem a pintar o céu, e o som dos sapos da ribeira espalhar-se pela floresta e seus mais profundos recantos. Sentou-se, sem nunca deixar de a abraçar, e adormeceu.
  • Dorme comigo hoje. Deixa-te ficar aqui junto ao meu tronco. O teu sentir alimenta as minhas raízes, o teu coração espalha-se por todo os meus galhos. Deixa-me ter um pouco dessa tua paixão.

A manhã chegou. A sombra estava deitada no sentido oposto ao que se tinha acamado. Havia uma frescura pelo chão, pelos poros de oxigénio que se respirava, pelas plantas, pela água que cantava enquanto rasgava o trilho. Os seus olhos abriram-se devagar. Havia uma névoa que ensombrava a retina. Mas quando ela se dissipou, ficou espantada. Olhou a árvore. Estava seca ainda na noite, e agora de folhas verdes e resplandecentes. Magia.

  • Grata pelo amor que me deste.
  • .. – o seu gaguejo ficou surdo nas palavras dela.
  • Não temas quem és, o que és, e o que sentes. Vai e diz-lhe o que está dentro de ti. É o que sentes, e nada pode ser-te roubado, nem mesmo o momento em que lhe disseres que a amas. Se ela ficar no silêncio, tu ficarás sempre na presença, na feição do teu amor por ela. Não esperes o que podes ter, espera tudo o que podes sentir, despertar e partilhar. Os outros são os outros. O que interessa em ti é o que vive dentro de ti. E hoje deste-me a beleza da pureza do teu sentir.

Ele chorou. Deixou cair lágrimas pela cara. E quando a sombra já se unira a ele, foi. De mochila, de bastão, de peito em riste de tanta sensação. Foi, procurou, encontrou, falou. Fez-se silêncio. E ele pressagiou todas as palavras que a sua amiga, a árvore junto à ponte, lhe tinha escrito na alma. E ficaram ali, de olhos nos olhos. O autocarro chegou. Parou. Arrancou, e quando contornou dois quartos da rotunda e desapareceu na esquina, os olhos continuavam nos olhos. E assim a folha do castanheiro, que voa pelo mundo fora, contou o tempo em que o amor despertou.

No fim, sempre há um fim, findar, terminar, acabar... a árvore manteve as folhas verdes a dançarem no vento que chegou pelo cair do sol. E até a sua sombra se deixou ficar, feliz.

 

 

publicado por opoderdapalavra às 23:35
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