podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
26 de Novembro de 2015

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10 anos depois... 

 

 

"Naquele dia tudo parou.

Parou o sol, ali junto ao fio de linha que traça o horizonte. Pararam as nuvens, encavalitadas umas nas outras. Parou o vento, com as arvores dobradas. Pararam as abelhas, coladas ao ventre das flores. Pararam os relógios, com os ponteiros colados. Pararam as pessoas, fechadas nas suas casas. 

Naquele dia apenas ficou o som do rosário de Nossa Senhora, pendurado sob o alpendre do retrovisor. O radio apagou-se no silencio. Naquele dia ficou apenas o corpo de Lisandro, estendido  no banco corrido da frente. Abraçado nos próprios braços, retinha a força das lágrimas e a voz da angustia. Olhos bem fechados, quase a esmagarem as retinas. Peito recolhido e as pernas dobradas em duas partes. 

Aquele dia esvaziou-se de tempo. Mas até aquele dia tem um passado, uma historia por contar. E aquele presente terá um futuro, palavras a escrever. (...)"

 

 

publicado por opoderdapalavra às 21:55
25 de Novembro de 2015

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Pego na mochila e saio. Não se sai assim de leve, sem dizer nada, sem deixar uma memória. Primeiro arrumam-se os momentos, depois limpa-se os ressentimentos, para que as dores possam ficar guardadas. E a seguir as palavras. Pegam-se nas desculpas, nos perdões tardios ou não, nas consciências mais ou menos pesadas, e metem-se nas palavras. Fazem-se frases, construindo discursos repetitivos, mas sempre bem definidos. E remata-se sempre com um sorriso. E com um abraço quando ainda se tem tempo. Mas não muito longo, pois o demasiado afecto pode fazer regressar o passado. E esse tem de ficar bem fechado. Como um fantasma que ensombra os dias e as noites, deixando, assim de ser, o sabor amargo do enclausurado. É assim que se sai. E foi assim que sai. De mochila. Com poucas coisas amontoadas. Apenas umas camisolas, umas cuecas, alguns pedaços de utensílios pessoais, umas botas de troca e duas calças de reserva. Ah, claro, acrescentei ainda o livro e o bloco de notas. O livro fala de um amor. Vadio, sem dono, meio assustado. Um amor de quem espera pelo beijo esquecido, de quem resenha entre dentes a vontade de um corpo malandro, daqueles com que se fode, como se da última se falasse. Homem com mulher. Mulher com homem. Outro homem. Outra mulher. Mais mulheres e menos homens. Mais expectativas quanto ao amor de uma mulher, menos promessas quanto ao amor de outro homem. É assim que se cruzam as páginas do livro. E no fim, parece que tudo termina bem. Com beijos. Com cama. Com sonhos e futuros prometidos. E tudo fica ali, naquela última frase " nunca haverá outro dia como aquele, em que o amor venceu." Como se fosse uma corrida, onde o primeiro seria premiado com o tal sentimento nobre. E depois as notas. A caneta. Vou escrevendo o que me vem à ideia. Nada de especial. Apenas os passos que vou dando, os pensamentos que parecem brutos umas vezes e mais dóceis noutras. Mas nunca deixam de ser pensamentos. Apesar de quando querem apertar o peito, fazem-no como se uma mão entrasse pelas costelas e fosse às entranhas esvaziar todo o seu conteúdo. Escrevo também o que vejo. Caminhos, estradas, ruas. E há as montanhas, as descidas e os desníveis. E há as pontes, às margens que se ligam e à margem de quem se liga ou desliga. Aí, olho sempre a corrente. Nunca passa a mesma vez por debaixo daquela travessia. E vai, no seu percurso, sem notar se ali estou, contemplando-a. Anoto a comida. O pão quente, as carcaças mal cozidas, o queijo fundido na tosta, a carne que fora mal passada e o peixe por amanhar. O vinho que sabe a rolha, a água a pedra e a sede que não se mata. As conversas de fim de dia, as vozes no início da tarde, os silêncios pela manhã. Escrevo sobre as várias vezes em que comi sozinho. Apenas eu e a mesa. E mais uns bancos vazios. Prato cheio, copo por meio, e sem diálogos. Qual livro de desenhos com balões sem palavras. Quando durmo, fico de olhos abertos. Dormir assim é não esquecer que a seguir ainda se pode acordar. É assegurar que não se fica ali, no sono profundo, perdido entre quem se deita e nunca se levanta. São muitas as casas onde durmo assim. Ouvindo a noite. Escutando o que ela diz. O matreiro do mocho que fisga a presa, o grilo que não se cala, e o pirilampo que não se desliga. E falam as estrelas também, e o vento que sopra antes de amanhecer, ou a vergonha da penumbra que humedece os campos. E durmo em casas de gente que não se deita, de gente que me olha por estranho, que me troca por um pedaço de moedas que tilintam nas mãos. Gente que mostra os seus aposentos, que me deita em palheiros ou no chão de madeira. E sempre chega o dia. Um banho pela mangueira, roupa lavada na banheira e os perfumes das flores. Raso na pele pétalas que me embebedam de odor. E depois o café. Cheiro matinal. E assim saio de novo. Depois de tudo arrumado, deixa-se a memória, de mochila nas costas, e olhar na frente da passada, saio e vou embora. Até chegar. Nesse dia poderei, enfim, descansar.

publicado por opoderdapalavra às 13:37
23 de Novembro de 2015

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Sou. Ser apenas não chega quando se chega aonde se é lugar guardado local fechado. Ser é como padecer enterrar os pensamentos laivos de loucura que nos abandonam para outros entrarem convidados do corpo que se é. Sou. Ali, onde nunca fui só consegui ver de longe como quem avista terra perdido no naufrágio dos dias. E agora que sou? Não interessa o defeito, feito de imperfeito. Não interessa a palavra a mesma que vinha com o sangue dos outros. Não interessa o vento que soprava da ferida passada. Ser é ir, onde a voz se cala, onde o pensamento ficou na porta de entrada, onde o sentir deixou de se sentir. Ali onde sou apenas Quem apenas sou. Mesmo que não chegue. Será sempre o princípio, de ser quem um dia sempre fui. Sou. Onde sempre fui.

publicado por opoderdapalavra às 11:10
09 de Novembro de 2015

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A cidade.

O rio.

O barco que chega sem avisar, o sol que abranda sem se notar, o vento que vai sem se apontar.

A ponte que atravessa, faminta de cor, perdida na imensidão de quem desespera.

As pessoas que se aglutinam, como moscas tontas, nos batelões que rasgam as águas reviradas.

As ruas que se deixam foder de lixo. As casas já fodidas pelo descarnar do abandono. As janelas que escondem olhares matreiros e ausentes. Os cafés que se deixam emergir em conversas de silêncios. O vinho que vem à mesa, o café que abraça lábios, a cerveja que refresca a garganta. Os pregões da ribeira, os berros dos ciganos que vendem almas ao ouvido dos descrentes. Peles que sarapintam multidões, do branco com o preto, amarelo, escuro e claro, casados com cabelos que se multiplicam em arco-iris de norte.

E a história que dormiu com as estórias e na pornografia das palavras, sucumbiram na imaginação dos que por ali já perderam o nome, a idade e sabe-se lá mais. A comida que já nem se sabe onde nasceu, as lojas que deixam entrar qualquer um, mas só alguns sabem como saem. As línguas que já nem tem casa, os risos que deixaram de ser presentes para serem obrigados. As lágrimas de quem ouve o fado, o brilho daqueles que olham o Jerónimos, ou a azafama de quem sobe a Bica.

Os passeios foram feitos para os carros e o asfalto para as pegadas dos peões. O ar já nem se respira, e a respiração é domada pelos adornos dos aviões.

A cidade.

O bairro. Os bairros. As canções que recortam a voz dos pátios, a sardinha que estala no carvão, o copo meio cheio ou meio vazio. O bar que não fecha e aquele que se fecha a alguns. Os corpos dos meninos que se beijam, os beijos dos rapazes que se amam. As mãos dos homens que acenam às miúdas que sobem até ao Principe Real. As mulheres que se mostram no Intendente, e os laivos de sexo que se escondem por trás das portas da baixa.

A nata que se come na Belém dos Descobrimentos. Os jardins dos verdes amarelos. Os bancos rendidos aos que esperam a morte. A Torre que espera o nevoeiro da madrugada. A doca que troca olhares com o Cristo que espera que a cidade se decida.

Há cheiro a castanha, a sovaco de fim de dia, a perfume requentado, a roupa fresca nas varandas, a estações que deixam de o ser pela Madragoa. O Panteão que guarda quem se esqueceu que haja existido, aperfilhando aqueles que de nome são heróis, de passado meras circunstâncias de noticia.

Os barcos continuam a chegar. Aos que partem dizem obrigado e aos que ainda nem se avista, reza-se que rapidamente entrem pelo rio e acabem com as saudades. Essa saudade na letra de Alfama, por quem se contam as escadas e degraus submersos entre corredores de casas idosas.

O sol vem abraçado a um céu que não chega ao engano. A luz é arrebatadora e quem a vê sabe-o.

A cidade.

E assim adormece no sono de quem não dorme.

 

publicado por opoderdapalavra às 17:11
04 de Novembro de 2015

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A janela. Aquele pedaço que transgride a enorme parede que a sustenta, buraco que traz luz, que se abre aos sabores de uma imensidão. Ela está ali, bem junto a mim. Os meus dedos tocam levemente o vidro. Sente-se o vapor que a minha respiração vomita em toda a sua estrutura. E fico ali por uns segundos. Sem mexer um músculo. Apenas olhando e formando pensamentos.

Viro-me e deixo-a nas costas. Sento-me. A secretaria espera por mim. Chego-me a ela e pego na caneta. O papel há muito que me aguardava. E escrevo. Como se fosse sempre a ultima vez,

“Não sei como se redige uma ultima carta. Não que seja a ultima de dizer adeus, mas será sempre a ultima antes da próxima. Se houver essa próxima.

Nunca soube, nestes anos, como se escreve de facto a palavra amor. Foram tantos os poemas, as vezes que cantei versos de paixão, de formas em que me entregava, de palavras que sempre descreveram o que me ia no foro mais intimo do peito. Foram tantas as horas em que pensei, letra a letra, em te dizer. Mas em todas, agora que as olho, foram pequenas partes do todo. Nunca consegui expressar-te a explosão que habita em mim.

Pensava que podia dizer-te assim, em frases bonitas e que brilhavam nos teus olhos, que o amor era um percurso de sensações e sentimentos arrastados pelos lábios que se uniam, pelas ideias que se casavam, pelas horas em que sorriamos. Que o amor era preenchido pelos corpos que se abraçavam, pelas vezes em que entrava em ti e tu me recebias com o fogo ardendo na pele.

Que tinha presentes escondidos e ladeados por postais onde te dizia o que pensava ser tudo.

Mas afinal, agora que não estás, que não te vejo, que não te ouço, que não te toco, que não te beijo, que não escuto o teu silencio, que não posso deitar-me olhando apenas como as pálpebras acolhem o teu olhar, que não posso sentar-me apenas para que me contes as tuas fúrias, que não posso descobrir as tuas surpresas, que não posso descobrir os teus pensamentos, que não consigo observar os teus movimentos. Agora que não habito em ti, dentro desse ser tão único, que não retiro o teu nome dos meus dias, ou mesmo não abandono todos os teus hábitos pelas noites e noites em que me deixo ficar pelas insónias da saudade.

Agora que já não és parte das minhas horas, percebo afinal que nunca soube te dizer de facto todo o significado do amor que está aqui, dentro deste pequeno pedaço de músculo que bate e bate, a cada badalada de tempo que soletra o tempo em que já não estás aqui. Mas também contou todo aquele em que estiveste. Logo desde que ele se apaixonou por ti, ele tem pautado todo o firmamento da palavra que se escreve tanto e dela pouco, de facto, se diz. Porque dizer mesmo dela é quase um impossível. Como se consegue desenhar neste pedaço de papel todas as emoções que sentia quando chegavas perto de mim. Quando eu passava na leveza de um momento, estes razos lábios naqueles que de tão doceis que eram, traziam-me o paladar da pureza.

Quando eu tinha a fortuna de colocar-te os dedos nas tuas faces risonhas, e deixava que a contagem dos anos ficasse perdida algures no infinito.

Quando eu guardava as memorias dos momentos em que viajávamos, falando do nada, e ainda assim o nada era tanto que preenchia todo um universo de conversas.

Quando liamos textos um ao outro, procurando dizer que sentíamos que o outro era tão importante para nós, que tínhamos de partilhar tudo o que sonhávamos.

Quando éramos pequenas crianças, brincando pelas ruas, pelas praias, pelas praças, pelas cidades, pelos campos, pelos países, pela casa.

Quando fomos amantes, jogávamos a sensualidade nos dados do desejo. Dançávamos corpos famintos de deitarmo-nos, sós a dois, na cama de uma vontade de beijar toda a intimidade, todas as formas que contornam a nossa existência, e estarmos ali, perdidos do mundo, esquecidos que lá fora existia tanta gente bradando por nós. Queríamos e tínhamos. Um ao outro.

Agora percebo como se escreve essa palavra. Ela só sabe aparecer nas frases, quando a memoria arrasa o relógio da nossa ausência. Sabes, agora não consigo encontrar um defeito em ti. Não consigo lembrar das nossas discussões, não consigo encontrar as nossas contrariedades, nem mesmo o que nos separava. Agora só vejo tudo o que de maravilhoso aconteceu connosco. Mesmo os momentos menos bons foram óptimos. Porque aprendemos um com o outro, descobrimos que podemos crescer juntos, caminhar junto, lado a lado pela estrada fora. Descobri qua final amar não é procurar diferenças, mas sim aceitar as diferenças. Que o amor não é esperar mudanças, mas mostrar mudanças. Agora sei que amor não é entregar o meu nome nas tuas mãos e vice versa, mas partilharmos as nossas identidades. Agora sei que amor não é abandonar um rumo, mas sim definir um rumo.

Agora sei o que o amor de facto representa. E fico aqui. De costas para o mundo. E penso. Porque só agora sei isso? Porque é que só consigo descobrir o que é a palavra amor, agora?

Talvez porque já não estás aqui. Mas onde quer que estejas, algures, quero que saibas que não guardei as tuas fotos, os teus presentes, o teu lugar na cama, as tuas roupas, os teus livros, as tuas lembranças. Não guardei nada disso.

Preferi guardar algo melhor. O teu sorriso. Os teus olhares. Os teus beijos. A tua intimidade. O teu toque. O teu cheiro. Os teus cabelos. As tuas formas. O teu nome.

Sim, amar-te é isto. Deixar-te ir, no teu caminho, mas ficar com o teu nome guardado neste cofre onde apenas coloco aquilo que me faz andar.

Guardei este amor que sinto por ti.

 

E volto à janela. Ali estava ela, sem se mexer. Na secretaria ficou aquele pedaço de papel, escrito, rasurado com aquele nome. E abro as portadas e deixo o vento entrar. E fico ali. Sentido, de olhos fechados, todo o mundo que ela habita. E sentindo um odor igual à pele que a protege. E sorrio.

E no vazio da sala fica apenas uma leve esperança de um papel que voa e de um corpo que parte. E a janela, aberta, abre-se a um novo dia. Talvez a um novo amor, ou ao regresso do anterior.

publicado por opoderdapalavra às 18:16
27 de Outubro de 2015

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Sentado naquele banco do costume. Olhando o lago do costume. As mãos nas pernas do costume. O cheiro das castanhas que vem queimadas, daquela banca de vendas do costume. As folhas que vermelhas e amarelas, caem das árvores do costume. O vento que chegou do norte, trazendo o frio do costume. O relógio da torre que mantém o andamento do costume.

Parece que a vida se tornou uma rotina do costume. Sem nada de novo, tudo se mantém, como de costume. Estas rotinas trazem-me a saudade. A lembrança de em pequeno, correr sem parar, como se o mundo tivesse um horizonte sem fim. A memória de em pequeno, saltar sem cansar, como se o coração batesse até ao infinito. 

Em pequeno também não via a mesma árvore, nem notava no mesmo lago. Parecia sempre tudo diferente. Até a água que vem do riacho e preenche aquele enorme lago, conseguia perceber que as goticulas tinham sempre um mover diferente, nunca as mesmas do costume. As árvores tinham ramos mais pequenos um dia e crescidos no seguinte. As pessoas eram ora mais risonhas ora mais tristes, mas nunca mais ausentes como agora, sempre como de costume. 

E agora, após estes anos diferentes, tudo é tão igual. As horas, os dias, as semanas, os anos. Levanto-me, como de costume, pelas 10. Sempre com uma pergunta a rondar os pensamentos, o que terá de diferente este dia? E como de costume, tomo um banho quente, visto quase sempre os mesmos padrões e como de costume, como a torrada e uma chávena de café quente. Nem chego a variar o complemento daquele pedaço de pão. Manteiga, magra e de pouco sal. Até a marca, como de costume, escolho sempre a mesma. Saio e percorro as mesmas ruas até ao parque. De dia para dia, encontro-me com pessoas sempre em corrida, despojadas de sensações, coladas a telemóveis, freneticamente ligadas a um stress drogado. Vejo poucos sorrisos, como de costume, e muitas faces sérias, enfiadas num baixo olhar e em lábios contidos. Chego a chocar com pessoas cegas, que invariavelmente não me veem, como se me tivesse tornado invisível. Nem se conseguem ver a si próprias, como de costume. O que diferencia esta caminhada são as lojas. Situam-se no mesmo firmamento do costume, mas as que estavam ontem abertas, nem sempre são todas as que hoje se abrem de novo. A barbearia do Zé fechou faz duas semanas. Cortei ali o cabelo, durante anos e anos, como de costume. Mas isso já não existe hoje. Ou a mercearia da Antônia, que não aguentou a ausência de gente, e morreu um sábado pela manhã, deixando-me à porta, esperando por comprar um pacote de açúcar para o café. Escutei, como de costume se escutam as más notícias, que não suportou as lágrimas da solidão, de uma loja vazia, da falta de palavras, conversas, dizeres e cusquices da vida alheia. 

Em pequeno as ruas eram todos os dias diferentes. Rodava a bicicleta pelos mesmos lugares, mas reparava sempre em algo de novo. Como se nunca ali tivesse estado anteriormente. Tinha outros olhos, outros sorrisos e outras atenções. Mas agora, como de costume, a rotina cai sempre sobre os ombros. E pesa. Pesa tanto que faz dor. Uma dor que traz, como de costume, a falta de vista. Fica-se tão curvo que não se vê para lá do chão. Sei que o céu mantém-se de azul e as nuvens de branco. E sei que algures pela noite, lá em cima, apresentam-se as estrelas, como de costume. Mas apenas as cores do chão e do rasteiro, como de costume, se tornaram a minha companhia. 

Como de costume, já não sei o que a vida trará de novo. Perdeu-se a novidade, padeceu lá atrás no tempo, o mesmo que identificamos na desculpa de nada de novo fazermos. 

E assim me deixo estar. Como de costume, no mesmo banco, onde me acostumo a esperar.

publicado por opoderdapalavra às 16:45
19 de Outubro de 2015

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o relógio ainda não acordou. 

mantém-se num empate de tempo, adormecido pela contagem interminável das horas. 

talvez espere também, como eu, pela chegada daquele instante em que somos interpretados como sugestões da historia. 

é o que este corpo aguarda. fechado no sofá, coberto pela manta que retira o frio e com a eterna chávena de chá na cabeceira, ele fica de frente à porta, um pouco entreaberta. 

ela surge sempre de branco, vem de água em riste, enfia uns comprimidos coloridos, sorri forçosamente e depois mexe e remexe em maquinas, anotando dados e despertando sons. após…o após é sempre a saída. 

e fica este corpo mais uma vez, só com o relógio. ele não se afronta com a minha presença. 

fica enternecido no seu canto. não mexe os ponteiros em demasia. já deixa um certo coma tomar conta do seu mecanismo. sente as rodagens gastas, rolamentos desabituados. 

e eu, no meio de pensamentos. perdidos. datas passadas. manhãs para trabalhar. noites com o pesadelo da duvida, e deitado sem comer, ou um beijo sem dar. e tudo ficou lá atrás. ficou onde fica o pó. depois vieram as urinas difíceis, as vezes em que me perdia as desculpas. vieram os momentos ausentes, as dificuldades da memória, os funerais dos amigos e familiares, e mais poços de lembrança. tudo foi ficando sem tinta, os pincéis deixaram de ter flexibilidade. ficou tudo rijo, a pele, os lábios que não falavam e os dedos que não mexiam. 

a rigidez do corpo é uma surdez do tempo. ele não grita, não chora nem clama. apenas padece, todos os dias mais um pouco. e não pede licença. apenas o faz. 

ela volta. e revolta mais uns comprimidos. levanta-me a cabeça e empurra a água. sinto que algo se espalha por dentro. olha-me os olhos. vê bem fundo. as minhas retinas ficam impávidas. 

parece dizer algo, que não ouço. apenas vejo-lhe uma boca em mexidas. 

se o relógio viajasse, eu iria com ele. lá atrás, onde ficou o pensamento. e convidava-a. ia mostrar-lhe uma carta. não uma qualquer. a ultima. aquela onde ficou escrito o que viria. o que iria chegar onde apenas chega o que deve.

tenho ainda em memória. lá no fundo, do poço. vou buscá-la. aqui está ela. leio-a. mas ela teima em não me escutar. continua remexendo os lábios, andando em círculos, como que desenhando rodas e corrupios de rodas. 

cá vai a ultima,

a data não interessa, um dia alguém a vai ler. 

escrevo-a para que saibam que um dia existi. e para que ela, a que tiver o afrontamento esplendoroso de a ler, possa perceber que certo tempo, algures lá atrás, onde o pó apaga a lembrança, alguém a amou.

sim. amei-te. tu que a lês, estas palavras corridas, sem tempo para te apanharem, sem tempo para me tocares. mas amei-te.

é duro perceber que se ama alguém que não se vê. mas o que é isso de amar afinal?

pergunta retórica sem resposta digna de ruborizar o caule das faces. 

são simples definições que a embelezam. amar é só sentir o que não se sente pelos dias que só se anda. amar é andar e saber que se anda. amar é como lavar a cara pela água que cai na bacia e saber que ela nos toca a pele de arrepio. não é apenas lava-la e depois achar que só se lavou.  amar é pegar no casaco e cobrir o corpo, dando-lhe o aconchego. não pode ser só vesti-lo e achar que ele apenas serve para servir mais uma imagem no espelho.

amar é ter-te. aqui, nestes braços que imaginas como compridos, capazes de te atirar ao ar e apanhar de novo. e senti-los rodarem sobre ti, e amarrarem-te junto a mim. amar é olhar-te, assim como quem olha quem nunca viu, de espanto, lembrado nos lábios que um dia beijou. e guardar esse beijo. numa gaveta escondida atrás dos armários, onde ficam os segredos, onde ficam as historias que só contamos ao nosso ego. sussurra o meu nome entre os demais, para que eles saibam que é de amor que falas. não abordas qualquer identidade, mas sim daquele que te levou na esperança e te trouxe com esperanças. que te deu luz e na luz trouxeste parte de quem te deu.

amar é tocar-te, no fundo das questões que nunca se discutiram, por vergonhas ou meras entre linhas. 

amar é tu escreveres sem palavras, manteres a página branca, mas saberes que ali está tudo dito. imaginem-o. é só isso. o amor não se vê. nem se pode. senão não era amor. sente-se. mas sente-se porque ele é fugido, escapa por entre os dedos, as oportunidades e vai de longe para bem longe. não se pode andar distraído. ele passa, assobia e logo deixa rasto. se não atenta, fica-se sem lastro, sozinho nas membranas dos porquês. porquê é que me acontece a mim? porquê ninguém me ama? porquê não encontro aquele que imagino? porquê quem amo não me vê?

porque não escutamos o seu falar. aquela conversa sem frases, aqueles dizeres sem diálogos. porque ele não se pode escutar. só ouvi-lo bater, pum pum pum pum, como uma locomotiva que se aproxima, a todo o gás, saltitando com pulos frenéticos e andar poético. ele vem sem pudores, arrebatando tudo por onde passa, e as pernas tremem, os braços esfolam-se por agarrar, mas as mãos soam, e a cabeça fica na solitária ideia de um só pensar. o de quem se agora ama. acabado de chegar. 

será assim que te vais sentir. e eu também quando te vir. eu sei quem és. não te posso descrever em todo. mas digo-te que já amo os teus cabelos, parecem ondas do mar, voando no som que o vento traz. os olhos são como esmeraldas. até na noite eles te brilham na cara. e os lábios saem-te do corpo, apetecíveis pedaços que beijam os meus. terás mãos de princesa, e corpo de mulher vivida, sem pecados. 

serei como um escravo desse teu amor. um daqueles que se entrega por completo, na riqueza escrava de te amar, sem mendigar um pedaço que seja de ti. apenas saber que estás ali. 

serei submisso ao teu tempo. ele será o meu. teremos apenas um tempo. e sem que ele possa se perder, e trazer um contratempo qualquer. 

serei a tua entranha de cama. a que te aquece, que se embrulha na pele que te esposa. 

serei a musica que ouves pela madrugada, dizendo-te sempre que és a mais bela aurora e a única penumbra que refresca o desejo matinal de te enriquecer.

serei o galo que te acorda, o andor que declama o teu nome e o doce anjo que adorna o teu ventre.

e quando leres estas folhas, não as rasgues. deixa-as ir com a brisa. levaram a saudade. a lembrança. aquela que me foi levada pelo relógio que conta as horas do meu caminho. 

quando leres esta carta estarei perdido sem saber o teu nome. perdi até o meu. o de todos. só terei o relógio. em contagem. dia e noite após dia e noite. nada mais.

estarei numa cadeira qualquer. algures enfiado num quarto. não me perguntes onde, porque já não tenho lembranças de nada. perdi tudo. não tenho nada.

dirão que é da idade, mas nem essa sei. ou que o meu cérebro padeceu dela. mas nem ele saberá também. 

por isso, lê esta carta e deixa-me amar-te, no sonho de um dia ter-te conhecido. quando ainda tinha a hipótese de o fazer. porque perdemos sempre o que de melhor a vida nos dá, só porque pensamos que amanhã ela nos dará ainda melhor. mas depois o melhor nunca chegou, porque ele já ficou lá atrás, onde o pó tudo apagou e esqueceu.

não assino, porque já perdi a esperança do meu nome.

 

e o relógio parece não ter acordado ainda. vou manter-me a dormir. poderá ser que um dia chegue o fim do sono e possa finalmente apenas repousar na memória dela, junto ao seu amor. 

publicado por opoderdapalavra às 23:52
12 de Outubro de 2015

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Procuro nas palavras algum encosto, um abrigo que me possa abraçar. Não que me sinta triste ou desfazado dos sentimentos. Apenas porque por vezes perdemo-nos nas conversas, nas frases que proferimos, e nem conseguimos encontrar tudo o que gostávamos dizer, um ao outro. E ficamos por ali. Perdidos. Sem conseguirmos encontrar o nosso nome no ventre do ego. Ele orienta-nos a voz das entranhas, que fala por todos os poros da pele e faz o cérebro cansar-se de pensar. Vem depois o aperto do peito, como que amassando toda a expressão de amo-te. O ego é um turbilhão de ideias. Ele não para de me dizer que tu isto ou tu aquilo. Gostava de saber onde é que tenho, neste corpo esguio, o botão, aquele on/ off onde se desliga esta parte interminável de mim. Ele não se coíbe de falar de vitimas, de culpas ou de suposições, apenas essa palavra, supor que tudo o que me rodeia é apenas a ilusão dos olhos. Que se dane ele. Eu quero é dizer-te aqui que as manhãs podem sempre ter um sopro desnorteado, mas a tua voz é o despontar de um calor que me abraça e conforta o corpo. As tardes podem nunca ter um fim, mas as tuas palavras sempre lhe dão um rumo. As noites podem mesmo escurecer os pensamentos, mas aquela frase que me diriges, sarapinta o tecido do céu com milhões de estrelas sorridentes. Tens a fome de beijar estes lábios, que esperam sempre por aquele simples beijo. Deixa-me dizer-te que os teus cabelos curtos trazem-me a saudade de pensar que tens a forma de uma qualquer musa. Ó inspiração que se apodera dos meus dedos, estes que se perdem por entre o teclado finito e dele estrai todo o texto dos sentidos.

Não podia encontrar outra forma de dizer-te isto. São anos e anos a sonhar com a tua chegada. Não podia adiar tudo o que a vida foi construindo, nem mesmo podia separar-me dos sinais, esses acontecimentos que nunca percebemos, que me trouxeram o teu nome, até junto de mim. Essa identidade que apaixonou este meu, ao sorrir pelo teu sorrir. E estes olhos que choram pelo teu chorar. E estas mãos que soam pelo teu suar. E estes braços que te procuram quando me procuras. Não se pode esconder o que a vida trouxe à luz dos dias. Não se pode manter na sombra tudo o que a vida destapou para que fosse sentido. Não se pode negar o que está escrito. Não se consegue em páginas, papéis de escritório ou páginas sociais, mas sim naquele lugar onde apenas fica o que de facto é incondicionalmente sentido. É aí que está o meu amo-te, aquele que sempre que ouvias o silencio e mesmo sem me ver, ele estava lá. Ele esteve sempre quando acordas, quando respiras, quando pensas, quando mexes na caneta procurando o rascunho, ou quando bebes aquele copo de água que te fastia a sede. O amo-te esteve sempre nas rasuras do dia, nos rabiscos da noite, nas ausências e nas presenças, nos olhares sem motivo ou nos motivos do olhar, nos beijos perdidos assim como quando perdidos em beijos. Ele é apenas tudo o que fica, com o teu nome, como o teu corpo. Ele é o sopro que respiras...melhor, o meu amo-te sempre foi o meu respirar que te entrego, partilhando contigo estes pulmões que se entregam no teu respiro. Ele é o sonho que vivemos e o que ainda temos por viver. Ele é o ontem, o hoje e o amanhã. E mesmo que não saibas mais o meu nome, saberás que esse esquecido te ama muito.

Eu sei que o meu amo-te é pouco. Quase nada nesta infinitude de universo. Mas é tudo o que tenho. Procurei muito mais, mas não encontrei. Aliás, este amo-te supera mesmo tudo o que detenho. Despojei-me de lembranças sem sentido, recordações que apenas faziam pó, memórias que pesavam como baús de lixo, tudo para conseguir obter este amo-te. Fiquei só com a roupa de fotografias tuas. Todas aquelas que me fazem pensar que afinal a vida tinha razão... vale mesmo a pena dizer-te amo-te...

publicado por opoderdapalavra às 23:16
05 de Outubro de 2015

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Temo tudo e não temo nada.

Fico tantas vezes, que já me esqueço de as contar, a olhar aquele espelho quase desnudado de reflexo. A manhã é sempre um problema maldito. Olhar esguio e fechado, carne dura e mal formada, cheiros que matam qualquer insecto e um hálito de cor púrpura... como se fosse possível ver a cor de um bafo carregado de lástimas. Sempre a mesma cara. Anos e anos a fio a ver sempre o mesmo gajo daquele lado. Sempre na esperança de chegar um dia que pudesse contemplar alguém diferente, de anos para trás e não para frente do caminho.

O banho é a água a cair solenemente no corpo. Quente e fria, fria e quente. Nunca acerto com o raio da torneira, maldita sejas ó escolha ambígua sem ambiguidades. E de repente a vontade de me jogar na sanita, despejando-me de todas as maleitas que o passado me carregou... ou carreguei eu este corpo efémero. Coitado, tiveste azar em seres o escolhido. Podais agora ter alguém que te tratasse melhor, que te levasse a comer a sítios diferentes, chiques, de comida saudável, a beber um vinho furtado e a envolver-te com perfumes de mulheres únicas. Mas não, fui eu. Tabernas com cheiro a bêbados, ruas encharcadas e lixos, putas que não sabem se lavar e comidas repletas de gorduras saturadas.

Fodas que este doeu a sair. Duro como cabo de aço que atravessa canais. Sinto-me vazio. Preciso do café. Meio trago de aguardente no acompanhamento. Pão seco e umas tiras bolorentas de presunto. Sair de casa é sempre o suplicio de achar que é tempo perdido ir à rua. A mesma que abriga os amigos do costume. Perdidos de nome, sem nome para chamar, são cães de fila que se juntam pelos caixotes que abrigo nos meus braços. Lanço as suas entranhas no camião. Despoja-se a cidade dos seus infames conteúdos, e ficam os ossos roídos pelo tempo. Esse ladrão que me deixa com o mesmo rosto e me leva os anos.

Mas eu não temo nada nem nada temo, apenas fico agastado por o espelho manter a mesma imagem, daquele lado que não consigo apagar, a olhar-me, feito estúpido que espera que a vida o leve, quem sabe para o corpo de uma mulher.

publicado por opoderdapalavra às 23:44
02 de Setembro de 2015

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Naquela tarde havia um sol radioso, um céu em esplendor azul e uma pitada de vento que soprava de sul. Calor era o termo mais usado e sentido. A transpiração percorria toda as conversas e a lentidão as passadas. As ribeiras estavam repletas de corpos transeuntes e os pés eram mergulhados na água esfriada pela corrente. Gelados na boca, água na pele e um lenço pela cabeça. Os pássaros escondidos nas folhas que ainda restam, os insectos metidos nos buracos e os gatos adormecidos pelas sombras. Mas havia ainda os cães, que deixavam a língua suavizar-lhes a temperatura da alma.

E havia a janela. Aberta. Os dois lençóis de branco, esvoaçam pelos cantos, e as ventoinhas parecem querer arrefecer o ambiente. Ele está estendido sobre o colchão de molas. Ela retira mais uns quantos suores pelo chuveiro. Após, veste uma meia em liga e uma cueca fina que lhe desenha as nádegas e o intimo. Coloca o perfume que torra os odores e os lábios inunda-os de batom vermelho. Regressa ao quarto e repara num corpo despido que se estende pela cama. Adormeceu. Chega-se aos cabelos, mexendo-lhe em rodas, massajando –lhe, no mesmo tempo, o peito. Ele desperta. Os olhos fitam-na. Sentem-na. Aproximam-se dos seios rijos. A língua é uma cobra que sai do cesto e os abraça. Ela beija-o nas orelhas, pescoço, mordendo-lhe a pele. Ele retira as mãos do adormecimento e acolhe as longas pernas de cetim. Tem o pudor de subir, mas os dedos são astutos e chegam-lhe à lingerie cor de prado. E retiram todo o desejo, arrastando-o para dentro. Movem-se como pétalas estendidas pelo corpo de prazer. Gemem-se as palavras, os beijos que se trocam nos lábios, as vontades de entrar e penetrar-se o mais puro dos íntimos. Retiram-se os adereços, colhem-se as sensualidades e cobre-se a pele. Calor com calor. Suor com suor. Movimentos audazes, posições arbitrárias, partilhas silenciosas. Chega-se à fronteira, onde se pondera o fim ou retorno. Opta-se pelo segurar ali, naquele momento, a preciosidade de se sentir, no fundo da entranha, a junção entre intimidades, o fruto que se quer, a paixão que se arde em lenha sem fogo. E trocam-se olhares, intensos. Retinas que se dilatam, tremores que se soltam. Não se fala. Não se conversa, apenas se comunica pelo que se tem e se dá. E decide-se. Retorno. Voltar a dançar um no outro.

E o resto fica no vento que de sul vem e leva. Nas pessoas que se banha e nesse calor que apodrece o dia e o joga na escuridão de uma noite de verão.

 

publicado por opoderdapalavra às 19:39
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