podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
24 de Novembro de 2013

 

 

 

Deixo ficar as memórias. Guardei-as num local onde já não posso recordar-me do que se passou. Ficou tudo em fragmentos de momentos, pouco mais. Sei que te conheci um dia, mais um dos muitos que vivi, em que nos cruzamos casualmente numa rua, como tantas outras, e trocamos olhares, como tantos outros que troquei. Mas o teu era de facto diferente. Tinha uma espécie de mel no seu intimo. Senti toda a tua doçura naquele simples olhar. Parei nesse instante. Fiquei só no meio do passeio. Tu já caminhavas por entre a centena de pessoas que saiam, apressadas, da estação do metro. O teu andar era uma mera subtração entre o que não desejamos e o que muito procuramos, sendo igual ao divino momento em que encontramos o que afinal sempre existiu, apenas nunca tínhamos visto. Mas eu via-te. Tinhas um vestido meio rosa, meio porque me distrai tanto com toda a silhueta que nem reparei as outras cores. Os teu cabelos eram soltos. Os homens perdem-se sempre no tom dos cabelos, na sua forma, no seu brilho. Mas eu não. Apenas notei na sua cor. Onde fiquei para sempre perdido foi naquele olhar. Como podias tê-lo soltado em mim e depois foste embora, como eu nunca tivesse existido? Ainda corri pelas pessoas, empurrado e empurrando uns quantos, mas o perfume do teu rasto já tinha ficado ausente. Sabes que fiquei horas à espera que voltasses ao mesmo local onde nos cruzamos. Mas nada. Voltei, à mesma hora, dias após dias, semanas inteiras, e até um mês passou. Mas nunca mais te vi. Não sei o teu nome, o som da tua voz, o cheiro da tua pele, as palavras que costumas dizer. Ainda fiquei apontando algumas conversas que poderia ter contigo, e outros assuntos que poderia abordar sobre a minha pessoa, que te interessassem. Mas ficou tudo no papel. Até ao dia em que deixei ficar, naquele mesmo sitio onde os nossos corpos tiveram um encontro tão imediato que ficou morto na mesma ocasião, uma carta, debaixo de um pedra, contando todo aquele meu sofrimento em nunca te ter conhecido. Chovia, eu sei, mas até o cuidado de a colocar num saco, eu tive. Poderia ser que algures no tempo, poderias passar, e ter a curiosidade de a ler. Saberias então tudo o que se passou. Eu? Parti. De coração despedaçado, perdido na amargura de saber que a vida me deu uma única oportunidade de me apaixonar, e eu, deixei-a fugir, por entre a multidão. Tudo porque fiquei tão emocionado e perplexo com o teu olhar. Nem tive a coragem de te gritar, de inventar que tivesses deixado algo para trás, eu por exemplo. Não tive a vontade de correr, naquele mesmo segundo que te afastaste, e confundir-te com alguém, mas depois apresentando-me e saber assim que tu eras.

Tudo isto deixo guardado. Quero esquecer, por isso afasto-me de todas as lembranças que possas me trazer.

 

 

O meu nome é Sara. Li a tua carta. Não sei quem eras tu, nem mesmo agora consigo saber. Mas sei que te apaixonas com intensidade. Gostava de ser assim. Olho muitas pessoas, todos os dias, mas nunca me perdi por nenhuma delas. Nunca consegui sentir a emoção da paixão por alguém que se cruza numa pequena fracção de vida e logo fica perdido na bruma do tempo. Escreves palavras que gostava de as escutar de ti. Da tua voz que apenas imagino na rasura da tua escrita. Partiste e nem consegui dizer-te obrigado. Como encontrei a carta? Por acaso tropecei na pedra que colocaste por cima.  Curiosa com o saco, abri e comecei a ler. Identifiquei-me pela descrição, pelo vestido meio rosa, com amarelo e pelo olhar de mel. Apenas uma pessoa me tinha dito que o meu olhar é doce. O meu pai. Não sei onde possa estar, pois deixou-me enquanto menina, e foi embora com a morte. Gostava que me perdoasses de nunca mais ter passado. Estive fora, ausente por férias, descanso recorrido à vontade de fugir. Estou só, sempre estive só. Não consigo estabilizar uma pessoa ao meu lado. Sou demasiado ausente de confiança, e deixo-me levar pelo rio do temor. Medo de quê? De perder, como perdi o meu pai. E quando dou conta, não foi a morte que me levou mais um corpo, mas o falecimento da minha real presença. Fico sempre sentada à entrada de casa, esperando que volte, mas nunca o faz.

Desculpa, mas não consigo escrever mais. Apenas deixo, no mesmo saco, com a mesma pedra, uma resposta, e esperando que um dia possa conseguir encontrar assim alguém...

 

O varredor passou e levou aquele saco. Colocou a pedra num canteiro. A carta ficou rasgada de vida. As palavras deixaram de existir. A vida continuou. E a multidão voltou a sair da entrada do metro. 

publicado por opoderdapalavra às 23:00
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