podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
08 de Setembro de 2013

 

 

 

Todos os dias pensamos ter o sol nas nossas mãos. Olhamo-lo como se fosse nosso em mais um dia, em mais uma etapa que começa no seu nascer e terminará com o seu adormecer.  Em todos esses dias, procuramos ser donos de um mundo que, iludidos, detemos o máximo poder. O poder de ordenar, de julgar, de decidir, de criticar, de beijar, de abraçar, de amar, de odiar e até mesmo o poder de ignorar ou de se ser infiel.

Todos os dias tudo acontece assim. Estes desejo de sermos deus do nosso dia enfatiza-nos na demanda de sermos detentores de um tal Super poder, fora do alcance do próximo.  E assim somos todos os dias.

Acordamos no sobressalto de uma preocupação com o despertador que já tocou três vezes depois da hora estimada. O atraso provoca um melindre que nos fragiliza de imediato. No entanto, nesse mesmo momento, lá fora, o sol, ergue-se. Ouvem-se aves, o vento que teima, mais uma vez, em soprar e as árvores que repentinamente se encontram... no mesmo sitio onde ainda ontem se encontravam.

O café da manhã já viola o horário de ponta e corremos como doidas presas, tentando escapar à falta de pontualidade. Essa frágil circunstância tira-nos poder, torna o ser humano num alvo muito fácil, mas perante outro ser humano... sim, porque perante a vida, ela em nada se incomoda, pois que ponteiros são esses que por aí contam um tempo que apenas ao tempo de um pensamento humano consegue dar resposta? E assim tudo se mantém igual todos os dias.

E chega o meio do dia de sol. Ele, lá no alto, mantém-se intacto, apenas observado com espanto por alguns e nada ignorado por tantos mais. Seria por acaso trabalhoso se por um pedaço de momento, se olhasse só e se admirasse quem nos ilumina?

A noite chega e o frenesim de regresso. O stress que fomenta a dispersão de bom humor e retornam os mal dizeres, os desaguisados, as corridas às ultimas compras, os telefonemas parvos e as conversas de livrar consciências,

“Então o teu dia foi bom?”

“Sim, e o teu?”

“Também.” , e dedo no gatilho do volume de rádio, ouve-se música de fundo que passa a conversa para os fundos, e assim se vai até casa. Arrumar umas coisas, banho nos miúdos que se sujaram e podem apanhar sarna, uma palmada no rabo de um que atirou com espuma aos olhos do outro. Sopa quente, comida reaquecida, televisão acesa que sempre serve para fintar o desassossego de quem não tem mais nada para dizer, e xixi cama. Ufff, ouve-se no pensamento. Já está. Agora é só não dar muita conversa, ver a novela, inventando que a melhor parte está sempre a acontecer, lavar os dentes, um beijo seco de lábios dormentes,

“até amanhã” e quase roncar de imediato, não vá um deles querer algo mais, talvez um espécime de acasalamento animal, coisas que os antigos gostavam para tirarem prazer do amor...

e lá longe, o sol, inerte, vive, como a vida, o seu rumo, longe da ideia parva de se pensar que todos os dias alguém pensa ter o sol, o dia, e até a vida nas suas mãos... só quando acordar para dormir para sempre.

publicado por opoderdapalavra às 20:27
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