podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
06 de Dezembro de 2012

 

 

“Porque cai um homem?

O que faz um homem em queda?

Grita?

Sustem a respiração, contraindo os músculos, para mais rápido desfalecer?

Sente o corpo deslizar e faz uma revisão em flashes, de toda a sua breve existência enquanto ser vivo?

Clama aos céus em busca de uma mão qualquer, uma divindade absoluta e suprema, que o segure e salve da queda?

Olha em volta e procura o sentido para o derribamento, para aquele momento decrépito e avassalador?

 O Abismo é uma curta fronteira entre o início do fim e o fim de si mesmo. Dar o passo, perder do pensamento o receio da consequência, não vislumbrar o que fica ou como fica, apenas centrar na efémera passada para o vazio, onde os pés já não sustem o corpo, onde a consciência deixa de fazer sentido, onde o esquecimento ganha sobre as memórias, onde o nome apenas se torna mais um decorativo do que uma identificação.

Procurar respostas na queda é encontrar ainda mais perguntas.

E o corpo?

Qual a sua posição, quando cai?

Qual o seu peso, a sua massa física?

Pernas que se perdem no ar, braços que apenas caem, perdem a força humana, o músculo.

A cabeça é uma caixa de Pandora de pensamentos. De repente, nascem como pequenas sementes, atrofiados durante anos, e que agora brotam, sem nexo, apenas formatando perguntas:

Porque é que teve de ser assim?

Porquê eu?

Que dirão os que esperavam mais de mim?

Haveria outra alternativa?

Como foi isto tudo acontecer?

Porquê Deus?

Merda, porque é que tinha de estar à hora errada no lugar errado?

Listas e listas contínuas de questões que se atropelam na cabeça, procurando explicações para o sucedido, sem que elas possam alguma vez evitar, ou voltar atrás, e corrigir o que foi feito e o que está a acontecer.

E o corpo, cai de costas ou de frente?

Poder-se-á escolher como se cai?

Controla-se o corpo, na luta contra a gravidade, a força centrifuga?

A queda é igual em todo o seu sentido, em todo o seu momento. Nestes ensejos podia haver a sensação de Super-herói, transformar o casaco numa capa multicolor, como nos filmes animados que percorreram a nossa vida de miúdos, onde o corpo flutuaria como uma pena, deixando de ser peso em força, sempre a descer, e conseguir assim controlar, movimentos, escolha de direcções, para cima, para baixo, para o lado esquerdo ou direito, em diagonal, conseguir dominar a vontade do indomável e contornar a perspectiva do destino.

Super-herói seria regressar ao ponto de partida, pegar em todos os que olham o Abismo, sorrir-lhes como sinal de esperança e levá-los para um lugar seguro, longe daquele inferno absurdo, uma casa de família, os braços da pessoa amada que os espera, um sorriso de um filho que os aguarda, os lençóis de uma cama que os resguarda. Ou sair no voo celeste do espaço, atingir as estrelas, e no infinito mudar o sentido do planeta, capacidade de tornar o passado em presente, viver o antes de acontecer sabendo que iria acontecer, mas evitar que acontecesse, e assim prevenir, o embate, explosões, quedas, gritos que ficam perdidos, corpos que não tem posição exacta quando caem, pensamentos que não são mas ao mesmo tempo saem como abelhas de uma colonia ferida, perguntas que se jogam no vazio, flashes de tudo o que ficou para trás.

Esse seria o tempo de Super-herói, o mesmo que conseguiria evitar a queda. E assim, nada teria acontecido, nem mesmo o que seria escrito, nas folhas que brancas caiam, como corpos perdidos, no abismo da verdade.

Como se pode evitar a queda? Escrevendo que não se cai?

Quando se cai não se pode descrever outra coisa, é o firmamento da descida…mas até onde se pode e se consegue descer?"

 

In... Um livro a nascer.

publicado por opoderdapalavra às 23:32
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