podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
23 de Julho de 2012

 

 

 

 

Já não conheço ninguém na minha rua.

São anos, aqueles que me separam de quando esta rua, a nº 7 da cidade, tinha apenas dois prédios, alto betão de estendais ripados em sete andares. Tinha a mercearia da Sra. Rita, a quem pedíamos uma pastilha elástica, sempre que vínhamos da escola. O café do casal Pereira, ela ostensivamente carrancuda dos dentes e ele sempre um gentleman com todas as senhoras que por ali paravam a tomar um chá. Pudera, dormia com algumas delas, mulheres separadas dos maridos que haviam partido para a emigração, em busca de outros dinheiros. Havia sempre o Sr. Afonso, um polícia gordo, com um bigode a arrematar a boca e um cabelo repleto de caspa, que cobria os ombros, como neve que cai, levemente. Havia as crianças que corriam como loucas, gritavam como doidas, jogavam à bola e caiam no chão, derrapando e rapando pele até o sangue pintar a rua. Havia risos e gargalhadas, brincadeiras sem fim, perigos que estavam longe dali. Havia as horas tarde, sem que a noite parecesse querer adormecer, e as manhãs soalheiras, de calções amarrotados, piolhos vesgos que ainda despertavam e meia dúzia de remelas que se colavam aos sobrolhos, como parte do próprio olho. Havia odores que já dormiam connosco, mas que nunca nos separaram dos amigos que vinham e saltavam, à pedrinha, ao saltimbanco, às árvores e jogavam o berlinde pela estrada fora, sem que o carro viesse e nos levasse até ao fim das feridas.

Nunca nenhum de nós foi levado ao psicólogo, ao doutor ou ao psiquiatra, porque estávamos irrequietos, ou porque nunca parávamos de falar, brincar e desarrumar a rua. Nunca fomos levados por nenhum homem mau, daqueles que vem com um enorme saco e nos levam para longe, para onde as florestas são gigantescas e repletas de fantasmas. Nunca nenhum reprovou, sempre fomos bons estudantes, sabíamos que aprender era maravilhoso, desde a lua que nos circunda, até ao número mais ínfimo que possamos imaginar. Nunca nenhum de nós foi malcriado com os mais velhos, com quem riamos devotos pela alegria que a família, aquela que a rua sempre engalanava, mantinha.

Mas passaram os anos. Mais prédios vieram, mais pessoas, mais carros, e mais solidão invadiu este lugar. Já não vejo as árvores, nem o jardim, ou mesmo o campo, essa planície onde perdíamos as vistas, pelo corredor do rio. Já não vejo o céu, coberto pelos andares sem termo daqueles enormes edifícios que agora tem pessoas sem mais fim. Ninguém se cumprimenta, nem um olá conseguem dizer. Ninguém mais sorri, nem mesmo um olhar conseguem fazer. Estão todas tristes, fechadas nos seus mundos, aqueles que nada existe, apenas o horizonte da sobrevivência, do egoísmo, do pisar o próximo para não afectar o caminho, ou o pior dos pensamentos, querer apenas ter, obter e deter, tudo o que de material existir, para assim conseguir o poder.

Esta rua está velha, suja, cuspida de lixo que inunda a vista. Esta rua não conheço. E daqui que a vejo, desta velha janela abandonada, eu solto o meu suspiro, o ultimo, daqueles que apenas se vão no ar, na saudade de um dia, poder voltar a ter a rua que um dia existia.

publicado por opoderdapalavra às 22:34
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