podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
15 de Julho de 2012

     

 

 

 

 

Naquela manhã fui buscar o antigo carro de rodas, que havia esquecido nos fundos da garagem. Nem me recordo, ainda, porque o deixei ali, perdido no entrelaçado de teias, aranhiços que assim que apanham um pedaço de abandono logo o preenchem com fios e refinadas liças. Tento encontrar razões para largar o que costuma fazer parte do meu passado, mas nunca consigo desmontar o pensamento da memória. Ele é demasiado pesado para se desfazer como qualquer coisa depressível, mas talvez seja essa a piada.

Mas falava do carrinho. Montei-o quando tinha uns 12 anos, tábuas rasas, quatro rolamentos, e uma corda que guiava um pau, qualquer coisa como um volante. Costumava percorrer ruas abaixo, sempre a descer, como uma vertigem descontrolada, sem domínio nenhum. Cheguei a atropelar um velhote, que ficou sentado no meu colo, olhando-me com um ar petrificado no espanto e na incerteza de estar ainda vivo, ou não. Foram imensas as histórias que vivi com este carro. De facto, mais uma vez, as lembranças levam-me em viagens, mas ficam sempre os factos, aqueles que nunca se alteram, lembre-me ou não deles.

Chamaram-me da casa. Era hora do adeus. Tudo chega e tudo parte. Sempre que me esbarro com o sentido inato do tempo, fico com a melancólica sensação de que o meio foi sempre, e sempre será, insatisfeito. Poderia até preenche-lo com meia dúzia de frases, apenas para o completar, ou dar a ideia de satisfação quanto a esse complemento, mas não, o princípio das coisas é demasiado isento de subjectividades, e o fim, bem esse, é o supra sumo da objectividade, acabou e ponto final. Tal como se termina a frase, o paragrafo, o capitulo, o livro, tudo. Mas e o meio? O entretanto, o intervalo entre estas duas partes? Do que depende este período? De nós? Do que possa fazer ou deixar de?

Despedi-me naquela manhã soalheira, sem temperatura ou sons que pudessem deixar recordações, mas ainda assim, com a imagem de ser uma manhã de recuperar um carro de rodinhas, em que um dia fui feliz, mas que nem sempre me recordo de como o fui, talvez por isso mesmo, que a felicidade não é um simples sorriso, mas um estado, em que latejamos a nossa consciência com o bater da nossa vontade… de lembrar.

Adeus meus queridos, quem me ajudaram a construir memórias, mas a quem me roubou o sentimento de as recordar sempre vivas, e me despertou para o sabor, de que mesmo as memórias, podem morrer, ter um fim… objectivo.

 

 

 

 

 

 

publicado por opoderdapalavra às 23:11
Julho 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
16
17
18
19
20
21
22
24
25
26
27
28
29
30
Posts mais comentados
5 comentários
4 comentários
4 comentários
3 comentários
2 comentários
2 comentários
2 comentários
2 comentários
mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
últ. comentários
Encontrei o texto hoje...Uma pequena correcção, as...
Obrigado Isabel. Concordo consigo, os Amigos apena...
Carlos, bonita homenagem a um amigo. Que o Luís re...
O que mais me chama a atenção, neste...
A tua escrita acompanha o teu espírito. Amadurece ...
Grata, sorrisos :o)
Quente.Arrebatador.
Leitura muito agradável :)Convido a leitura do meu...
Excelente!!Sinto-me representado.Sim, sou eu: o po...
O discurso é apelativo aos mais nobres sentimentos...
blogs SAPO