podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
07 de Março de 2012

Escrever.

Rodo a cabeça num arco traçado no meu imaginário, sinto aquele estalo que me liberta a pressão muscular da jugular, onde corre sangue quente, talvez repleto de uma mucosa e viscosa partícula a que se dá o nome de gordura, tem ainda o açúcar, e os glóbulos, e quem sabe, alguma merda qualquer que me deseja enfraquecer o cérebro e que me está a matar suavemente. Mas que se lixe, não será por isso que deixo de rodar a cabeça.  É estranho, de facto, pensarmos em tanta coisa, apenas porque executamos um movimento simples e, à partida, relaxante. De facto, o nosso pensamento produz um abismo em espiral de imagens que nos podem transformar num realizador instantâneo de filmes, sejam de terror, como no outro dia, quando olhava uma mulher que me disse que não ao sexo e eu imaginei-a logo a suplicar-me para que não a rasgasse com uma faca laminada pelo senhor do talho da esquina, aquele mesmo, que corta os bifes com um ar de serial killer transtornado por uma infância abandonada e onde extravasaram momentos de violência gratuita… ela gritava “por favor, por favor, eu faço sexo contigo, mas não me mates, peço-te, ó grande homem que brotas em mim o frenético desejo de ser possuída…”, claro que a seguir imaginei um filme de drama, armando-me em homem ferido, algo do género de Clark Gable, e virei as costas e fui embora, deixando-a a chorar e a suplicar, de novo, mas por umas horitas de sexo doce e carinhoso… e depois acordei, sem sexo, sem mulher e… sem acção, apenas com o “corta” do meu pensamento…

Estou à cinco minutos a tentar escrever e continuo a vaguear por disparates do meu pensamento, apenas porque faço filmes no ar, coisas que acontecem a todos os momentos de pura distracção, sem nexo. Penso agora mesmo no homem que hoje de manhã me abordou para vender um telemóvel de última geração. Bonito no design, “ Feito precisamente para pessoas como você”, fiquei desde logo estarrecido com a ideia, outra vez o pensamento a funcionar como máquina projector de filmes mudos, de que alguém no outro lado do mundo sabia da minha existência e pensou “ Vou inventar um telemóvel de ultima geração, sei lá o que isso será, mas para aquele tipo bem-parecido, que escreve umas coisas, para se tornar em alguém mais socialmente extraordinário”…. E comprei. Vim para casa a correr, pois ele disse que o tinha de carregar, e quando cheguei é que me lembrei, “ Então ele vendeu-me o aparelho, mas sem caixa, apenas o aparelho, e carrego-o com o quê? Pilhas? Não dá. Carregador? Não trouxe.” Porra, fui enganado, quer pelo vendedor, quer pelo tipo do outro lado do mundo que o inventou para mim. Pior que enganado uma vez, é enganado duas vezes. Mas, como sou tão perspicaz, não deixei de andar pela rua com o telemóvel no ouvido, fingindo, mais um filme, que estava a falar com alguém… falei com tanta gente, que parecia sempre ocupado, cheguei mesmo a ser interpelado por várias pessoas, a quem rejeitava a conversa sinalizando o atender do telemóvel, e chegou  mesmo a haver uma mulher bonita que me disse, “ Desculpe, mas pode-me ajudar” e eu, durão, fiz-lhe também sinal que estava ao telemóvel, e ela sorriu e acho que me soou a um palavrão qualquer quando virou as costas e se dirigiu a outro homem a solicitar-lhe ajuda para procurar o seu cão… enfim, não posso deixar o meu look fabuloso com um telemóvel para ir ajudar uma mulher linda de morrer, com quem podia travar algum tipo de conversa interessante, mas que me deixaria numa situação incomoda ao desligar a chamada com a pessoa com quem estava a falar… mas agora me lembro, eu não estava a falar com ninguém, apenas comigo próprio… irra, já voltei a perder uma oportunidade de ter uma mulher bonita ao pé de mim… mais uns filmes que o meu pensamento voltou a rodar…

Sabem, estou cansado, não consigo escrever, estou sem ideias, vou-me deitar e descansar. Isto de pensar, cansa.

publicado por opoderdapalavra às 19:54
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