podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
29 de Fevereiro de 2012


Lenda Finlandesa

Era uma vez um rapaz chamado Severino que partiu em busca de fortuna. Atravessou colinas, prados e florestas cerradas até chegar ao mar. Aí viu um pequeno barco a remos na praia.

Meteu-se no barco e partiu oceano fora. O barco foi sacudido pelos ventos, fustigado pelas chuvas até que uma onda mais forte lançou o rapaz pela borda fora. Mas ele não perdeu a esperança. Nadou noite e dia até chegar a uma praia branca aos pés dum penhasco negro. Balouçando do alto do penhasco estava uma corda por onde subiu.

No cimo do penhasco encontrou uma vereda que o conduziu ao interior da montanha. Ao fundo viu uma porta dourada que se abriu para ele entrar. Atravessou-a e encontrou-se num mundo mágico de prados verdes, flores lindas e árvores donde pendiam frutos dourados.

Encontrou então um velho com uma barba branca muito comprida que lhe perguntou quem era e para onde ia.

– Chamo-me Severino! – respondeu ele. – Mas não sei para onde vou.

– Então fica aqui – propôs o ancião. – E sê o meu criado.

E foi assim que Severino ficou a viver com o velho no seu palácio de cobre. Na manhã seguinte o homem disse que ia sair para uma longa viagem.

– Aqui estão as chaves do castelo – informou ele. – Há vinte e quatro chaves que pertencem a outros tantos quartos. Podes entrar em todos à vontade, excepto no último. Se fores a esse, será por tua conta e risco.

Quando se viu sozinho no castelo, Severino começou a explorar os vinte e três quartos. Cada um mais maravilhoso que o anterior. Um era todo ouro, outro todo prata, outro preto de ébano e um outro de mármore polido. Mas depois de os ver todos, sentiu-se triste. «Agora acabaram as minhas aventuras», pensou ele. «Não há mais nada para ver. Mais vale regressar a casa.»

Porém, ao acordar na manhã seguinte, sentiu a sua mão apertar com força a chave do último quarto. «É um sinal!», pensou. «Abrirei a vigésima quarta porta e enfrentarei o perigo.»

Quando abriu a última porta viu no meio do salão um trono alto e, sentada nele, a mais bela rapariga do mundo.

– Quem és? – perguntou Severino.

– Chamo-me Vappu – respondeu a rapariga. – Há muito tempo que espero por ti.

A sua voz ondulava no ar parecendo-se com o som duma harpa.

Severino e Vappu viveram felizes no castelo de cobre durante um mês. Costumavam sentar-se junto ao rio de prata e comer dos frutos dourados da árvore do jardim do homem velho sem se preocuparem com nada, até ao dia em que adormeceram junto ao rio.

Quando Severino acordou Vappu desaparecera.

Severino chamou por ela vezes sem conta:

– Vappu! Vappu! – mas a única resposta que ouvia era o chilreio dos pássaros encarnados e dourados que esvoaçavam

O ancião regressou e veio encontrar Severino numa angústia profunda.

– Eu avisei-te de que não devias abrir a vigésima quarta porta – lembrou ele.

– Sou suficientemente crescido para tomar as decisões que entender.

– E agora que as tomaste, achas-te mais sensato?

– A minha dor tornou-me mais sensato e mais adulto – respondeu Severino.

Então o velho resmungou umas palavras mágicas e Vappu reapareceu radiosa como um raio de sol.

– Nunca mais me deixes! – pediu Severino.

– Não deixarei – respondeu Vappu – mas com uma condição. Tens de te esconder de mim para eu não te encontrar. Dou-te três possibilidades.

Severino não sabia como suplantar a esperteza de Vappu, mas o velhote segredou-lhe um feitiço, dizendo que o ajudaria. Primeiro Severino escondeu-se no meio dos coelhos bravos, mas Vappu encontrou-o. Depois tentou esconder-se no meio dos ursos, mas Vappu tornou a encontrá-lo.

Por fim resolveu esconder-se no coração dela, dizendo:

– Três vezes bato à tua porta, coração querido. Deixa-me entrar, jóia do meu coração, deixa-me entrar!

Vappu olhou em volta:

– Que estranho! – disse ela. – Há um minuto atrás Severino estava aqui ao meu lado e agora desapareceu.

Severino chamou-a:

– Não consegues encontrar-me, meu tesouro?

– Não, não consigo – respondeu Vappu. – Onde estás?

– Estou aqui no teu coração – sussurrou Severino.

– Então o meu coração é teu! – assegurou Vappu.

Severino saiu e abraçaram-se. Viveram felizes para sempre no castelo de cobre, junto ao rio prateado, debaixo das árvores douradas.

Adaptação
Livro Ilustrado de Contos de Fadas
Porto, Liv. Civilização Ed., 1998

publicado por opoderdapalavra às 22:05
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