podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
23 de Fevereiro de 2012

 

Voa, Gaivota, Voa!

Danute irrompeu no pátio a correr. Olhou à sua volta e gritou:
— Romas!
— O que tens? — perguntou Romas, que estava no jardim, por detrás do poço, trincando uma maçã.
— O Vilius anda à tua procura!
— Que quer ele?
— Tem uma gaivota.
— Uma gaivota? — Romas fez uma careta: a maçã estava verde.
— Pequena. Tem uma asa ferida. Dá cá uma maçã!
— Toma! — Romas arrancou uma e estendeu-a à menina. — Só que estão verdes.
Com a maçã na mão e depois de ter normalizado a respiração, Danute explicou:
— Sabes, quer vender-te a gaivota. Vamos!
A verdade é que Mykolas, o irmão mais velho, tinha dado a Romas uma nova moeda de rublo — um rublo! — para comprar gelados. Claro que Romas logo se gabara disso à rapaziada. Quando Vilius soube, os olhos cintilaram-lhe de inveja. Chamara mentiroso ao Romas. Então, este meteu-lhe a moeda debaixo do nariz: é ou não verdade?
Vilius sentiu até náuseas ao ver o dinheiro, sem compreender que necessidade dele teria aquele fedelho?! Claro que ia gastá-lo numa bugiganga qualquer! Ele, Vilius, sim, sabia como o empregar: comprava, por exemplo, uma bobina de linha de pesca! Cortava a linha em pedaços e trocava-os com a rapaziada por outras coisas… De qualquer maneira, havia de surripiar a moeda ao Romas. Mas como?
Vilius passou dois dias dando cabo da cabeça, mas não encontrou estratagema de jeito.
Naquele dia, entretanto, apanhara na costa uma gaivota ferida e decidira tentar a sorte. Mandara Danute chamar Romas e ficou à espera empoleirado em cima de um barco virado. Os seus cálculos bateram certo: Romas e Danute chegaram à costa pouco tempo depois.
Quando Romas se aproximou, Vilius, sempre sentado em cima do barco, mostrou- lhe a gaivota e perguntou:
— Queres comprá-la?
Os olhos da gaivota suplicavam, cheios de medo.
— Não a apertes tanto — pediu Romas. — Estás a magoá-la!
— Coitada! Quem lhe teria ferido a asa? — Danute quis fazer-lhe festas, mas Vilius bateu-lhe nos dedos:
— Não lhe mexas! — E para Romas: — Dá cá o dinheiro, e fica com ela. Se a curares, terás uma gaivota em casa.
Romas tinha pena do pássaro.
— É possível curá-la? — perguntou.
— Não custa nada! Mas como é? É pegar ou largar, não tenho tempo para conversas.
— Aceita! — sussurrou-lhe a menina, quase a choramingar. Também estava com pena da gaivota. — Aceita. Tratamos dela. Eu ajudo-te.
Romas hesitava, pois poderia precisar do rublo para outra coisa.
— Então, estás com pena do dinheiro? — provocava-o Vilius. — O que dizes?
— Compro!
— Então, passa para cá a moeda!
Romas correu a toda a pressa para casa. Aqui encontrou o avô, a quem contou atabalhoadamente o que se tinha passado. Disse-lhe que tinha muita pena da gaivota.
— Claro — disse o avô em tom compreensivo e dando-lhe pancadinhas no ombro.
Vilius pegou na moeda e deu a ave a Romas. Ambos ficaram contentes. Com a gaivota ferida contra o peito e acompanhado de Danute, Romas caminhou para casa.
Depois de examinar a asa ferida, o avô disse:
— Fizeste bem! Vamos curá-la. Teremos mais uma gaivota viva neste mundo.
Só então Romas se sentiu realmente satisfeito. Embora ainda tivesse pena da moeda de rublo…
— Ora bem… Primeiro, vamos ligar a asa… — O avô trouxe a gaze e começou a fazer umas talas.
Quando a mãe voltou do trabalho, viu aquilo e perguntou severamente:
— O que se passa aqui?
— Estamos a tratar de uma gaivota — respondeu Romas.
— Muito bem, mas é melhor montarem o hospital na arrecadação — aconselhou a mãe.
A arrecadação, onde se instalaram momentos depois, era realmente um óptimo lugar para tratar da gaivota.
O avô estava tão feliz como Romas por prestar socorro à gaivota.
— Vamos arranjar qualquer coisa para pôr no fundo da caixa, onde ficará muito bem — sugeriu.
— E quando ficar boa? — quis saber Romas.
— Veremos então o que fazer. Para já, vai com Giedrius à pesca. A gaivota é uma ave que tem sempre fome.
A doente foi presenteada com um jantar de doze percas. Mas estava sem apetite. Talvez lhe doesse a asa. Comeu só quatro peixes, e dos mais pequenos.
No dia seguinte, já estava melhor. Um dia depois, não podendo ficar mais na caixa, começou a dar pulos, arrastando a asa ferida pelo chão. Romas, Giedrius, Danute e Ruta tiveram de ficar sucessivamente de guarda à entrada para manter a ave ao abrigo dos gatos, que andavam à espreita.
Toda a gente tinha pena da gaivota, e pensava com alegria que o avô ia curá-la e ela tornaria a voar. Até o Ignas passou pela arrecadação.
— Mostra-me lá a tua gaivota — pediu.
O pássaro estava sentado em cima de uma pilha de lenha.
— O Vilius é um espertalhão — disse abanando a cabeça. — Trocou esta porcaria por um rublo. Caíste como um patinho!
Romas respondeu-lhe com as palavras do avô:
— Teremos mais uma gaivota neste mundo.
— Ora, meu filho — sorriu Ignas. — Só que daqui a pouco terás de soltá-la. Não vai ficar aqui a vida toda. E ficarás sem a gaivota e sem o dinheiro.
Romas ainda não pensara nisso. Talvez o Ignas tivesse razão: quer quisesse quer não, um dia teria de soltá-la. Agora, já queria que não melhorasse tão depressa!
A gaivota, porém, era nova e o avô tratava-a bem. Restabelecia-se rapidamente. Já voava pela arrecadação, chocando contra as paredes. Oxalá não se magoe mais, pois na arrecadação há tanta coisa: lenha, ferramenta do avô, aparelhos de pesca do pai — pensava Romas.
— Acho que é tempo de soltá-la — disse o avô certo dia. — Que pensas?
O coração apertou-se-lhe. Estava a ponto de chorar. Mas não era um bebé! Reprimiu as lágrimas, embora a ideia da separação continuasse a causar-lhe imensa tristeza.
— Não existem gaivotas domésticas. Não são a mesma coisa que galinhas — disse o avô, meneando a cabeça para convencer Romas. — Precisam de liberdade.
Como viu que Romas só com grande esforço continha as lágrimas, sugeriu com um sorriso:
— Está bem. Deixa-a ficar mais uns dias.
Estavam na arrecadação. A gaivota, como que compreendendo que os homens não queriam pô-la em liberdade, voou, bateu no tecto e caiu em cima das canas de pesca do pai.
A ave lançou a Romas um olhar muito, muito triste.
— Não! — gritou Romas. — É melhor deixá-la voar!
Quis apanhar a ave para levá-la para a costa, mas esta não se deixava caçar.
Só o avô conseguiu, embora com grande dificuldade, agarrá-la. O rapaz apertou a gaivota contra o peito e sentiu um coração bater mais depressa. O dele ou o da ave? Não sabia.
— Vamos, avô.
Chegaram à costa. Quase imediatamente, juntaram-se-lhes Giedrius, Danute e Ruta.
O mar estava calmo, o céu sem nuvens, o ar transparente. À superfície viam-se gaivotas. Daí a pouco, teriam mais uma companheira.
— Voa — disse o rapaz, atirando a gaivota ao ar.
A gaivota levantou voo.
Romas nem sentia que lágrimas lhe turvavam os olhos.
E não era do dinheiro que tinha pena!

Viktoras Miliūnas
Voa, gaivota, voa
Edições Ráduga Moscovo, 1987

publicado por opoderdapalavra às 21:13
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