podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
30 de Janeiro de 2012

 

 

 

Quando se entra dentro de um bar, a primeira impressão é o número de pessoas, as gentes que podem estar ai dentro. Olha-se em volta e tenta-se fixar os pormenores, os olhares, as vestes, até mesmo tentar adivinhar, pelo movimento dos lábios, algumas conversas. Depois, vem a disposição do balcão, de tem bancos altos ou então é corrido, as mesas e suas cadeiras, olha-se a decoração e rapidamente se escolhe o lugar preferido. Se está sozinho, uma mesa ao fundo da sala, preferência para a descrição, para a timidez que se esbate no pensamento, o medo do julgamento alheio, dos olhares perdidos. Acompanhado por amigos desejosos por um momento de boa-disposição, o balcão é o ideal, pois a liberdade de movimentos e os pedidos fácies e constantes são o que se procura, e assim se pode controlar todos  os olhares e pessoas interessantes. Acompanhado por uma ou um amante, ora ai, é preferível ficar no lugar mais escuro do bar. E de costas, de preferência, para que ninguém possa soltar algum juízo de valor sobre aquele momento tão intimo… e o que se escolhe? Bebidas quentes, arrojadas no grau alcoolémico, para quebrar de vez todo o tipo de receios que possam ainda existir como barreiras.

Mas ele estava sozinho e não queria nada de discreto, e não foi por não ter amigos que escolheu o balcão. Apenas sentia-se desesperado, como que fugindo de uma vida alheia, escondendo-se num simples pedido:

- Whisky, e sem gelo.

- Preferência?

- Tanto me faz, logo que seja puro.

O copo roçou-lhe nos dedos, e esbateu-se nos lábios, deglutindo num só gole uma quantidade um pouco considerável daquele liquido meio espesso, meio arrepiante, e meio transparente.

- Outro.

Os olhos do barman ficaram embaciados na velocidade do consumo.  Mas depressa serviu mais um, e mais outro e ainda outro. Ao quinto, o homem encostou-se, sentado num dos bancos de balcão, sim, este bar tinha-os, e arrepiou o olhar em volta. O suspiro deixava-o soltar-se, abrir-se de novo ao mundo, desfazendo qualquer obstáculo que o separava dele. Os seus olhos prenderam-se a uma mulher que acabou de entrar. Escultural, de saia folheada, uma pequena camisola de nylon, vermelha, lábios bem pintados, pernas torneadas e bem formadas, linhas desenhadas por um pintor, cabelos soltos, castanho e de certo perfumado. Caminhou até junto do balcão, precisamente onde estava o homem dos whiskys.

- Gin tónico, bem lubrificado.

Hum… a palavra lubrificação soltou um pensamento meio erótico no ar. Ele olhava com a vontade e a desinibição de um desejo vadio, quase mordaz pela saturação sexual que lhe explodia no íntimo. Ela estava impávida, sem notar que quase meio mundo de homens, refiro-me ao mundo do bar claro, a despia naquele mesmo momento. Até mesmo o toque irritante do seu telemóvel não desesperou a safadice momentânea daquele homem que esquecera a bebida.

- Estou? Ah és tu. – Silencio – não, não quero falar mais sobre isso. Já te disse que terminou. Ponto. E não voltamos a falar, ok? Adeus. – e desligou.

- As relações por vezes são tramadas… - ele não aguentou mais, e arriscou tudo naquele momento, esperançado talvez por uma noite de bom sexo, entupido no pensamento libidinoso daquela mulher tremendamente sensual.

- Desculpe?

- As relações… não deixei de escutar a sua conversa ao telemóvel, peço imensa desculpa, mas como estamos tão próximos…

- Ah, isso… pois, são assim mesmo, existem coisas que não podem ser evitadas…

- É… mas diga-me, como é que alguém como você tem problemas? De certo que a cegueira no mundo não deve estar a ser espalhada como um vírus maldito – olha este, será o nosso julgamento imediato, a atirar-se de cabeça e pelos vistos, sem rede.

- Estou apenas à procura de um momento a sós… com a minha bebida… como você, pelo que reparo…

- Como sabe que estou sozinho?

- Bem, intuição, mas direi melhor, constatação, pelo seu ar quase dilacerado pela bebida e pelo olhar para mim… seria melhor limpar a baba que lhe cai do canto direito da boca…

Ele ficou por momentos emperrado na vergonha de pensar que teria mesmo aquela saliva espessa a sair-lhe da boca. Apressou-se a limpar o canto, e notou que afinal não tinha nada. Quando voltou o olhar para ela, esta ria-se, expressando um ar de vitória, quase de atroz êxtase feminino.

- Acreditou mesmo…- continuando a risada.

- Pois foi… cai mesmo. Parabéns. Agora mereço o prémio…

- E qual é?

- O seu nome.

- Para quê? Nomes estorvam, por vezes…

Ele ficou petrificado com as palavras dela. Sentiu aquele arrepio matador subir-lhe pelas costas, atravessar-lhe o crânio, saturar-lhe o cérebro de imagens porno, subir-lhe a temperatura e jogá-lo num ambiente de pura sedução e engate.

- Concordo consigo.

- É? Então, não encontra outra ideia para prémio?

- Hum… deixe-me ver…podia dizer vários, mas tenho receio que possa deixar-me a sós de novo…

- Bem, diz o povo que quem não arrisca… pode não petiscar… - e deu um gole, olhando-o de soslaio e sorrindo maleficamente…

Sentia o pénis ficar erecto, o corpo suava, as mãos deixavam quase escorregar o copo, os pés pareciam viver num inferno, tal o calor que sentia na pele, e os lábios secavam enquanto a desenhava nua, à sua frente, mordendo-lhe as orelhas, depois lambendo-lhe o peito, até se esgueirar para a sua intimidade, forçando-lhe o prazer de um bom broche.

- Devo confessar que por segundos pensei em tudo o que podíamos fazer juntos… longe deste bar…

- Hum… conte-me… gostava de saber o que poderíamos fazer juntos…

- Mas aqui? Não seria melhor o fazermos em privado?

- Talvez… porque não? ... mas sempre podemos começar já aqui…

- Você gosta de jogar, não?

- Porque? Você não gosta?

- Sim, mas só quando saio vencedor… detesto perder…

- Pois então, arrisque… depois logo vê se ganhou, conte-me o que pensava…

- Você, nua – mais um gole, pois a garganta já quase parecia um deserto – a sua língua percorrendo o meu corpo, o meu intimo, eu tocando-lhe a pele  - ela olhava-o com muita insinuação, mordendo a língua, e de seguida molhando os lábios com a mesma – e depois a noite seria nossa, cheia de prazer, de penetração…

A descrição é interrompida com um chamar:

- Maria.

Ela volta-se e olha um homem de forte estatura, músculos trabalhados, olhar profundo de um lutador, que se aproximou e a agarrou, beijando-a nos lábios, com um trocar de salivas intenso.

- Hum, que bom… - respondeu ela após o cumprimento tão intimo. De seguida ela segredou-lhe algo ao ouvido, ele sorriu e caminhou em direcção à porta de saída.

- Tive muito gosto…

- Mas… você estava à espera de alguém afinal?...

- Sim, estava.

- E a nossa conversa, você deixou-me ir tão longe… disse-me para arriscar… e tinha terminado uma relação, mas agora vejo-a com... – e estupidamente apontava para a porta que se fechava de novo, após a saída do lutador.

Ela chegou-se junto ao seu ouvido direito e num sussurro, disse-lhe:

- Sabe, deu-me gozo saber que o excitei, porque assim já vou toda húmida para dar uma valente foda com o meu namorado…  - e depois afastou-se e terminou – como tinha dito, afinal as relações por vezes são complicadas e a nossa foi demasiado, logo à nascença… e já agora, há pouco não terminava nenhuma relação amorosa, mas sim uma relação profissional.

E saiu com o namorado, enquanto o homem ficou em sobras, à sombra da desilusão e de uma erecção perdida… afinal há mesmo relações que se complicam conforme os nossos pensamentos avançam…

publicado por opoderdapalavra às 21:41
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