podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
25 de Janeiro de 2012

 

 

Deixo-vos uma série de pequenos contos, experiencias sem pensamento nem direcção, espero que gostem, se não, critiquem.

 

 

Sei que o meu corpo, reluzente e emergido daquela caixa de papelão barata, não condiz com a tua descrição para o ideal de copo… da tua vida. Será difícil por vezes perceber o que procuramos. Eu sei que assim que o meu vidro se cruzou com o teu, algo brilhou no cimo desta desarrumação desalinhada, nesta cozinha tão incomum, onde o cheiro intenso a mofo quase me deixa embaciado. Aliás, mas foi assim que fiquei quando senti-te  ser aproximada ao meu perímetro. Sei que um choque entre ambos podia já ser sinal evidente de uma qualquer paixão, mas sei também que tu não és desse tipo de vidraça. És pura, deves ter em ti a areia fina dos deuses, um certo potássio emergente dos sítios onde apenas os afortunados vivem. Sinto em ti o cálcio vindo do norte, sei lá eu onde isso possa mesmo ficar, mas um dia consegui escutar o tilintar de uma conversa apurada de um copo viajante, que falava desse lugar, sitio que me pareceu logo bafejado pela dourada fábrica de vidros e copos do Olimpo. Gostava de saber se tens um nome. O meu é Cristal, sei que são milhares com a mesma identidade, mas eu sou único… pois, talvez já tenhas sido confrontada com tal conversa, cristalina como tu, deves estar habituada a ser cortejada por todo o copo bonito que surge no teu caminho. Sei que sou meio tímido, deixo-me ficar sempre nos fundos do móvel, esperando que uns dedos mais quentes me joguem na luz do dia ou mesmo da casa… mas sou muitas vezes usado apenas para ser preenchido por água e logo me deitam na máquina, para de seguida regressar à escuridão do armário. Tu não, suponho que o teu uso deve ser contínuo, bons vinhos, encorpados, cheios de sabor, repletos de perfumes. Deves ser usada com doçura, pegada pelo teu caule com o carinho e a ternura de dedos experientes. O teu corpo deve ser lavado com a melhor das espumas, sem aditivos que possam deteriorar a tua espessura. Por isso fiquei desde logo apaixonado por ti, assim que trocamos um tlim tlim, que soou pelos cantos mais recônditos da casa. Até a dona ficou corada com tal encontro, ao separar-nos de imediato, com o medo de podermos ficar partidos de amor, afinal quer preservar a nossa relação e não despedaçá-la… em finos pedaços de vidro... ai, agora embaciei.

Confesso que não copo do tipo engate, mas sou vidro de qualidade vadia, daquela que certamente teu belo beiral já avistou milhares de vezes. Bem, chega de conversa seca e vamos é tomar... um copo.

publicado por opoderdapalavra às 00:01
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