podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
10 de Janeiro de 2012

 

 

 

 

“Mas quem pode medir o tempo passado, que agora já não existe, ou o tempo futuro, que ainda não existe, se não tiver a coragem de dizer que pode medir o que não existe? Portanto, pode-se perceber medir o tempo que vai passando, mas se já é passado não se consegue medir, porque já não existe.”

Confissões, Livro XI, de Santo Agostinho.

 

Durante toda a sua História, o Homem desejou dominar o tempo, e ao longo desse percurso, o próprio foi-se tornando um escravo natural do tempo. Transformou esta contagem que inventou para o seu percurso na Vida, desde a contagem natural, onde o Sol era o único ponteiro que definia o correr natural dos dias, até ao tempo material, onde a máxima “Tempo é Dinheiro” perdura e determina o andamento da nossa época. Precisamente aquela em que estamos mergulhados numa contagiosa e perigosa crise dos ditos valores humanos. E é deste tempo que quero falar. O nosso Tempo.

Não podemos mudar o que passou, não temos o poder de prever o futuro, mas temos de facto a oportunidade única de transformar o presente, alterá-lo. Estamos todos escravos de um determinado conceito: O Tempo Material. Vivemos para trabalhar, morremos trabalhando.

Não sabemos fazer mais nada, senão estipular previamente objectivos definidos em conceitos pré-estabelecidos: nascer, brincar, aprender, estudar, formar, namorar, emprego, bom emprego, casar, casa, carro, ser ambicioso, filhos, férias, casa de praia, casa melhor, medo de envelhecer, poupar para a reforma, estabelecer metas para os filhos, poder, reforma, contar os tostões, morrer. E já está.

 Poderia não ser necessário dizer mais nada, nem fazer mais nada. Parece um livro já escrito antes de desenhar a primeira palavra. E acima de tudo, numa dinâmica de “Dinheiro traz Poder”, pois é ele que nos dá tudo o que podemos alcançar na Vida, muitos são os que referem que gostavam de conseguir obter, com riquezas materiais, a fonte da juventude, outros tentam fazê-lo com cirurgias, com implantes, com a compra de um novo corpo, de uma nova vida, há aqueles que querem e desejam ter o poder de pararem o tempo, esse mesmo que nunca para… quem pensa assim, poderei afirmar, não que seja sábio e detentor de um poder transcendental, mas digo e afirmo: A Vida não é Dinheiro! O Tempo não é dinheiro!

O dinheiro é apenas um instrumento, como tantos outros, que serve para regular uma série de acções, das quais necessitamos, para conseguirmos viver em sociedade, nada mais. Ele não pode ser visto como a essência da vida, ou mesmo como o que determina a fronteira entre a Vida e a Morte. Ele não é o ponteiro da nossa existência. Ele é apenas, como o disse, um instrumento.

Mas então o que precisamos? Mudar! Precisamos de alterar de novo os valores, abandonar esta parafernália de conceitos materialistas, onde o que importa é a ostentação de puras insignificâncias e depois apenas partilhar quem somos, o que somos e como somos. Aprender que primeiro é o Natural, o Humano, o Animal, o Vegetal, o Universal, e depois, muito para o fim, o Material.

O tempo é um contínuo de 3 fases: o princípio, o meio e o fim. E nada mais.

 

 

“ Para o físico, o tempo vem ao encontro do quê? A apreensão que determina o tempo tem o caracter de mensuração. A mensuração mede quanto tempo e quando, ele mede o de-quando-até-quanto. Um relógio indica o tempo. Um relógio é o sistema físico, junto ao qual os sucessivos estados temporais idênticos constantemente são retomados sob o pressuposto de que este sistema físico não está submetido à mudança através da influência externa. A retomada é cíclica. Cada período tem a duração temporal idêntica. O relógio fornece uma idêntica duração que constantemente se repete, a qual sempre é possível recorrer. A distribuição destes espaços de duração é indiferente. O relógio mede o tempo, na medida em que a extensão da duração de um acontecimento é comparada por idênticas sequências de estados do relógio e, a partir disso, determina numericamente a sua quantidade.”

In “O Conceito do Tempo” de Martin Heidegger

 

Preocupamo-nos em demasia com o tempo físico. O material.

 Ficamos preocupados que ele passa muito depressa, que não temos tempo, desejando que o dia tivesse mais tempo, mais disponibilidade para fazermos mais coisas, como que querendo que o dia, um dia apenas, fosse necessário para resolvermos todas as acções que nos estipulamos fazer. Ficamos a olhar uns ponteiros que se deslocam num tique-taque constante, o calendário onde vamos riscando números que definem os dias, os meses, os anos; vamos olhando um reflexo no espelho, contando os cabelos brancos, as rugas, as peles que perdem elasticidade, a beleza que pensamos perder.

Determinamos tempo para tudo, para o trabalho, para o lazer, para a família, para o descanso, para a alimentarmo-nos, para as férias e para o silêncio...e até para conseguirmos ter Tempo.

 Pensamos ser donos do tempo, pois até pensamos ser capazes de fazer a contagem física do tempo da nossa existência, de alterar o tempo das estações, ajustando a contagem conforme as regiões e as alturas do ano. Seremos nós donos, de facto, do tempo? Ou seremos, como já o disse atrás, escravos de um pensamento que apenas existe nas nossas cabeças? Parem um pouco, agora mesmo, deixem de fazer o que estão a fazer, de ler este texto, de escutar a música que está a tocar, ou desliguem a tv, o radio, e escutem, olhem apenas, neste preciso momento, para tudo o que se passa à vossa volta… o que acontece? Será o tempo físico… ou o Tempo Real? O Presente? E será ele Material? Ou será ele Natural e simplesmente Sensorial, Existencial?

Vivemos divididos entre dois mundos, o passado, tempo perdido, e o futuro, tempo sonhado. Mas de facto, não nos apercebemos, que a Verdade acontece aqui mesmo, neste instante em que lê esta frase, e aqui é que está o Verdadeiro Tempo, aquele que não depende da nossa contagem, relógios ou outra coisa qualquer.

Perdemos tempo a prometer que vamos mudar, que vamos começar a fazer as coisas de diferentes maneiras, a olhar mais para o presente, para as pessoas, para a natureza, para a riqueza, para o que sofre, para o que sorri, para a flor que desabrocha, para a folha que cai. Perdemos tempo a prometer o que não se promete, apenas se faz… ou então se perde tempo a pensar que se pode fazer, e depois, como sempre, não se faz.

Perdemos tempo de vida a pensarmos, a delinearmos tanta coisa, a fazer tantos projectos, tantos caminhos, a pensarmos em tantas recordações, a analisarmos tantos acontecimentos que vivemos… e depois chega o final, e aqui, ficam as questões:

O que importa, agora que aqui chegou? O quanto trabalhou, o quanto produziu, o quanto se preocupou, o quanto viveu? E onde ficaram as pessoas que amava, que o amavam? E onde ficaram todos aqueles momentos que gostava de ter vivido? E onde ficaram todos os desejos, todas as vontades? E onde ficaram as partilhas, o dar, oferecer, o ajudar?... E o dinheiro, afinal ele sempre compensou este seu tempo? Afinal, valeu a pena o seu Tempo?

E Afinal, de quem é o Tempo?

 

“Não faça planos para a Vida, para não atrapalhar os planos que a Vida tem para si”

Agostinho da Silva.

 

“ O Relógio

 

Relógio, deus sinistro, alarmante, impassível,

Dedo ameaçadora dizer: Lembra-te bem!

As dores vivas para o teu coração vêm

E logo acertarão com mira infalível;

 

Como ninfa subindo ao fundo do cenário,

Foge para o horizonte o Prazer vagaroso;

Cada instante devora a tua parte do prazer

Que cabe a cada um no seu itinerário.

 

Três mil seiscentas vezes por hora, o segundo

Sussurra: Lembra-te bem!- indo embora depressa,

Voz de incesto, Agora fala: sou Outrora

E suguei a tua vida com o meu bico imundo!

 

Remember! Souviens-toi! Lembra-te bem, sumidouro!

(A minha garganta de metal é poliglota)

Os minutos são a ganga, mortal idiota,

Que não deves largar sem extrair o ouro!

 

O tempo, lembra-te bem, joga com teimosia,

Ganha sem trapacear, toda a vez! Ámen.

O dia cai; a noite aumenta; lembra-te bem!

O abismo tem sede, a ampulheta esvazia.

 

Logo virá a hora em que o Acaso, e mais

A Virtude, esta virgem casada contigo,

O próprio Remorso (ah! O ultimo abrigo)

Em que tudo dirá: Morre! Tarde Demais!”

In Flores do Mal, Charles Baudelaire

 

publicado por opoderdapalavra às 23:05
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