podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
14 de Fevereiro de 2016

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Quase um ano depois, consigo escrever-te. 

Acredita que não é fácil escrever para quem, como tu, me deixou com um sabor meio agridoce na saliva. Fazia semanas que procurava o teu numero, aquela sucessão que dita uma ligação por meio de uma qualquer onda de transmissão. Não sei te explicar melhor o que é isso de ligações entre telemoveis. ( sei que já te ris só de escrever isto). Foram dias após dias a pensar que devia-te algo, que devia-te uma vez, uma palavra, uma historia, um desabafo, um palavrão contra tudo o que te corria no sangue, uma anedota em que nos riríamos como pequenos putos de escola que se riem de tudo e de nada. Nesse telefonema tinha algumas coisas para te contar. Não me recordo já o que era, mas tinha, como sempre falamos mais de nós, do que escutamos o que o outro tem para nos dizer. Mas sempre foi assim e tu sabes, porque também o fazias. ( sim, já escuto de novo o teu rir, porra, tanto te ris, isso ai deve ser mesmo de rir e não de chorar).

E partiste. Naquela manhã. Desde esse dia que não consegui ao certo escrever-te seja o que for. Aliás, nem sei se o que estou a escrever é para ti ou para aliviar-me a dor de não te ter por perto, amigo. Falamos de tantas coisas, de tanta estupidez, de livros, filmes, de amor e desamor, falamos de vida e de morte, falamos a mentir um ao outro, a dizermos a verdade um ao outro, a falarmos do nosso Porto ( que achavas sempre que ele ia ganhar o campeonato, mesmo tu não percebendo nada de futebol apenas que os de riscas azuis e brancas são os melhores… e não te enganavas). 

Sabes que deixaste uma porcaria de sentimento. O da saudade, porra. Aquele com que nos tentamos enganar que conseguimos amar alguém sem a vermos. E conseguimos, mas não é a mesma coisa. Falta essa tua imagem meio simplista, de pessoa normal, que vestia sempre um pouco da mesma forma, 

que tinha conversas sobre tanta coisa que por vezes nem tínhamos uma conversa de jeito,

que tinha um péssimo hábito de gostar de estar com tanta gente que até se esquecia de estar consigo mesmo, 

que adorava estar com aqueles que verdadeiramente sempre soube que o amavam, só para sentir que afinal conseguia ser alguém normal, anónimo perdido por entre gente de bem, um menino que gostava de abraçar aquela doce sensação de ser apenas respeitado. 

E hoje resolvi, tomei a coragem no peito, e escrevi para ti. Não foi o medo de não saber escrever para quem o sabia fazer. Sabes que nunca me senti diminuído por ti, apesar confesso de ter chegado a sentir, algumas vezes, aquela inveja surda e muda que nos leva a idolatrar alguém que não precisa, aliás ninguém o precisa, agora sabes. Resolvi escrever-te sem aquelas formosas frases que todo o escritor gosta de redigir, para que o impressionismo contemporâneo continue a perdurar. Não te escrevo com todas as formulas que se aprendem quando se coloca palavras numa pagina em branco. Sei que acreditas no que escrevo, mas hoje não é esse que te impressionou com os seus livros, que te escreve. Hoje não. Hoje quem escreve é apenas aquele que sempre conheceste, e aquele que sempre adorou conhecer-te. Não por esta coisa de livros, escritos ou nomes que várias pessoas conhecem e conseguimos impressionar. Hoje escrevo-te da única forma que sei fazer para ti. Com a Amizade.

Escolhi os teus 40 anos. E escolhi partilhar contigo a conversa que eu tanto queria ter, e afinal, acabo por tê-la, hoje, no dia que fazes 40 anos. Bem, espero que gostes de conversar comigo… prometo não ser tendencioso. ( e pronto, voltas a rir…)

 

“Vou marcar o teu numero. Não sei onde estará esse mesmo numero, mas no meu telemovel ainda está associado ao teu nome. Olha está a chamar. Sinto-me um pouco nervoso, não sei como irás atender do outro lado. Faz algum tempo que não falamos. Continua a chamar. Porra, estás-me a deixar ainda mais nervoso. Atende, acaba logo com esta agonia. Olha caiu a chamada. Mas volto a insistir. É mesmo teu. Até agora que estás em todo o lado, que estás no sol, no céu, nas nuvens, nos livros, nas pessoas, no ar que se respira, nos sorrisos de quem te ama, nas palavras, até neste texto tu estás… até agora tu gostas de ser diferente e não atender logo à primeira. Estás armado em quê? Celebridade?…

  • Tou.
  • Estou. Sou eu o Carlos. Atendeste.
  • Claro. Porque pensavas que não ia atender?
  • Não sei. Até já estava a praguejar sobre o teu habito de não atender à primeira. ( e voltas a rir às gargalhadas)
  • Estás bom?
  • Sim. E tu?
  • Eu estou bem. Há muito que não falávamos.
  • Pois. Também sentiste isso?
  • Não senti, apenas sabia que não falávamos em palavras, mas fomos falando em silencio.
  • Pronto, continuas o mesmo, com a resposta na ponta da lingua. Não mudas em nada. Nem aí.
  • Claro, serei sempre aquele que conheceste. E sei que tu também o serás assim. ( Ok ok, ele dizia mesmo isto, não estou a inventar…) - Não tenhas a necessidade de te justificar aos outros. 
  • Olha, Parabéns.
  • Obrigado. Não te esqueceste.
  • Claro. E 40. 
  • Pois, pena de não os ter celebrado com um abraço.
  • Mas sabes que tens os braços de todos os que te amam à tua volta.
  • Sei e sinto isso. 
  • E olha, sabes uma coisa, tenho é uma noticia menos agradável para te dar.
  • Então?
  • Continuas a fazer anos no dia dos Namorados.
  • O quê? Porra, e continua a não haver lugar nos restaurantes?
  • Nada. Está tudo a querer mostrar hoje o amor que não mostram os outros dias.
  • Enfim. Mas olha quando mudarem a data avisa-me, pode ser que nesse dia possamos ir àquela cervejaria que tanto gostávamos. Ah, e com o Cesar claro… porque afinal tudo é apenas uma terapia e não uma cura. ( e voltas a rir à brava).
  • Combinado. Não te esqueces-te. 
  • Claro que não. E mais novidades?
  • O Porto ganhou ao Benfica.
  • Eu não te digo sempre? Vamos ser campeões este ano. ( Sempre o mesmo.)
  • Olha e quero-te dar os Parabéns sobre algo mais. Pelo teu novo livro. As Curiosidades. Fantástico.
  • Obrigado. Já vi. Mas devo isso tudo à minha familia. Eles são mesmo especiais.
  • Pois são. Ontem almocei com o teu irmão. Falamos e rimos. E bebemos umas cervejas das boas. 
  • Eu vi. Ficaram bem corados. 
  • Isso foi do calor humano. ( e rimos às gargalhadas )
  • Olha Carlos tenho de ir. Sabes que isto de fazer anos é uma correria. Tenho de atender a outras pessoas. Tens escrito?
  • Alguma coisa. Mas ando numa de deixar andar o rio, ele chegará a alguma margem. Estou concentrado na venda dos meus livros para ajudar um Projecto muito importante. E quem compra tem direito a um livro oferta, especial.
  • Eu sei, vão ficar admirados. Mas olha não deixes de escrever. Não te vou dizer agora que o sabes fazer muito bem. Tu sabes. Tu sentes isso. Vou-te dizer outra coisa. Não deixes de amar o que sempre amaste. Não deixes de amar quem te ama de verdade. Não deixes de te apaixonar pelos dias, pelas horas, pelos minutos e pelos segundos. Não deixes de fazer aquilo que gostas de fazer. Tu sabes que estas palavras andam tantas vezes a serem clamadas pelos sete cantos do mundo, mas elas são demasiado reais e verdadeiras. E nunca te desvies do teu caminho, quem quiser estar mesmo contigo, quem te ama mesmo, vai estar lá. E ri-te sempre de ti mesmo. É das melhores coisas que podemos fazer.
  • É pá estás-me a deixar com uma lágrima. Parece conversa de despedida.
  • Despedida não. Vais ter de me aturar o resto da vida, mesmo para lá do tempo. É apenas para dar um lado sério a esta conversa. 
  • Olha, gosto de ti puto.
  • Puto?
  • Sim, continuas a ser mais novo do que eu. ( e rimos à grande.)
  • Olha, podes-me contar a anedota do D.Corleone?
  • Claro. 

E ali ficamos. Rimos e até deitamos umas lagrimas. Mas a conversa acabou por se perder pelo tempo. Já nem me lembro quem desligou primeiro. Mas olha amei falar contigo. Vou continuar a fazê-lo. De facto, para quê adiar aquela conversa que tantos desejamos ter com aqueles de quem gostamos?

Grato Amigo. E de facto…o Fio não foi cortado. E o teu nome não deixou de ser proferido. Aliás como um dia escreveste…

“No fim não morremos todos. Há os que morrem e os que duram para sempre.”

Abraço forte Luis.”

 

 

publicado por opoderdapalavra às 21:42
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