podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
26 de Dezembro de 2015

 

Tenho um sonho guardado.

Uma espécie de história que um dia escrevi,

sem sequer reparar nas palavras que redigi.

Dobrei folhas sem contar,

de imaginações,

viagens sem pregas ou dragões,

ou filmes de encantar.

Voei como pássaro sem asas,

em fogo aberto pelo céu coberto,

de esperanças sem destino,

ou marés despidas de caminho.

Andei como uma formiga,

palmilhando cantos num mundo,

sem o pranto de uma casa ou o fel de um coração.

Nadei como peixe sem guelras,

percorrendo todos os oceanos,

em busca de uma corrente,

daquelas que nos levam para onde o tempo acaba.

Lugar onde tudo começa.

Firmamento ao amanhecer.

Aquela bolha de ar,

forma que persiste

de conseguir sonhar.

Respirar.

E andar.

E tenho esse sonho,

algures

onde a memoria se esconde

e a lembrança adormece.

Vou busca-lo,

desenterra-lo sem olhar para trás,

sem notar,

que pelo corredor que me espanta a idade,

percorro toda a ilusão de um nome,

que dei ao sonho da minha infinidade.

 

 

publicado por opoderdapalavra às 23:00
22 de Dezembro de 2015

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E naquela manhã nenhum dos adultos acordou.

Um estranho silêncio inundou toda a região, acompanhado com um frio gélido que sobrevoou as montanhas, desceu e veio de leve, sem pegadas, por entre as árvores e arrepiou as casas. As janelas ficaram embaciadas de vergonha, as portas trancadas de medo e os telhados viraram pedras de gelo. As ruas despiram-se de luzes e o céu ficou apagado. Deixou-se de ver a lua, as estrelas, mesmo a nascer do sol ou uma qualquer nuvem que por ali se formava. 

O pequeno Ismael foi o primeiro a soltar um bafo de ar. Sentiu-se aliviado, de olhos esbugalhados e raiados de sangue, ofegando os pulmões. Um pouco assustado, revirou todo o quarto com o olhar, procurando perceber aquela sensação tão estranha. Pareceu-lhe que alguém lhe agarrara a garganta e o tentara sufocar. O pequeno conseguia imaginar um corpo estranho aproximar-se e debruçando-se sobre o seu sono, atirando duas mãos sobre o seu sopro de vida. Saltou da cama e fugiu pelo corredor que virava esquina ao quarto. Procurou os seus pais, que dormiam profundamente. Ainda os chamou, mas sem resposta, e logo desistiu. Andou mais dois quartos e irrompeu pelo da irmã, Aldoina. Esta encontrava-se sentada na cama, com a mesma imagem de susto estampada no rosto. 

  • Sentiste?
  • O quê?
  • Aquelas mãos a não deixarem que respirasses?
  • Sim. 
  • Quem achas que foi?
  • Não sei. Mas tenho medo.
  • Calma. Está tudo bem, os pais ainda dormem, logo é porque deve ter sido um sonho apenas.
  • Já é dia. Achas que ele já passou por aqui?
  • Talvez. Vamos ver?

E numa explosão de corrida, desceram e logo se defrontaram com o inimaginável. A árvore de Natal, o presépio, todas as decorações de Natal desapareceram. Não havia prendas nas meias, porque as meias não estavam na lareira. Não havia estrelas no tecto, porque elas foram levadas. Não havia nada, apenas um enorme buraco na parede. Saíram à rua, encoberta por um manto de neve ainda fresca e repararam que todas as casas tinham um enorme buraco, igual ao deles. E várias eram já as crianças que deambulavam pelas ruas, perdidas nas passadas, procurando e buscando por uma razão obvia para tal assombração. E todos os adultos continuavam a dormir profundamente. Os pequenos chamavam por eles e estes não respondiam, nem mesmo um qualquer ruído para dar em resposta. Apenas os sons naturais de quem dorme. 

Um dos pequenos que rondava as ruas, acercou-se deles,

  • Já tem explicação?
  • Não, e vocês?
  • Só me lembro de acordar sufocado.

Aquela sensação começava a tornar-se um remoinho de pensamentos na cabeça de Ismael. Começou a relacionar aquele aperto ao desaparecimento de tudo o que derivava do Natal. Voltou a casa e olhou bem para o buraco. Queria encontrar uma pista, uma indicação que o orientasse. Depois subiu ao quarto, ainda a tempo de verificar que os seus pais mantinham-se deitados, e parou na sua cama. Removeu os cobertores e os lençóis. Mexeu e remexeu. A sua irmã estava nas suas costas,

  • O que procuras Ismael?
  • Não sei. Mas algo. A sugestão daquele estranho ser que me veio agarrar está relacionada com o que aconteceu ao… - e na surpresa do momento, começou a sentir um esquecimento súbito, um aperto no peito, um suor nas mãos, uma vontade de querer falar e não conseguir produzir palavras. Olhou a irmã e esta estava quieta, olhando-o sem mover um pequeno retoque do seu corpo. - Porque é que eu quero lembrar-me do que ia a dizer e não consigo?
  • Não sei. Porque estamos aqui Ismael?

Saiu em corrida pela casa, sem notar que os pais continuavam a dormir, e deixando a irmã nas costas. Na rua observou atento todas as outras crianças. Estavam perdidas. Umas chamavam pelos pais, outras tremiam de frio e algumas brincavam com a neve. Aproximou-se de uma delas,

  • O que fazes aqui?
  • Não sei. Acordei e vim para a rua. Reparei que tenho um enorme buraco na sala e os meus pais estão a dormir.

Ismael resolveu correr sem parar. De chinelos, roupão e um gorro que lhe chegava aos ombros. Circundou o bairro, quarteirões, até chegar à cidade. Em todo o lado encontrou sempre o mesmo. Buracos nas casas, crianças na rua com diferentes disposições e sentimentos, e nada de adultos. Apenas neve e muito frio. Aliás este estava cada vez mais forte. A brisa não se sentia ao corrente mas entrava nos corpos com toda a força. Chegado ao centro da cidade, baixou-se de cansaço perto de uma estranha estatua de bronze. Encostou-se, tentando recuperar algum ar ainda disponível para lhe renovar a respiração. Agarrou-se ao seu corpo e foi ficando coberto de uma sensação de impotência. Queria perceber, mas cada vez mais havia um esquecimento impulsivo a correr nas suas veias. Queria recordar mas as memórias bloqueavam-se a cada segundo. E começou a tremer de tal forma que o seu corpo defendeu-se e caiu redondo no chão. 

  • Ismael.
  • Sim, quem fala?
  • Sou eu, a tua mulher. Quem havia de ser? Acorda que já são horas. Os miúdos já abriram as prendas. E os teus pais devem estar a chegar. A tua irmã é que ainda está também a dormir. Estranho, deve ser de família, pois o Luis já se levantou. 
  • Estranho.
  • O quê?
  • Tive um sonho assustador. Que dia é hoje?
  • Que dia é hoje Ismael? Que pergunta. É Natal.
  • Natal?
  • Porquê essa estranheza? Raios Ismael, estás-me a assustar. O que se passa?
  • Não sei. Lembro-me de acordar sem ar, de encontrar um enorme buraco na sala, os meus pais que não acordavam, crianças na rua e cair de frio no centro da cidade. Mas não me recordo de mais nada, nem do porquê do buraco na sala.
  • Vá foi só um sonho. Levanta-te.

Saiu. Ismael ficou sentado na cama. E enquanto removia as mãos de dentro dos lençóis, um pedaço de papel veio agarrado a uma delas. Era uma carta. 

“Querido Ismael,

Naquela manhã nenhum adulto acordou. Ficaram todos assustados. O Natal parecia ter desaparecido. Todos as fantasias, presépios, musicas e prendas tinham desaparecido. Assim como as memórias ao Natal dos brinquedos, o Natal das ilusões de um senhor de vermelho que desce pelas chaminés, um Natal de imaginações com os desejos a explodirem. As lembranças esconderam-se. E naquela manhã todos ficaram assustados. Porque todos deixaram de ser adultos de novo, e adormecidos nos seus casulos, fechados nas suas capsulas de egos, viraram crianças sem memórias do Natal. Viraram apenas pequenos rapazes e raparigas sem um sonho, sem um conto para recordarem um dia e entregarem em legado aos seus vindouros. 

Naquela manhã todos os adultos ficaram perdidos. Porque afinal o que é essa memória de nome Natal? Porque afinal o que é essa palavra que tanto parece querer dizer e tanto fica por dizer? Porque afinal o que é esse sentimento que tantos mundos abraça e mesmo assim parece serem sempre poucos os que são abraçados?

Naquela manhã, enquanto todos os adultos continuarem a querer acordar, haverá sempre uma criança que se deixa dormir, mais uma vez. Naquela manhã sempre que houver um adulto que resolva pensar que uma prenda apenas significará o valor da palavra, haverá uma memória  mais que se apagará. Enquanto houver uma família de adultos que achem que o seus orgulhos são mais poderosos que os braços dos restantes, haverá sempre uma luz que ficará perdida na escuridão. 

Ismael, apertei-te o ar que respiravas para acordares a criança que está dentro de ti. Deixei-te ao frio para esfriar a demasia de adulto que tens dentro de ti. Roubei-te os símbolos de Natal para despertar a magia deste sentimento que está adormecido dentro de ti. E apaguei-te a memória para poderes perceber que tudo o que não viveres com o coração será apagado do pensamento.

Sim, é dia de Natal Ismael. E estás vivo.

E se aquela manhã de facto todos os adultos ficassem a dormir? O que achas que aconteceria agora?

Bom Natal,

Assinado: Ismael.”

publicado por opoderdapalavra às 11:04
15 de Dezembro de 2015

 

 

Sentado

Simplesmente sentado, sem ter um objectivo, uma razão de estar ali

Sentado, de pernas em riste, de braços fechados

Olhos sem ver e escuta sem ruído

Voz deitada no silencio

Sentado ali, sem que nada fosse uma mera circunstância

De corpo duro e pensamento mole

Enfraquecido pela cascata de imagens

Filmes que se constroem em sucessões de frames

Sequencias de firmamento que levam o espírito

E de coração assim, longe de tudo

Fico sentado

Ali, naquele lugar

Como se fosse o ultimo, como se fosse a merda de um grito

De uma revolta, de uma puta de vida sem sentido

De uma fúria que não sai deste peito que pede para explodir

E ali

Sentado, fodas, como posso estar assim?

Só sentado é que não vejo

Não revejo o passado, nem observo o futuro

Sentado nem o presente me fica aos pés

Mas sentado sei que morro

E a mente leva-me ao buraco

Aquele túnel sem saída, sem caras, faces, lábios ou olhos

Apenas fantasmas que vem e vão mas ficam sem pedir

E ali fico sentado

Esperando não sei o quê

Talvez aquela dor que nunca se sabe se dói

Ou aquela frustração que não sai

Entrou como seta e ficou por ali a sangrar

E assim espero sentado

Que a história possa escrever outra vez este nome que até esqueci

E todos já nem sabem que eu estou aqui

Sentado.

Não

Não

Não

Quantas vezes tenho de dizer que de sentado estou farto

E daqui desamarro aquelas cordas que deixaste

E liberto todas as correntes que ataste

Já não sou teu servo

Nem mesmo um mero criado dos teus devaneios

Sou apenas uma fracção de existência

Mas mesmo que um segundo que seja, sou tempo e sou parte

Ínfima migalha de tudo

E tu, mera recordação

De um corpo sentado

Esperando aquilo que não se espera

Sem que antes

Se consiga dizer que não

À vida sentada.

A ti,

Que não passas de uma mescla de pensamentos

Deixo-te ir

Algures

Do meu sentimento

Que não se ressente do que me fizeste

Porque fui eu quem te deixou entrar

E abraçei-te ali, naquela cadeira

Onde um dia pensei estar sentado

E agora

É apenas o principio de saber dizer que não

Não quero estar sentado,

Antes caminhante do que reles pobre na cadeira.

 

publicado por opoderdapalavra às 21:35
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