podes pensar, podes falar, mas tudo o que escrevas tem o poder de ficar.
27 de Outubro de 2015

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Sentado naquele banco do costume. Olhando o lago do costume. As mãos nas pernas do costume. O cheiro das castanhas que vem queimadas, daquela banca de vendas do costume. As folhas que vermelhas e amarelas, caem das árvores do costume. O vento que chegou do norte, trazendo o frio do costume. O relógio da torre que mantém o andamento do costume.

Parece que a vida se tornou uma rotina do costume. Sem nada de novo, tudo se mantém, como de costume. Estas rotinas trazem-me a saudade. A lembrança de em pequeno, correr sem parar, como se o mundo tivesse um horizonte sem fim. A memória de em pequeno, saltar sem cansar, como se o coração batesse até ao infinito. 

Em pequeno também não via a mesma árvore, nem notava no mesmo lago. Parecia sempre tudo diferente. Até a água que vem do riacho e preenche aquele enorme lago, conseguia perceber que as goticulas tinham sempre um mover diferente, nunca as mesmas do costume. As árvores tinham ramos mais pequenos um dia e crescidos no seguinte. As pessoas eram ora mais risonhas ora mais tristes, mas nunca mais ausentes como agora, sempre como de costume. 

E agora, após estes anos diferentes, tudo é tão igual. As horas, os dias, as semanas, os anos. Levanto-me, como de costume, pelas 10. Sempre com uma pergunta a rondar os pensamentos, o que terá de diferente este dia? E como de costume, tomo um banho quente, visto quase sempre os mesmos padrões e como de costume, como a torrada e uma chávena de café quente. Nem chego a variar o complemento daquele pedaço de pão. Manteiga, magra e de pouco sal. Até a marca, como de costume, escolho sempre a mesma. Saio e percorro as mesmas ruas até ao parque. De dia para dia, encontro-me com pessoas sempre em corrida, despojadas de sensações, coladas a telemóveis, freneticamente ligadas a um stress drogado. Vejo poucos sorrisos, como de costume, e muitas faces sérias, enfiadas num baixo olhar e em lábios contidos. Chego a chocar com pessoas cegas, que invariavelmente não me veem, como se me tivesse tornado invisível. Nem se conseguem ver a si próprias, como de costume. O que diferencia esta caminhada são as lojas. Situam-se no mesmo firmamento do costume, mas as que estavam ontem abertas, nem sempre são todas as que hoje se abrem de novo. A barbearia do Zé fechou faz duas semanas. Cortei ali o cabelo, durante anos e anos, como de costume. Mas isso já não existe hoje. Ou a mercearia da Antônia, que não aguentou a ausência de gente, e morreu um sábado pela manhã, deixando-me à porta, esperando por comprar um pacote de açúcar para o café. Escutei, como de costume se escutam as más notícias, que não suportou as lágrimas da solidão, de uma loja vazia, da falta de palavras, conversas, dizeres e cusquices da vida alheia. 

Em pequeno as ruas eram todos os dias diferentes. Rodava a bicicleta pelos mesmos lugares, mas reparava sempre em algo de novo. Como se nunca ali tivesse estado anteriormente. Tinha outros olhos, outros sorrisos e outras atenções. Mas agora, como de costume, a rotina cai sempre sobre os ombros. E pesa. Pesa tanto que faz dor. Uma dor que traz, como de costume, a falta de vista. Fica-se tão curvo que não se vê para lá do chão. Sei que o céu mantém-se de azul e as nuvens de branco. E sei que algures pela noite, lá em cima, apresentam-se as estrelas, como de costume. Mas apenas as cores do chão e do rasteiro, como de costume, se tornaram a minha companhia. 

Como de costume, já não sei o que a vida trará de novo. Perdeu-se a novidade, padeceu lá atrás no tempo, o mesmo que identificamos na desculpa de nada de novo fazermos. 

E assim me deixo estar. Como de costume, no mesmo banco, onde me acostumo a esperar.

publicado por opoderdapalavra às 16:45
19 de Outubro de 2015

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o relógio ainda não acordou. 

mantém-se num empate de tempo, adormecido pela contagem interminável das horas. 

talvez espere também, como eu, pela chegada daquele instante em que somos interpretados como sugestões da historia. 

é o que este corpo aguarda. fechado no sofá, coberto pela manta que retira o frio e com a eterna chávena de chá na cabeceira, ele fica de frente à porta, um pouco entreaberta. 

ela surge sempre de branco, vem de água em riste, enfia uns comprimidos coloridos, sorri forçosamente e depois mexe e remexe em maquinas, anotando dados e despertando sons. após…o após é sempre a saída. 

e fica este corpo mais uma vez, só com o relógio. ele não se afronta com a minha presença. 

fica enternecido no seu canto. não mexe os ponteiros em demasia. já deixa um certo coma tomar conta do seu mecanismo. sente as rodagens gastas, rolamentos desabituados. 

e eu, no meio de pensamentos. perdidos. datas passadas. manhãs para trabalhar. noites com o pesadelo da duvida, e deitado sem comer, ou um beijo sem dar. e tudo ficou lá atrás. ficou onde fica o pó. depois vieram as urinas difíceis, as vezes em que me perdia as desculpas. vieram os momentos ausentes, as dificuldades da memória, os funerais dos amigos e familiares, e mais poços de lembrança. tudo foi ficando sem tinta, os pincéis deixaram de ter flexibilidade. ficou tudo rijo, a pele, os lábios que não falavam e os dedos que não mexiam. 

a rigidez do corpo é uma surdez do tempo. ele não grita, não chora nem clama. apenas padece, todos os dias mais um pouco. e não pede licença. apenas o faz. 

ela volta. e revolta mais uns comprimidos. levanta-me a cabeça e empurra a água. sinto que algo se espalha por dentro. olha-me os olhos. vê bem fundo. as minhas retinas ficam impávidas. 

parece dizer algo, que não ouço. apenas vejo-lhe uma boca em mexidas. 

se o relógio viajasse, eu iria com ele. lá atrás, onde ficou o pensamento. e convidava-a. ia mostrar-lhe uma carta. não uma qualquer. a ultima. aquela onde ficou escrito o que viria. o que iria chegar onde apenas chega o que deve.

tenho ainda em memória. lá no fundo, do poço. vou buscá-la. aqui está ela. leio-a. mas ela teima em não me escutar. continua remexendo os lábios, andando em círculos, como que desenhando rodas e corrupios de rodas. 

cá vai a ultima,

a data não interessa, um dia alguém a vai ler. 

escrevo-a para que saibam que um dia existi. e para que ela, a que tiver o afrontamento esplendoroso de a ler, possa perceber que certo tempo, algures lá atrás, onde o pó apaga a lembrança, alguém a amou.

sim. amei-te. tu que a lês, estas palavras corridas, sem tempo para te apanharem, sem tempo para me tocares. mas amei-te.

é duro perceber que se ama alguém que não se vê. mas o que é isso de amar afinal?

pergunta retórica sem resposta digna de ruborizar o caule das faces. 

são simples definições que a embelezam. amar é só sentir o que não se sente pelos dias que só se anda. amar é andar e saber que se anda. amar é como lavar a cara pela água que cai na bacia e saber que ela nos toca a pele de arrepio. não é apenas lava-la e depois achar que só se lavou.  amar é pegar no casaco e cobrir o corpo, dando-lhe o aconchego. não pode ser só vesti-lo e achar que ele apenas serve para servir mais uma imagem no espelho.

amar é ter-te. aqui, nestes braços que imaginas como compridos, capazes de te atirar ao ar e apanhar de novo. e senti-los rodarem sobre ti, e amarrarem-te junto a mim. amar é olhar-te, assim como quem olha quem nunca viu, de espanto, lembrado nos lábios que um dia beijou. e guardar esse beijo. numa gaveta escondida atrás dos armários, onde ficam os segredos, onde ficam as historias que só contamos ao nosso ego. sussurra o meu nome entre os demais, para que eles saibam que é de amor que falas. não abordas qualquer identidade, mas sim daquele que te levou na esperança e te trouxe com esperanças. que te deu luz e na luz trouxeste parte de quem te deu.

amar é tocar-te, no fundo das questões que nunca se discutiram, por vergonhas ou meras entre linhas. 

amar é tu escreveres sem palavras, manteres a página branca, mas saberes que ali está tudo dito. imaginem-o. é só isso. o amor não se vê. nem se pode. senão não era amor. sente-se. mas sente-se porque ele é fugido, escapa por entre os dedos, as oportunidades e vai de longe para bem longe. não se pode andar distraído. ele passa, assobia e logo deixa rasto. se não atenta, fica-se sem lastro, sozinho nas membranas dos porquês. porquê é que me acontece a mim? porquê ninguém me ama? porquê não encontro aquele que imagino? porquê quem amo não me vê?

porque não escutamos o seu falar. aquela conversa sem frases, aqueles dizeres sem diálogos. porque ele não se pode escutar. só ouvi-lo bater, pum pum pum pum, como uma locomotiva que se aproxima, a todo o gás, saltitando com pulos frenéticos e andar poético. ele vem sem pudores, arrebatando tudo por onde passa, e as pernas tremem, os braços esfolam-se por agarrar, mas as mãos soam, e a cabeça fica na solitária ideia de um só pensar. o de quem se agora ama. acabado de chegar. 

será assim que te vais sentir. e eu também quando te vir. eu sei quem és. não te posso descrever em todo. mas digo-te que já amo os teus cabelos, parecem ondas do mar, voando no som que o vento traz. os olhos são como esmeraldas. até na noite eles te brilham na cara. e os lábios saem-te do corpo, apetecíveis pedaços que beijam os meus. terás mãos de princesa, e corpo de mulher vivida, sem pecados. 

serei como um escravo desse teu amor. um daqueles que se entrega por completo, na riqueza escrava de te amar, sem mendigar um pedaço que seja de ti. apenas saber que estás ali. 

serei submisso ao teu tempo. ele será o meu. teremos apenas um tempo. e sem que ele possa se perder, e trazer um contratempo qualquer. 

serei a tua entranha de cama. a que te aquece, que se embrulha na pele que te esposa. 

serei a musica que ouves pela madrugada, dizendo-te sempre que és a mais bela aurora e a única penumbra que refresca o desejo matinal de te enriquecer.

serei o galo que te acorda, o andor que declama o teu nome e o doce anjo que adorna o teu ventre.

e quando leres estas folhas, não as rasgues. deixa-as ir com a brisa. levaram a saudade. a lembrança. aquela que me foi levada pelo relógio que conta as horas do meu caminho. 

quando leres esta carta estarei perdido sem saber o teu nome. perdi até o meu. o de todos. só terei o relógio. em contagem. dia e noite após dia e noite. nada mais.

estarei numa cadeira qualquer. algures enfiado num quarto. não me perguntes onde, porque já não tenho lembranças de nada. perdi tudo. não tenho nada.

dirão que é da idade, mas nem essa sei. ou que o meu cérebro padeceu dela. mas nem ele saberá também. 

por isso, lê esta carta e deixa-me amar-te, no sonho de um dia ter-te conhecido. quando ainda tinha a hipótese de o fazer. porque perdemos sempre o que de melhor a vida nos dá, só porque pensamos que amanhã ela nos dará ainda melhor. mas depois o melhor nunca chegou, porque ele já ficou lá atrás, onde o pó tudo apagou e esqueceu.

não assino, porque já perdi a esperança do meu nome.

 

e o relógio parece não ter acordado ainda. vou manter-me a dormir. poderá ser que um dia chegue o fim do sono e possa finalmente apenas repousar na memória dela, junto ao seu amor. 

publicado por opoderdapalavra às 23:52
12 de Outubro de 2015

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Procuro nas palavras algum encosto, um abrigo que me possa abraçar. Não que me sinta triste ou desfazado dos sentimentos. Apenas porque por vezes perdemo-nos nas conversas, nas frases que proferimos, e nem conseguimos encontrar tudo o que gostávamos dizer, um ao outro. E ficamos por ali. Perdidos. Sem conseguirmos encontrar o nosso nome no ventre do ego. Ele orienta-nos a voz das entranhas, que fala por todos os poros da pele e faz o cérebro cansar-se de pensar. Vem depois o aperto do peito, como que amassando toda a expressão de amo-te. O ego é um turbilhão de ideias. Ele não para de me dizer que tu isto ou tu aquilo. Gostava de saber onde é que tenho, neste corpo esguio, o botão, aquele on/ off onde se desliga esta parte interminável de mim. Ele não se coíbe de falar de vitimas, de culpas ou de suposições, apenas essa palavra, supor que tudo o que me rodeia é apenas a ilusão dos olhos. Que se dane ele. Eu quero é dizer-te aqui que as manhãs podem sempre ter um sopro desnorteado, mas a tua voz é o despontar de um calor que me abraça e conforta o corpo. As tardes podem nunca ter um fim, mas as tuas palavras sempre lhe dão um rumo. As noites podem mesmo escurecer os pensamentos, mas aquela frase que me diriges, sarapinta o tecido do céu com milhões de estrelas sorridentes. Tens a fome de beijar estes lábios, que esperam sempre por aquele simples beijo. Deixa-me dizer-te que os teus cabelos curtos trazem-me a saudade de pensar que tens a forma de uma qualquer musa. Ó inspiração que se apodera dos meus dedos, estes que se perdem por entre o teclado finito e dele estrai todo o texto dos sentidos.

Não podia encontrar outra forma de dizer-te isto. São anos e anos a sonhar com a tua chegada. Não podia adiar tudo o que a vida foi construindo, nem mesmo podia separar-me dos sinais, esses acontecimentos que nunca percebemos, que me trouxeram o teu nome, até junto de mim. Essa identidade que apaixonou este meu, ao sorrir pelo teu sorrir. E estes olhos que choram pelo teu chorar. E estas mãos que soam pelo teu suar. E estes braços que te procuram quando me procuras. Não se pode esconder o que a vida trouxe à luz dos dias. Não se pode manter na sombra tudo o que a vida destapou para que fosse sentido. Não se pode negar o que está escrito. Não se consegue em páginas, papéis de escritório ou páginas sociais, mas sim naquele lugar onde apenas fica o que de facto é incondicionalmente sentido. É aí que está o meu amo-te, aquele que sempre que ouvias o silencio e mesmo sem me ver, ele estava lá. Ele esteve sempre quando acordas, quando respiras, quando pensas, quando mexes na caneta procurando o rascunho, ou quando bebes aquele copo de água que te fastia a sede. O amo-te esteve sempre nas rasuras do dia, nos rabiscos da noite, nas ausências e nas presenças, nos olhares sem motivo ou nos motivos do olhar, nos beijos perdidos assim como quando perdidos em beijos. Ele é apenas tudo o que fica, com o teu nome, como o teu corpo. Ele é o sopro que respiras...melhor, o meu amo-te sempre foi o meu respirar que te entrego, partilhando contigo estes pulmões que se entregam no teu respiro. Ele é o sonho que vivemos e o que ainda temos por viver. Ele é o ontem, o hoje e o amanhã. E mesmo que não saibas mais o meu nome, saberás que esse esquecido te ama muito.

Eu sei que o meu amo-te é pouco. Quase nada nesta infinitude de universo. Mas é tudo o que tenho. Procurei muito mais, mas não encontrei. Aliás, este amo-te supera mesmo tudo o que detenho. Despojei-me de lembranças sem sentido, recordações que apenas faziam pó, memórias que pesavam como baús de lixo, tudo para conseguir obter este amo-te. Fiquei só com a roupa de fotografias tuas. Todas aquelas que me fazem pensar que afinal a vida tinha razão... vale mesmo a pena dizer-te amo-te...

publicado por opoderdapalavra às 23:16
05 de Outubro de 2015

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Temo tudo e não temo nada.

Fico tantas vezes, que já me esqueço de as contar, a olhar aquele espelho quase desnudado de reflexo. A manhã é sempre um problema maldito. Olhar esguio e fechado, carne dura e mal formada, cheiros que matam qualquer insecto e um hálito de cor púrpura... como se fosse possível ver a cor de um bafo carregado de lástimas. Sempre a mesma cara. Anos e anos a fio a ver sempre o mesmo gajo daquele lado. Sempre na esperança de chegar um dia que pudesse contemplar alguém diferente, de anos para trás e não para frente do caminho.

O banho é a água a cair solenemente no corpo. Quente e fria, fria e quente. Nunca acerto com o raio da torneira, maldita sejas ó escolha ambígua sem ambiguidades. E de repente a vontade de me jogar na sanita, despejando-me de todas as maleitas que o passado me carregou... ou carreguei eu este corpo efémero. Coitado, tiveste azar em seres o escolhido. Podais agora ter alguém que te tratasse melhor, que te levasse a comer a sítios diferentes, chiques, de comida saudável, a beber um vinho furtado e a envolver-te com perfumes de mulheres únicas. Mas não, fui eu. Tabernas com cheiro a bêbados, ruas encharcadas e lixos, putas que não sabem se lavar e comidas repletas de gorduras saturadas.

Fodas que este doeu a sair. Duro como cabo de aço que atravessa canais. Sinto-me vazio. Preciso do café. Meio trago de aguardente no acompanhamento. Pão seco e umas tiras bolorentas de presunto. Sair de casa é sempre o suplicio de achar que é tempo perdido ir à rua. A mesma que abriga os amigos do costume. Perdidos de nome, sem nome para chamar, são cães de fila que se juntam pelos caixotes que abrigo nos meus braços. Lanço as suas entranhas no camião. Despoja-se a cidade dos seus infames conteúdos, e ficam os ossos roídos pelo tempo. Esse ladrão que me deixa com o mesmo rosto e me leva os anos.

Mas eu não temo nada nem nada temo, apenas fico agastado por o espelho manter a mesma imagem, daquele lado que não consigo apagar, a olhar-me, feito estúpido que espera que a vida o leve, quem sabe para o corpo de uma mulher.

publicado por opoderdapalavra às 23:44
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